Globalização é o Cassete
Gênova, julho de 2001. Um imenso aparato policial é organizado às vésperas do encontro do G-8, o grupo das oito nações mais industrializadas do mundo. Cerca de 15 000 policiais enfrentam 100 000 manifestantes. A repressão, duríssima, resulta na morte de Carlo Giuliani, 23 anos, ligado ao movimento anarquista. Foi o ponto culminante da confusão que acontece em quase todo encontro de cúpula. Afinal, o que querem esses manifestantes? Que cartilha eles seguem 12 anos depois do desmoronamento do Muro de Berlim? O ideário desses contestadores genericamente chamados de “antiglobalização” (rótulo que eles rejeitam) não é fácil de resumir em um só livro, mas a editora Conrad está prestando um serviço para quem quer entender o que os revolucionários do século XXI pensam. Trata-se da coleção “Baderna”, um apanhado dos principais textos teóricos que estão por trás das manifestações – pregando desobediência civil, manifestações pacíficas e outras nem tanto.
A confusão em Gênova, assim como a de dois anos antes no encontro da Organização Mundial do Comércio, em Seattle, Estados Unidos, são frutos da proliferação de movimentos descontentes com a globalização e o capitalismo. De esquerda, esses movimentos não têm vínculos formais com os partidos tradicionais. Se, no passado, uma organização como o Partido Comunista do Brasil tinha inspiração soviética e pauta nacionalista, os atuais movimentos são transnacionais. Ou seja, ironias à parte, são também filhos da globalização. “As origens desses movimentos são internacionais e suas demandas também”, diz o americano David Graeber, estudioso da esquerda. Por isso, há desde grupos que reivindicam a taxação de operações financeiras internacionais até os que defendem a pura e simples extinção do mercado (veja quadro abaixo).
Diferentes quanto aos objetivos, os movimentos antiliberalismo concordam em pelo menos um ponto: o modelo atual de economia está destruindo o planeta, aumentando as desigualdades e exaurindo as reservas naturais. Longe de oferecerem as respostas utópicas dos movimentos de esquerda do passado, esses grupos procuram atuar de forma pragmática, concentrando-se em ações isoladas: ecologia, taxação dos movimentos de capital, agricultura sustentável, preservação das cidades.
Além de Marx e Bakunin, respectivamente o pai do comunismo e do anarquismo, esses grupos buscam inspiração em A Desobediência Civil, do americano David Henry Thoreau (1817-1862), um livro que influenciou até Gandhi. Mas os tempos são outros. Se antes os grupos tinham que rodar panfletos em mimeógrafos e depois distribuí-los em fábricas, o palanque atual é a internet, também ironicamente uma tecnologia globalizante. “A web é uma ferramenta poderosa”, diz um dos coordenadores da ATTAC-Brasil, Antonio Martins, que também faz parte da organização do Fórum Social Mundial, evento que reúne organizações e movimentos antiliberalismo todo ano em Porto Alegre. Pois é, companheiros. A luta continua.
Na livraria
Urgência das Ruas Ned Ludd (org.), Coleção Baderna, Conrad, São Paulo, 2002
Provos: Amsterdã e o Nascimento da Contracultura Matteo Guarnaccia, Coleção Baderna, Conrad, São Paulo, 2002
Reclaim The Streets
Movimento ambientalista surgido em Londres na década de 80. Originalmente protestava contra a construção de rodovias na Inglaterra. Com ramificações em alguns países, costuma interromper o trânsito de grandes avenidas comerciais para promover “carnavais” anarquistas contra a sociedade de consumo.
Via Campesina
Movimento internacional que reúne trabalhadores sem terra, pequenos agricultores e camponeses. Como os outros grupos, é internacional (o MST é um de seus omponentes), tem discurso antiliberal e luta por uma agricultura sem vínculo com os conglomerados do ramo de alimentação.
Attac
Sigla para Ação para uma Taxação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos. A inspiração veio de uma proposta do economista americano James Tobin (Nobel de Economia em 1981) de taxar em 0,1% todas as transações financeiras internacionais. O movimento também prega a extinção dos paraísos fiscais. Surgido no final da década de 90, o ATTAC conta com o apoio do popstar Bono Vox, líder da banda U2.
Black Block
A rigor, não chega a ser um grupo constituído. É o “velho” movimento anarquista, repaginado depois dos distúrbios de Seattle, em novembro de 1999. Mascarados (para dificultar o reconhecimento pela polícia), seus integrantes alinham-se aos inúmeros grupos anticapitalistas e desprezam a não-violência.
Earth First
Surgiu nos Estados Unidos na década de 80 e hoje conta com representantes espalhados nos cinco continentes. “Biocêntrico” (por considerar que qualquer forma de vida deve ser valorizada, sem distinção entre homens, animais e plantas), luta pela recriação de áreas selvagens em todo o planeta, propondo o fechamento de grandes rodovias próximas de matas e reintroduzindo espécies animais em extinção.
Confederation Paysane
Sindicato agrícola fundado na França em 1987. Criado por pequenos agricultores com militância socialista, o movimento é contra o agrobusiness e as lavouras transgênicas e a favor de uma agricultura sustentável e ecologicamente correta. A figura mais famosa é o francês José Bové – talvez a maior celebridade da nova desobediência civil, principalmente depois de comandar a destruição de lojas da rede McDonald’s.