Uma questão de inteligência: livro A Curva Normal não é científico

Um livro escandaloso usa argumentos pretensamente científicos para defender o preconceito racial.

por Marco Chiaretti

Os negros são menos inteligentes do que os brancos? Sim, dizem Charles Murray e Richard Herrnstein no livro A Curva Normal. Para os dois, a inteligência, além de ser mais generosa com os brancos, é maior entre os mais ricos e não muda de lado de jeito nenhum, nem se o Estado descarregar montanhas de dinheiro em educação. Claro, tão logo apareceu, o livro foi chamado de racista e nazista por todos os lados. Talvez ele não seja tão maligno, mas uma leitura mais atenta mostra que está longe de ser científico. Escondidas atrás de pilhas de números e estatísticas, estão as posições políticas, contra a assistência social aos mais necessitados. E se há uma grande ameaça para a ciência, é a tentativa de usá-la para encobrir fins políticos.

 

  

Todo cérebro é cinza

Dois professores universitários norte-americanos, Charles Murray e Richard Herrnstein, criaram uma grande polêmica, no fim do ano passado, com um livro. A Curva Normal — em inglês, The Bell Curve — é dividido em quatro partes e 22 capítulos, acompanhados por vários apêndices. São 845 páginas. Destas, as notas ocupam 109 e a bibliografia mais 58.

Tudo para afirmar que os 30 milhões de afro-americanos, 15% da população dos Estados Unidos, têm em média um quociente intelectual (QI) mais baixo do que os norte-americanos de origem européia, por sua vez menos inteligentes do que os asiáticos. Foi uma gritaria generalizada. Herrnstein morreu em setembro, um pouco antes do lançamento da obra. Murray, então, teve que enfrentar sozinho a reação dos críticos. Segundo argumentou, não haveria novidade no trabalho, que apenas teria coragem de alardear o que a comunidade acadêmica preferiria esconder.

Antes mesmo de A Curva Normal sair, dezenas de resenhas e artigos já o combatiam. A briga continuou, ocupando páginas e páginas de jornal, inclusive no Brasil.

Além de sustentar que há raças mais espertas do que outras, os dois autores promovem uma completa apologia do preconceito social e racial. Murray é um conservador que acha que o Estado não deve gastar dinheiro com assistência aos necessitados. Diz que isso não resolve nada. Encontrou em Herrnstein um aliado sob medida.

Herrnstein fez sua reputação apregoando coisas como: a inteligência é hereditária; na sociedade atual, os intelectualmente mais capazes seriam os mais ricos; os pobres são pobres porque não são muito brilhantes e casam com outros pobres, têm filhos menos brilhantes, e assim por diante. Os ricos, em contrapartida, vão melhorando sua estirpe de geração em geração, formando o que ele chama de elite cognitiva. Continuando assim, previa Herrnstein, a sociedade norte-americana acabaria dividida em duas ao cabo de algumas décadas. Em outras palavras, ele projetava para o futuro uma espécie de “admirável mundo novo” (que faz lembrar, ao menos de longe, o romance de Aldous Huxley).

Herrnstein esteve em evidência no começo dos anos 70 com suas teses de hereditariedade do QI. Na mesma época, o físico norte-americano, William Shockley, que queria esterilizar os menos inteligentes, pagando-os por isso.

Shockley, que ganhou um prêmio Nobel pela invenção do transístor, é o mesmo que fundou um banco de esperma nos anos 70 para guardar os genes dos mais bem dotados intelectualmente. Não criou nenhum gênio.

Agora, 20 anos depois, a dupla Herrnstein e Murray não se deu por contente em mexer apenas no vespeiro do preconceito racial ou da luta de classes. Quis mais. Afirmou que investir na educação dos “menos dotados” (entenda-se: negros e pobres) não adianta nada porque o QI não muda. Segundo os dois, a educação norte-americana vem cometendo um erro suicida ao nivelar todos por baixo, arrastando para o poço o potencial intelectual da nação. Baseados em quê? Em um conjunto de pouco mais de 100 pesquisas sobre QI e condições de vida de vários grupos sociais no país, feitas nos últimos 70 anos.

  

Murray e Herrnstein consideram que há seis evidências, e fazem delas o ponto de partida:

1. Existe um número que mede a inteligência. Esse número é melhor representado pelo chamado “fator g”, criado pelo psicólogo inglês Charles Spearman em 1904.

2. Os testes de QI expressam com precisão esse número.

3. Os testes de QI indicam o que se chama comumente de inteligência — que os autores preferem chamar de habilidade cognitiva.

4. O QI de alguém é estável durante a vida.

5. Testes de QI bem aplicados não são alterados por diferenças sociais, econômicas e étnicas. Ou seja, o mesmo teste pode ser aplicado a qualquer pessoa, sem perigo de que os resultados sejam falseados.

6. A habilidade cognitiva é hereditária, num fator não menor do que 40% e não maior do que 80%.

 

 Como as pesquisas que eles usam — e consideram acima de qualquer dúvida — dizem que, em média, norte-americanos de origem africana ficam 15 pontos abaixo dos brancos em testes de QI. E, como esses testes medem a inteligência, os afro-americanos, na média, são menos inteligentes, têm menos habilidades cognitivas (pode haver exceções, mas são apenas exceções). Estão fora da elite.

Os pobres também. Os desempregados também. As mães solteiras também. Os latinos também.

Acusados de racismo, os autores se defendem. Dizem que fazem ciência e que todo o resto é populismo. Ou seja: tudo aquilo que os conservadores americanos morriam de vontade de anunciar mas tinham vergonha. Agora, elas aplaudem o livro como quem dá boas vindas ao argumento científico que faltava. Será mesmo?

A resposta é não. Por muitas razões. Em primeiro lugar, porque o livro não define os conceitos, nem limita seu campo de trabalho. Afinal, o que é “raça negra”? Quem são os “brancos”? Para o senso comum pode ser óbvio, mas para a ciência são necessários parâmetros mais precisos. Como veremos a seguir, há este e muitos outros senões científicos em A Curva Normal.

Murray e Herrnstein, os autores de A Curva Normal, preocuparam-se em acender a polêmica sobre diferenças raciais e genéticas com relação à inteligência, mas não ficaram por aí. Dizem também que os pobres têm menos QI e que a sociedade norte-americana dirige-se para um cenário apocalíptico, com uma divisão entre duas castas, a dos ricos superinteligentes e a dos pobres superimbecis QI justificou restrições a judeus e italianos

O psicólogo francês Alfred Binet (1857 - 1911) foi o primeiro a conceber um teste para medir a inteligência, em 1905. Só que Binet não estava interessado em medir a inteligência abstrata de milhões de indivíduos, mas descobrir porque algumas crianças tinham problemas escolares e ajudá-las. Poucos anos depois, seu teste foi adaptado por psicólogos norte-americanos e ingleses, que misturaram preocupações com a eugenia (purificação da raça) à idéia de que a inteligência seria quantificável, medida por um número — chamada de “fator g” por um psicólogo e estatístico inglês, Charles Spearman, em 1904.

A eugenia dominava o ambiente científico nos dois países, Estados Unidos e Grã-Bretanha, no princípio do século. Em 1917, os partidários da validade dos testes convenceram o Exército norte-americano e mediram o quociente intelectual, ou QI, de 1 750 000 recrutas.

Com isso, os psicólogos que defendiam a validade desses testes puderam criar uma escala. Segundo eles, essa escala podia ser aplicada a qualquer um, independentemente de sua idade, cultura, sexo e origem étnica, o que Binet nunca teria admitido. A idéia de medir a inteligência humana fez imediatamente muito sucesso, mas já nos anos 20 muitos pesquisadores puseram em dúvida os príncipios de aplicação desses testes. Alguns desses críticos era gente que antes defendia os testes.

Apesar das críticas, os testes de QI serviram de base científica para o Immigration Act norte-americano, uma lei que em 1924 controlou a entrada de imigrantes do Leste e do Sul da Europa, basicamente judeus e italianos. Os pesquisadores acreditavam que italianos e judeus ocupavam degraus mais baixos do que os povos do norte da Europa na suposta escala universal da inteligência humana.

 

  

Um gene que ninguém viu

O genoma humano, o conjunto dos genes de cada um de nós, é muito complexo e ainda está longe de ser totalmente mapeado. Ninguém sabe quais são os genes (ou o gene) responsáveis por aquilo que chamamos de inteligência. Ninguém nunca “viu” o gene do QI. Como saber então se as pessoas avaliadas nos testes de QI, em determinado grupo racial, têm exatamente todos os genes responsáveis pelas habilidades intelectuais daquele grupo?

E mais: em sociedades interraciais como a nossa, é possível falar de “raça pura”? Diferenças entre a origem das várias populações vindas da África com a escravidão produzem diferenças genéticas determinantes da inteligência? Homens negros são menos inteligentes do que mulatos? Brancos de origem italiana são menos inteligentes do que brancos de origem espanhola?

Quem são os “latinos”? Indivíduos com um genoma muito característico, ou simplesmente imigrantes e seus filhos, vindos de países americanos ao sul dos Estados Unidos? Murray e Herrnstein não se preocuparam com isso.

Assim como não se preocuparam em definir exatamente o que é a inteligência, ou a habilidade cognitiva, como dizem. Para alguns psicólogos, como o inglês Cyril Burt (1883 - 1971), a inteligência é algo unitário, uma “coisa” que pode ser medida como medimos a altura de alguém com uma fita métrica. Para outros cientistas, não podemos falar de uma inteligência, mas de várias, cada uma delas referente a uma capacidade intelectual. Não há unanimidade, assim com não há nenhuma certeza sobre o lugar exato onde “se esconde” a inteligência no cérebro, mas Murray e Herrnstein fingem que a discussão está encerrada.

Para mascarar a diversidade de opiniões e de pontos de vistas, eles cedem ao demônio dos números. Há uma enxurrada de estatísticas, muitas delas pouco confiáveis.

O britânico Francis Galton (1822 -1911), parente de Charles Darwin, já era obcecado pela medida de tudo que dissesse respeito ao homem e suas capacidades intelectuais e físicas. Galton foi também um dos primeiros cientistas a pensar na eugenia como um dos resultados da teoria da evolução das espécies concebida por seu primo Darwin. Acreditava que a inteligência era uma característica inata, assim como Burt. Este, aliás, como não conseguia demonstrar suas teses de maneira confiável, chegou a fraudar resultados experimentais. Aplicou testes de QI a 53 pares de gêmeos univitelinos (ou seja, geneticamente idênticos) criados separadamente desde o nascimento e afirmou que os resultados eram idênticos nos irmãos.

Acontece que gêmeos univitelinos são muito raros, gêmeos univitelinos separados ao nascer são ainda mais raros e é muito, mas muito difícil encontrar 53 pares de gêmeos assim. Em 1971, um psicólogo norte-americano, Leon Kamin, desconfiou dos números perfeitos demais de Burt. Em 1976, um jornalista inglês, Oliver Gillie, mostrou que Burt falsificara os resultados, inventando colaboradoras para suas pesquisas. Em 1979, L. Hernshaw escreveu uma biografia de Burt mostrando que o cientista começara a falsificar resultados antes mesmo da investigação sobre os gêmeos. Murray e Herrnstein desqualificam Gillie, não levam em consideração Kamin e nem citam Hernshaw.

Uma das fontes essenciais de A Curva Normal é um artigo escrito em 1969 pelo psicólogo norte-americano Arthur Jensen sobre a hereditariedade da inteligência, baseado nas pesquisas de Burt. Entende-se porque o livro desqualifica os críticos do inglês que falsificava pesquisas.

As fontes são um dos maiores problemas para a credibilidade do livro. Murray e Herrnstein citam vários autores ligados a uma revista, Mankind Quarterly, conhecida por suas posições eugênicas. O editor da revista, o irlandês Richard Lynn, usou em suas pesquisas sobre a relação entre o QI e as raças estudos feitos na África do Sul na época do apartheid ou nos sul dos Estados Unidos antes dos anos 60, quando o racismo era moeda corrente por lá. A veracidade dessas pesquisas é no mínimo dúbia.

O canadense J. Philippe Rushton, outra fonte de A Curva Normal, foi advertido por sua universidade por causa de seus métodos de pesquisa. Rushton sustenta o original ponto de vista segundo o qual a inteligência e o tamanho do pênis são inversamente proporcionais, isto é, quanto maior uma, menor o outro.

Por fim, os testes de QI, que Murray e Herrnstein consideram indiscutíveis, são um instrumento que dificilmente pode ser considerado tão objetivo ou neutro quanto uma balança ou um microscópio. Não medem a inteligência, mas suas manifestações. Seus resultados dependem de raciocínios relacionados com o aprendizado, e não inatos. Os testes exigem, entre outras coisas, um conhecimento mínimo da língua na qual são feitos. No começo do século, muitos imigrantes europeus, analfabetos, eram submetidos a eles, e resultavam ser débeis-mentais. A proporção era tão grande que os psicólogos responsáveis preferiram eliminar alguns dados. Nunca se perguntaram se o problema não estaria nos testes.

Com tantas incorreções, falsas respostas, omissões e confusões, A Curva Normal não pode ser aceito como científico. Se os racistas imaginavam ter encontrado no livro uma justificativa científica para seus preconceitos, terão que procurar mais.

 

 

 

Para saber mais:

Todos parentes

(SUPER número 3, ano 7)

 

 

 

 Um dos autores queimou cruzes na juventude

O sociológo norte-americano Charles Murray, hoje com 51 anos, ficou famoso em 1984, ao publicar um livro afirmando que o Estado fingia amparar os pobres mas na prática gastava o dinheiro dos contribuintes e não ajudava ninguém. Virou o intelectual preferido dos conservadores durante o governo de Ronald Reagan. Nascido e criado em uma cidadezinha pequena e tranqüila (chamada Newton, no estado de Iowa), dessas onde todos se conhecem, Murray já queimou cruzes quando jovem, no estilo da Ku Klux Klan, o mais famoso bando racista norte-americano. Hoje, diz que se arrepende. Ao crescer, preferiu bater duro na distribuição de cotas de acesso às universidades a grupos étnicos, ou criticar os programas de assistência a desempregados e mães solteiras.

Seu parceiro em A Curva Normal, o psicólogo Richard Herrnstein, publicou em 1971 um ensaio onde afirmava, baseado em testes de QI, que a inteligência é hereditária. E como os pobres seriam menos inteligentes do que os ricos, o fosso intelectual entre ricos e pobres se alargaria cada vez mais, formando uma sociedade de castas, com ricos superinteligentes de um lado e pobres superburros do outro. Não se preocupou muito em fundamentar suas teses com dados. Recebeu tantas críticas que preferiu ficar quieto. Vinte e três anos depois, voltou ao tema. Morreu de câncer em setembro do ano passado. Os dois apresentam suas idéias como se fossem irrefutáveis no âmbito científico. Insistem várias vezes que seus críticos só estão atrás de popularidade. Observação estranha, se considerarmos que Murray também é popular — entre os que adotam suas idéias. A Curva Normal tem tantas incorreções, omissões e enganos que está bem longe de poder ser considerado um livro científico.

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