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Bruno Garattoni Por Bruno Garattoni Vencedor de 13 prêmios de Jornalismo. Editor da SUPER.

Cepa P.1 é mais contagiosa e pode reinfectar quem já teve Covid – mas não anula eficácia da vacina

Por Bruno Garattoni Atualizado em 4 mar 2021, 13h36 - Publicado em 3 mar 2021, 13h59

Saíram os dois primeiros estudos sobre a variante P.1, que surgiu em Manaus e está se espalhando pelo Brasil. Veja o que eles revelam – e o que não revelam

Desde que cientistas identificaram a cepa P.1, que surgiu em Manaus, se espalhou pelo Brasil e mais 18 países, o mundo aguarda ansiosamente a publicação dos primeiros testes de laboratório, que poderão revelar se ela de fato é mais transmissível e possui resistência a anticorpos – como as mutações N501Y e E484K, que estão presentes nela e na variante sul-africana, sugerem. Essa espera terminou: acabam de ser publicados, em pre-print (sem revisão por outros cientistas), os dois primeiros estudos sobre a P.1. Eles confirmam o que se esperava – mas também já deram margem a manchetes alarmistas, que não batem com o que está escrito. Vamos lá. 

O primeiro estudo, que é assinado por mais de 30 pesquisadores da USP, da Unicamp e da Universidade de Oxford, avalia a eficácia de anticorpos contra a cepa P.1. Os cientistas coletaram amostras dessa variante e a colocaram em contato, em laboratório, com plasma sanguíneo de 19 pessoas que já tiveram Covid, mas causada por outra cepa – e, também, plasma de oito pessoas que tomaram a vacina Coronavac (no regime completo, de duas doses). A ideia é ver se os anticorpos que você desenvolve após ter Covid-19, ou se vacinar, protegem contra a nova variante. Eles também foram testados com amostras do Sars-CoV-2 “clássico”, pertencente à linhagem B.

Resultado: o plasma sanguíneo, tanto de quem tomou a vacina quanto de quem teve Covid, se mostrou menos eficaz contra a cepa P.1. Veja no gráfico abaixo: 

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Eficácia dos anticorpos de pessoas que tiveram Covid (quadro A) ou foram imunizadas com a Coronavac (quadro B) contra o Sars-CoV-2 das linhagens B e P.1 (duas amostras, P.1/12 e P.1/30). Pre-print/Reprodução

 

Fica claro, no caso das pessoas que já tiveram Covid-19 (quadro A), que os anticorpos são menos eficazes contra a cepa P.1. Mas, eis um ponto crucial, eles continuaram sendo capazes de neutralizar o vírus – a diferença é que foi necessário colocar uma concentração maior de anticorpos para conseguir isso. Esse resultado sugere que a infecção por cepas antigas não confere proteção total contra a P.1, e ela pode reinfectar quem já teve Covid.

Agora vamos para o quadro ao lado (B), que mostra a eficácia do plasma sanguíneo de quem tomou Coronavac. Os anticorpos tiveram zero atividade neutralizante contra a cepa P.1 – mas o teste avaliou muito poucas amostras de plasma pós-Coronavac (apenas oito) e pode ter tido falhas de detecção. Note que mesmo contra a cepa “clássica” (item isolate B), os anticorpos gerados pela Coronavac apresentam baixíssima atividade. Isso conflita com os testes clínicos do Instituto Butantan, que demonstraram bons níveis de eficácia da vacina contra as variantes tradicionais. 

O estudo afirma: “Não encontramos suporte estatístico para essas diferenças, pois a base amostral é pequena e a neutralização dos vírus, tanto B quanto P.1, foi bastante baixa e próxima do limite de detecção do nosso ensaio”. Outro ponto relevante é que os voluntários haviam tomado Coronavac há cinco meses, e portanto seu sangue já estava com níveis de anticorpos mais baixos. Essa queda é normal – e não significa, como explicamos detalhadamente nesta reportagem, que o organismo tenha perdido a imunidade.

Não é possível concluir, portanto, que a Coronavac é ineficaz contra a cepa de Manaus, como já afirmam algumas manchetes por aí. As novas cepas do Sars-CoV-2 têm se mostrado mais resistentes a anticorpos “antigos”, gerados pelas variantes clássicas, e testes clínicos vêm demonstrando uma queda na eficácia das vacinas. Mas ainda será necessário fazer mais testes para entender qual é o impacto real da P.1 sobre a Coronavac e outras vacinas. 

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A TAXA DE REINFECÇÃO 

O segundo estudo é assinado por um grupo de 32 cientistas de várias instituições, que incluem USP, Unicamp, Oxford, Harvard e College London. Ele começa traçando detalhadamente o caminho de surgimento e disseminação da cepa P.1, e testa a carga viral em pacientes infectados por ela. Resultado: “Nós não conseguimos determinar, ainda, se a infecção pela P.1 está associada a maior carga viral ou maior duração da infecção”. Isso é possível – mas não foi provado pelo estudo.   

Em seguida, os cientistas aplicam um modelo matemático sobre dados de Manaus para tentar inferir características epidemiológicas do vírus. Concluem que “a P.1 pode ser entre 1,4 e 2,2 vezes mais transmissível, e evadir 25% a 61% da imunidade protetora induzida por infecção prévia por linhagens não-P.1”. 

Há casos comprovados de reinfecção pela variante P.1, e o surgimento dela coincide com a nova onda de Covid em Manaus, onde muita gente já tinha sido contaminada por cepas anteriores – e mesmo assim a nova variante chegou com tudo, fazendo muito estrago. Então a alta incidência de reinfecção, em que pese o grau de incerteza envolvido (entre 25% e 61% há bastante distância), soa plausível. Já os dados de transmissibilidade inspiram algum ceticismo. 

Tanto a variante inglesa quanto a variante de Manaus possuem a mutação N501Y (troca do aminoácido asparagina por tirosina na posição 501 da proteína spike), que torna o vírus mais transmissível. Mas, enquanto a cepa inglesa é considerada 56% mais contagiosa, o novo estudo sobre a P.1 fala em 140% a 220%. O que justificaria essa enorme diferença, de 4x em termos relativos, se a mutação-chave é a mesma? A interação da N501Y com alguma outra alteração genética? Talvez a resposta seja mais simples.

Os números de transmissibilidade vieram de modelos matemáticos, não de testes in vitro ou in vivo. São estimativas sociais; não medições biológicas. Logo, estão sujeitos a alguns fatores imprevisíveis, como o comportamento da população em cada lugar – o quanto ela observa as regras de distanciamento social, por exemplo.  

O estudo também traz um atenuante: sugere que a disseminação da cepa P.1, assim como as anteriores, tende a cair (inclusive para níveis abaixo de R=1, que significam desaceleração da pandemia) após a explosão inicial. Veja no gráfico F: 

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Números estimados de mortes e prevalência da variante P.1 em Manaus. Repare no gráfico F, que projeta uma eventual desaceleração do contágio. Pre-print/Reprodução

Em suma: a variante P.1 é ruim, e pode piorar bastante as coisas. Como é mais contagiosa, ela tende a se tornar prevalente, substituindo as anteriores, por todo o Brasil (como ocorreu em Manaus). E esse movimento irá alimentar o número de casos e mortes. 

Mas, se a sociedade adotar medidas rigorosas de isolamento (com mecanismos de compensação econômica que as viabilizem) e a vacinação acelerar, o controle da pandemia continua sendo possível. Essas duas coisas precisam ser feitas – e elas dependem de nós, humanos. Não do vírus. 

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