Por que a homeopatia funciona?

A rigor, os remédios homeopáticos são só água ou açúcar, sem nenhum resquício de princípio ativo. Mas muita gente diz que se cura com eles. Qual pode ser o mistério por trás disso?

por Texto Giovana Girardi

Se é que funciona, há que se ponderar. Isso porque os estudos que avaliam a eficácia da prática não são exatamente conclusivos e ora lhe dão aval, ora a desabonam. A Organização Mundial da Saúde (OMS), por exemplo, afirma que o método se mostrou superior a pílulas de farinha em testes clínicos. E no Brasil ela é reconhecida como especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina – algumas faculdades inclusive oferecem disciplinas optativas sobre o assunto. Por outro lado, uma batelada de pesquisas diz que seu funcionamento não passa de efeito placebo – os resultados positivos seriam obtidos pela crença do paciente de que a terapia vale (leia mais sobre isso na pág. 56).

A homeopatia trabalha com medicamentos diluídos em água até o ponto de não restar mais traço deles no líquido. O criador da técnica, o alemão Samuel Hahnemann (1755-1853), inspirou-se na “lei da semelhança”. Em linhas gerais, ela diz que a mesma substância que causaria uma doença em alguém saudável pode reverter esses sintomas numa pessoa já doente. O veneno de abelha, por exemplo, poderia tratar sintomas de alergia se manipulado de modo homeopático.

Como a substância praticamente desaparece ao ser diluída em água, a eficácia do tratamento sempre foi bastante questionada. Para os defensores da homeopatia, a explicação está em uma suposta “memória da água”, na qual ficaria preservado o potencial terapêutico do medicamento. Um trabalho publicado em 2003 na revista científica Physica A mostrou que, ao ser congelado, um copo com cloretos de sódio e de lítio diluídos em água até quase desaparecerem apresentou diferenças estruturais ao ser comparado com um copo de água pura. A avaliação foi feita por meio de uma técnica conhecida como termoluminescência, que detecta a estrutura de substâncias sólidas.

Água fria

Em 2005, no entanto, uma pesquisa publicada na revista especializada Nature jogou água fria, com o perdão do trocadilho, nessa crença. Os pesquisadores, liderados por R.J. Dwayne Miller, da Universidade de Toronto (Canadá), demonstraram que de fato a água consegue armazenar as propriedades de substâncias diluídas nela até sumirem. Mas somente por 50 femtossegundos (1 femtossegundo equivale a 1 bilionésimo de milionésimo de segundo) – um nada de tempo, em português claro. Outro baque ocorreu alguns meses depois, naquele mesmo ano, quando a revista médica britânica The Lancet praticamente declarou guerra contra a homeopatia. Acompanhando um estudo que concluiu que os benefícios do tratamento se restringem ao efeito placebo, a revista publicou um editorial intitulado O Fim da Homeopatia. Nele, os editores da publicação se diziam surpresos com o fato de o debate continuar mesmo depois de “150 anos de resultados desfavoráveis”.

Pesquisadores da Universidade de Berna, na Suíça, fizeram uma revisão de 110 testes clínicos que analisavam o efeito de produtos homeopáticos para doenças que iam de infecções respiratórias a dores pós-cirúrgicas. A comparação em todos os casos era com placebos. O que os cientistas notaram é que pacientes dos dois grupos apresentaram resultados bastante semelhantes – a homeopatia não se mostrou melhor que o placebo para curar alguém. Se ela funciona para algumas pessoas, a responsabilidade seria da mente do paciente, não do remédio.

Diluir uma substância, em geral, diminui a intensidade de sua ação. Mas, para os homeopatas, quanto mais diluído, mais potente o remédio.

 

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