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Brasileiro descobre primeiro mamífero exclusivo de Trinidad e Tobago

Para ver o morcego M. attenboroughi ao vivo e a cores, só fazendo uma visitinha ao país caribenho

O que você conhece de Trinidad e Tobago?

Além de serem um belo roteiro turístico – e terra natal da cantora Nicki Minaj – essas ilhas caribenhas têm uma biodiversidade impressionante. Por lá, foram registradas pelo menos 3.300 espécies de plantas e quase mil peixes marinhos diferentes. Além disso, o país dispõe de tipos únicos de insetos, anfíbios e aves, que não podem ser encontrados em nenhum outro lugar do mundo.

Por causa do trabalho de um grupo internacional de pesquisadores coordenado por um brasileiro, Trinidad e Tobago atualizou esse número de espécies exclusivas – adicionando o primeiro mamífero à lista. Coube ao mastozoólogo Ricardo Moratelli, da Fiocruz Mata Atlântica, identificar uma variedade de morcego que vive somente na ilha de Tobago, a Myotis attenboroughi. Ela foi descrita em uma publicação do periódico Journal of Mammalogy.

É a nona espécie que Moratelli ajuda a identificar – todas as anteriores também foram de morcegos, sendo sete delas pertencentes ao gênero Myotis. Para comprovar existência da mais nova, o pesquisador não precisou se embrenhar nas matas densas trinidianas. A descoberta, na verdade, aconteceu a milhares de quilômetros do local: em um museu do Instituto Smithsonian, importante centro de pesquisa científica de Washington, capital dos EUA.

Revirando os dados sobre morcegos caribenhos disponíveis no museu, Moratelli percebeu que um exemplar descrito como sendo Myotis nigricans pertencia, na verdade, a uma espécie diferente – que não havia sido denominada ainda. Com uma análise mais aprofundada, o brasileiro comprovou diferenças genéticas no citocromo b (proteína encontrada no interior das mitocôndrias), além de alterações no formato do crânio entre os indivíduos catalogados que viviam na ilha. Saída do fundo das gavetas dos museus, “nasceu” a M. attenboroughi.

O nome complicado da espécie é uma homenagem a David Attenborough, naturalista britânico de 91 anos. Grande expoente da divulgação científica mundial, Attenborough ajudou a batizar também outros animais, emprestando seu nome a tipos de anfíbios, aracnídeos e insetos. Dentre os mamíferos, classe bastante apreciada pelo cientista, só existia, até então, uma espécie de equidna que recebera, identificada em 1998.

Ao longo do estudo, Moratelli analisou mais de 5 mil indivíduos e visitou 30 museus, de países da Europa e das Américas. Tudo para conseguir a confirmação de que a espécie é “endêmica” de Trinidad e Tobago. Isso quer dizer que você não verá um exemplar de M. attenboroughi caçando insetos por aí se não fizer uma visita a essa região específica do Caribe.

Para o pesquisador, a descoberta demonstra o potencial que as coleções biológicas escondem. Ele acredita que um bom número de novas espécies possam estar engavetadas, erroneamente classificadas em uma categoria que não é sua verdadeira.

Algumas dessas espécies permanecem anos aguardando reconhecimento formal nas gavetas e jarros de museus. Por lá, podem passar décadas ou mesmo séculos até serem corretamente identificadas. “O intervalo entre uma nova espécie ser colocada em um repositório até ser descrita costuma ser grande. Em 2011, cheguei a descrever uma variedade brasileira que havia sido coletada pela primeira vez em 1898”, comenta Moratelli, em entrevista à SUPER.

Isso é reflexo dos caminhos tortuosos que a classificação de novas espécies costuma tomar. Para alguns cientistas, o trabalho de busca por novos animais se resume a levantar a diversidade de uma região in loco e alimentar coleções biológicas por todo o mundo. O material recolhido nas excursões, então, fica disponível para análises de outros pesquisadores e pode motivar novos estudos no futuro.

Para o cientista, revisitar variedades animais já catalogadas é um esforço importante. “O trabalho taxonômico pode colocar a pedra fundamental de uma nova espécie”, diz. “Depois da descrição, o campo está aberto para ecólogos e conservacionistas entenderem os hábitos desses animais e avaliarem seus status de conservação”.

Essas e outras particularidades são perguntas que ainda permanecem sem resposta para o novo morcego de Tobago. Nada que pesquisas futuras que foquem no comportamento e ecologia da M. attenboroughi não deem conta de resolver.