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Bruno Garattoni Vencedor de 12 prêmios de Jornalismo. Editor da SUPER.

Coronavírus sofre mutação e se torna mais contagioso, aponta estudo

Por Bruno Garattoni - Atualizado em 7 Maio 2020, 14h22 - Publicado em 7 Maio 2020, 14h17

Cientistas encontram mudança na proteína spike, que o vírus usa para se conectar a células humanas; alteração genética é considerada “uma preocupação urgente” pelos pesquisadores, pois pode tornar vacinas ineficazes

O estudo, que foi realizado pelo Los Alamos National Laboratory, pertencente ao governo dos EUA, identificou 14 mutações na proteína spike (S), das quais uma foi considerada alvo de “preocupação urgente” pelos cientistas. Batizada de D614G, essa mutação é resultante de uma única alteração no código genético do vírus: a substituição de guanina por adenina na posição 23.403 (o SARS-CoV-2 é formado por 30 mil pares de nucleotídeos, ou “letras” genéticas).

Segundo os pesquisadores, a mutação ocorreu entre dezembro e fevereiro, quando a nova cepa do vírus começou a se espalhar na Europa. “A D614G está aumentando de frequência de forma alarmante, indicando que ela possui uma vantagem relativa à cepa original, de Wuhan, o que permite seu espalhamento mais rápido”, diz o estudo. “Quando é introduzida em novas regiões, [ela] rapidamente se torna a forma dominante”, afirmam os cientistas. Além da Europa, o vírus contendo a mutação D614G foi identificado nos EUA, no Brasil, no México e até na China, onde a pandemia começou. Os cientistas analisaram o código genético de 6.000 amostras, coletadas em todo o mundo.  

A nova cepa do vírus é mais transmissível por dois motivos. O primeiro é estrutural: a mutação D614G afeta diretamente a proteína spike, responsável pelas protuberâncias em torno do vírus – que ele usa para se conectar a células humanas. Os cientistas acreditam que essa alteração tenha melhorado a ligação com os receptores ACE2 humanos. A outra explicação possível, diz o estudo, é um fenômeno chamado “aprimoramento dependente de anticorpos” (ADE). Esse fenômeno, que já foi observado em outros vírus, como HIV, zika e os que causam dengue e febre amarela, ocorre quando os anticorpos humanos não conseguem neutralizar um vírus – que, por motivos ainda não plenamente compreendidos, se torna mais infeccioso por causa disso.  

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A cepa contendo a mutação D614G não é mais agressiva do que a original: os pacientes que a contraem apresentam índices similares de internação e óbito. Mas, de acordo com os cientistas do Los Alamos (laboratório que tem 12 mil funcionários e coordenou o Projeto Manhattan, que levou à criação da bomba atômica), a mutação pode atrapalhar o desenvolvimento de vacinas contra o SARS-CoV-2, podendo torná-las ineficazes. 

“Se a pandemia se prolongar, isso pode exacerbar o acúmulo de mutações durante o ano ou mais que levará até a primeira vacina. Se lidarmos com esse risco agora, talvez possamos atentar para evoluções do vírus, que se ignoradas poderiam limitar a efetividade clínica das primeiras vacinas”, afirma o estudo. 

Os coronavírus costumam apresentar taxas de mutação bem menores do que outros tipos de vírus – mas a alta proliferação do SARS-CoV-2, com o vírus exposto a pressões seletivas e a ocorrência de trocas genéticas entre cepas, pode estar acelerando o processo. “Dada a importância vital da proteína spike, tanto em termos de infectividade quanto como alvo para anticorpos, nós sentimos que há uma necessidade urgente de um sistema que avalie sua evolução durante a pandemia”. 

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