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Programa espacial americano: Contagem regressiva

Depois do desastre com a Challenger, em 1986, o programa espacial americano praticamente parou. Seu renascimento depende agora do que acontecer com a Discovery, cujo lançamento está previsto para o fim deste mês.

Do mesmo Centro Espacial John Kennedy, na Flórida, onde há 31 meses ocorreu a maior catástrofe da história da conquista do espaço—a explosão da nave Challenger—, deve subir, se não houver novo adiamento, o ônibus espacial Discovery, com o qual os Estados Unidos se preparam para retomar seu interrompido programa de exploração do Cosmo. Em outubro, será a vez da Atlantis, em missão para o Departamento de Defesa Contemporânea da Challenger, e tendo voado pela primeira vez em novembro de 1984, a Discovery será levada à plataforma de lançamento com menos modificações do que se chegou a imaginar, quando o governo americano decidiu seguir adiante com o projeto dos ônibus espaciais, após a tragédia de 1986.

A rigor, os foguetes lançadores, ou boosters, como são chamados, é que sofreram mais alterações. Não é para menos, pois foram a causa principal do acidente que transformou a Challenger numa bola de fogo. A maior dificuldade tem sido desenhar um sistema eficiente de anéis de vedação para os boosters, dois foguetes que ficam ao lado do enorme tanque de combustível e são construídos como uma série de tambores empilhados. Para unir uma peça à outra é intercalado um anel de vedação—feito de um composto capaz de resistir às temperaturas mais extremas, tanto abaixo como acima de zero.

Foi justamente uma falha nesse sistema de vedação que deixou escapar combustível no lançamento da Challenger, provocando a explosão. Nos últimos dois anos, engenheiros da NASA e da Morton Tiokol, a empresa que construiu os foguetes, desenvolveram e testaram um sistema mais eficiente de anéis de vedação. A nave espacial propriamente dita, o orbiter, é a mesma dos vôos anteriores, sem nenhuma modificação. Não foi instalado nenhum sistema de salvamento dos astronautas em caso de acidente, como uma cabine ejetora, por exemplo.

Os técnicos da NASA afirmam que tal sistema seria excessivamente oneroso, além de comprometer o desempenho do lançamento ao aumentar em demasia o peso da nave. E, o que é pior, sem nenhuma garantia de que funcionasse: durante a subida, viajando a quase 4 500 quilômetros por hora — a velocidade necessária para romper a força de atração da gravidade—, não há cabine ejetora capaz de salvar vidas, no caso de uma falha inesperada.

No solo, contudo, várias modificações foram feitas—por exemplo, na rampa de lançamento, um dos pontos mais vulneráveis dos programas espaciais. Tanto a tripulação da nave como as equipes de resgate poderão ser retiradas rapidamente do local por meio de pequenos teleféricos, capazes de transportar até três pessoas para um abrigo, a 330 metros da rampa, de onde serão levadas por carros de combate M- 113 modificados, que atravessam uma área incendiada sem sofrer danos, até um abrigo ainda mais distante. De qualquer forma, como nos primeiros dias da aventura espacial, na década de 60, haverá muita tensão no ar—afinal, está em jogo a própria sobrevivência do programa americano.

O trauma causado pela morte de sete pessoas a bordo da Challenger, entre elas a professora primária Christa MacAuliffe, fez com que a NASA redefinisse o tipo de uso para o space shuttle, que passou a ser exclusivamente científico e militar. O ônibus espacial deixa de transportar tripulantes não especializados, ao contrário do que queria o departamento de relações públicas da agência espacial, que esperava poder levar um leigo como passageiro em cada um dos futuros vôos.

A colocação de satélites comerciais em órbita deixará também de ser uma prioridade — outros podem fazer o serviço, não apenas mais barato mas com maior eficiência, como o consórcio espacial europeu Ariane e os chineses, sem falar dos soviéticos, que abriram um escritório em Houston, no Texas, oferecendo seus serviços. Enquanto os americanos procuravam soluções de alta tecnologia— e cada vez mais caras—para os veículos espaciais, os soviéticos avançaram passo a passo com naves relativamente simples e confiáveis, mantendo um ritmo constante de lançamentos.

A estação espacial Mir é um perfeito exemplo da filosofia soviética. Colocada em órbita em fevereiro de 1986, ela é menor e menos sofisticada que a estação espacial Skylab, lançada pelos americanos em 1973. Mas, enquanto a Skylab foi abandonada em 1974, a Mir tem colecionado resultados impressionantes, como o recorde dos 362 dias que o cosmonauta Yuri Romanenko passou em órbita, em 1987. Até o final da década, os soviéticos esperam poder colher amostras do próprio solo do planeta Marte.

Missão similar está sendo projetada pelos americanos. Por causa disso não faltam especialistas de grosso calibre para propor a cooperação entre os dois países nessa missão. A exploração de Marte está presente no já famoso relatório encomendado à pesquisadora Sally Ride, a primeira mulher astronauta americana. Com o título “Liderança e Futuro da América no Espaço”, o texto foi terminado no ano passado, antes que ela voltasse a trabalhar na Universidade de Stanford, na Califórnia. O Relatório Ride, como ficou conhecido, fixa metas para as futuras missões americanas.

Segundo ele, em 1994, quatro plataformas espaciais de observação seriam construídas. Circulando em órbitas polares, teriam como função principal o estudo da Terra. Afinal, os propósitos científicos da exploração espacial não devem excluir o planeta. O estudo do sistema solar seria reiniciado, ainda de acordo com o relatório, com duas missões- robôs. Uma, projetada para colher amostras do solo marciano em 1996; outra, para estudar Saturno e Titã—a maior de suas quinze luas—em 1998. E, finalmente, o envio da primeira missão tripulada para Marte, em 2005.

Uma missão conjunta, envolvendo americanos e soviéticos, nesse caso teria maiores possibilidades de êxito. Os soviéticos dominam as técnicas da longa permanência no espaço e da descida de naves tripuladas em solos desérticos (as cápsulas americanas desciam no oceano). Assim como possuem o mais poderoso foguete lançador da atualidade, o Energia. Por sua vez, os melhores recursos tecnológicos e as diversas missões tripuladas à Lua, na década de 70, deram aos americanos a experiência única de pisar no solo de outro planeta ou satélite.

Isso reforça a proposta apresentada pelo astrônomo Carl Sagan, o autor do livro e da série de TV Cosmos, um ardoroso defensor da idéia da missão conjunta. Aliado a pessoas famosas, como o ex-presidente Jimmy Carter, ele escreveu a Declaração de Marte, defendendo a exploração do planeta, “para fornecer um objetivo coerente e um senso de propósito para a NASA, que hoje está sem o espírito de iniciativa que a caracterizava”.

As metas propostas no Relatório Ride, de certo modo, não foram novidade para a NASA, que já possuía um plano similar — o Projeto Pathfinder (guia ou batedor). Em vez de missões específicas com data certa, como gostaria Sally Ride, a NASA se concentra em desenvolver quatro áreas de tecnologia essenciais para a realização daqueles mesmos objetivos. A primeira dessas áreas diz respeito ao desenvolvimento de técnicas de exploração para a coleta de informações científicas, tanto em missões robotizadas como tripuladas. O objetivo é criar veículos motorizados capazes de viajar com grande autonomia e desenvoltura na superfície da Lua ou de Marte.

A segunda área de estudos visa à construção, manutenção e operação de sistemas integrados, em órbita ou na superfície. Os técnicos da NASA procuram criar um sistema automático de acoplamento, permitindo que as estações espaciais possam se conectar facilmente com outros veículos, tripulados ou não. Também está em estudos a construção de usinas de mineração no solo lunar, para o processamento do oxigênio. Tais usinas serão fundamentais para a autonomia das colônias lunares. Futuramente, verdadeiros estaleiros espaciais montarão grandes estruturas em pleno espaço, já que o tamanho de uma estação espacial, ou da nave para uma missão tripulada a Marte, inviabiliza o lançamento dessas estruturas, já montadas, a partir da Terra.

A terceira área lida com as tecnologias necessárias à segurança e produtividade das missões humanas no espaço. Aqui se inclui a pesquisa de novos trajes para astronautas, assim como técnicas para evitar a degeneração fisiológica do corpo humano causada pelas longas missões na ausência de gravidade. O último e não menos importante aspecto do Projeto Pathfinder trata daquilo que a NASA chama “veículos de transferência”— em bom português, as naves espaciais. Os técnicos pesquisam um sistema de propulsão para longas jornadas, seguro o suficiente para permitir reparos, sem a necessidade de cancelar a missão.

Nos computadores da NASA, os técnicos já fizeram diversas simulações da controvertida técnica chamada aerobraking (aerofrenagem), ou seja, utilizar a própria atmosfera de um planeta para frear a nave, durante a entrada em órbita depois de uma viagem espacial, poupando combustível dos foguetes retropropulsores. O menor erro de cálculo pode fazer a nave interplanetária se espatifar na chegada. Quando finalmente conseguirem dominar esta técnica, será dado um grande passo a favor das missões tripuladas a outros planetas.

A NASA retoma, atualmente, o programa espacial, seguindo o caminho já traçado pelo Projeto Pathfinder. Duas missões científicas não tripuladas estão quase prontas. A primeira, a Galileu, será lançada em outubro de 1989 com destino às luas de Júpiter. A segunda missão partirá em 1993 para encontrar e acompanhar o cometa Tempel 2 por um período de três anos. Projetos mais ambiciosos, como a estação espacial, a base lunar e a missão tripulada a Marte, encontram, porém, uma grande barreira entre o mundo da fantasia e a realidade terrestre: o orçamento da NASA.

Num ano de eleições presidenciais como este, o déficit público americano se torna um importante tema de campanha. Com isso, fica mais difícil para a NASA justificar um pedido de mais verbas, como reconhece James G. Fletcher, atual administrador da agência: “O objetivo é manter durante este período de austeridade orçamentária um programa espacial forte, mas economicamente sensato”. O que muitos duvidam é se a NASA vai conseguir sobreviver dentro dessa política, em face dos elevados custos da exploração espacial. A aventura americana talvez dependa do aparecimento de um presidente sonhador, disposto a arriscar dinheiro e prestígio para mais uma vez colocar o país no caminho das estrelas.

Carga preciosa

A retomada do programa americano vai tornar possível a colocação em órbita do telescópio espacial Hubble, avaliado em 1.4 bilhão de dólares, que deveria ter sido lançado em outubro de 1986. Em órbita, livre das perturbações atmosféricas, seu poderoso espelho de 2,4 metros de diâmetro permitirá enxergar sete vezes mais longe que qualquer outro telescópio ótico terrestre. Já não é sem tempo. Com o atraso no programa espacial americano, os astrônomos perderam a oportunidade única de estudar, com o Hubble, a mais próxima explosão de uma supernova dos últimos trezentos anos — a Shelton 1987A—, que aconteceu no início do ano passado. Resta esperar por novas oportunidades.

Para saber mais:

Próxima parada: Netuno

(SUPER número 2, ano 3)

Olhos e ouvidos da Terra

(SUPER número 9, ano 4)

Fábrica de foguetes

(SUPER número 7, ano 5)

Delta Clipper: este foguete vai e volta

(SUPER número 6, ano 8)

A reconquista do espaço

(SUPER número 2, ano 10)