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Alexandre Versignassi Blog do diretor de redação da SUPER e autor do livro "Crash - Uma Breve História da Economia", finalista do Prêmio Jabuti.

Carta ao leitor: a beleza dos anticorpos

Todos os dias, o corpo produz milhões de células de defesa diferentes, cada uma capaz de reconhecer um tipo de vírus. Mas ele não faz ideia de quais são os vírus que estão circulando por aí.

Por Alexandre Versignassi - 14 ago 2020, 14h29

“Eu sou 300, sou 350. Mas um dia afinal eu toparei comigo”, escreveu Mario de Andrade, em 1929. Sem querer, o modernista deu aí uma boa descrição sobre como funciona o nosso sistema imunológico. 

Pois é. Todos os dias, o corpo produz milhões de células de defesa diferentes, cada uma capaz de reconhecer um tipo de vírus. Claro que o corpo não faz ideia de quais são os vírus que estão circulando por aí. O que ele sabe é o seguinte: cada tipo de vírus tem uma “fechadura” específica, feita de uma combinação de proteínas. O lance, então, é fabricar células de defesa que carreguem consigo chaves diferentes. Como cada célula só consegue levar uma chave “no bolso”, o sistema imunológico fabrica milhões de chaves aleatoriamente e dá para cada uma levar em sua patrulha. 

As células de defesa, então, não são uma coisa só. “São 300, são 350.” São, na verdade, milhões de configurações diferentes. Uma hora, seguindo a poética do Mario de Andrade, uma delas “topa consigo mesma”, ou seja, com um vírus ou uma bactéria que tenha a fechadura certa para a chave que ela carrega. E elimina o invasor.

É um jogo diário de tentativa e erro, numa guerra entre micro-organismos que remonta ao início da vida na Terra, há pelo menos 3,5 bilhões de anos, quando células solitárias lutavam para sobreviver no caldo primordial dos oceanos. A diferença é que o oceano agora é você. 

Mas tem um problema aí: vírus são virais. Se reproduzem mais rápido que meme. Cada mililitro de amostra de muco coletada num teste de Covid pode ter tantas cópias do coronavírus quanto há de humanos na Terra – dependendo do estágio da infecção, bem mais.

Por isso, rola uma mágica quando a célula de defesa certa encontra o invasor da vez. Ela começa a se multiplicar ferozmente. O organismo, então, passa a contar com zilhões de anticorpos que carregam a chave certa, e vai fazendo a faxina. É isso que cura um paciente de Covid – e de qualquer outra moléstia viral. 

O processo de multiplicação de anticorpos leva alguns dias, e varia de paciente para paciente. Se demorar, o vírus se reproduz mais rápido que as células de defesa e vence a batalha. É isso que mata.

Já os pacientes que vencem a guerra saem com um prêmio: uma carga alta de anticorpos com a chave certa. Essa carga confere imunidade. Se aquele vírus entrar de novo, será aniquilado antes que possa fazer qualquer estrago.

Mas e aí? A imunidade dura para sempre? Para certas infecções, sim. Para outras, não: o volume de anticorpos com a chave correta cai rapidamente, e as portas ficam abertas de novo. Em qual dessas classes entra a Covid? Bom, esse é o assunto na nossa reportagem de capa. Spoiler: ainda não há como cravar nada, pois a ignorância da humanidade sobre como o Sars-Cov-2 interage com o organismo ainda é vasta. Mas não faltam estudos promissores. Boa leitura.

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