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Bruno Garattoni Por Bruno Garattoni Vencedor de 12 prêmios de Jornalismo. Editor da SUPER.

Vídeo interno do Google revela visão assustadora do futuro

Por Bruno Garattoni Atualizado em 23 Maio 2018, 15h06 - Publicado em 23 Maio 2018, 14h32

Ele se chama The Selfish Ledger (algo como “O registro egoísta”), e foi produzido no final de 2016 pelo Google X – a divisão de projetos avançados da empresa. É um material interno, não se destina ao público em geral. Mas o site americano The Verge obteve uma cópia e publicou.

O vídeo começa contando a história de Jean-Baptiste Lamarck, que “em 1809, cinquenta anos antes que Darwin publicasse A Origem das Espécies, escreveu a primeira teoria completa da evolução.” Para Lamarck, o comportamento de um indivíduo pode alterar seu código genético – o que Darwin, com a teoria da seleção natural, refutou. Mas hoje a ciência trabalha com o conceito de epigenética, que é uma espécie de meio termo: o que você faz não altera o seu DNA, mas pode ligar ou desligar determinados genes – e essa modificação pode ser transmitida aos seus descendentes. Em seguida, o vídeo menciona Richard Dawkins e seu conceito de gene egoísta: nós somos controlados por nossos genes, e existimos apenas para reproduzi-los.

A ideia do Google é pegar esses dois conceitos (a epigenética e o egoísmo dos genes), e aplicá-los aos dados. “Conforme usamos a tecnologia, uma trilha de informações é criada (…) Esses dados descrevem as ações, decisões, preferências, deslocamentos e relacionamentos” de cada pessoa, diz o vídeo. Eles são “uma versão codificada de nós mesmos, que se torna cada vez mais complexa.”

Em vez de obedecer aos nossos genes, obedeceríamos aos nossos dados – e esses dados, além de nortear nosso comportamento, poderiam ser transmitidos a nossos filhos, por meio do tal “registro egoísta”: um arquivo digital, salvo na nuvem. O Google seria responsável pela criação e manutenção desse registro, coletando o máximo possível de informações sobre cada usuário. O vídeo mostra pessoas sendo monitoradas em várias situações do cotidiano, e recebendo sugestões não-solicitadas do Google. “O comportamento do usuário pode ser modificado”, afirma o vídeo.

Questionado pelo The Verge, o Google declarou: “Nós entendemos se o vídeo for desconfortável – ele foi projetado para ser”. Segundo a empresa, trata-se apenas de “um experimento”, que utiliza “uma técnica conhecida como design especulativo para explorar ideias e conceitos desconfortáveis para promover debate e discussão”. O Google também disse que o vídeo “não é relacionado a quaisquer produtos atuais ou futuros”.

Mesmo assim, ele é inegavelmente perturbador, por vários motivos. Primeiro, porque surge num momento em que as pessoas já estão preocupadas com a coleta dos seus dados – e imagina uma vigilância exponencialmente maior. Segundo, porque é megalomaníaco: a possibilidade de uma única empresa redesenhar a sociedade, ainda que com boas intenções, é aterrorizante. Terceiro, porque o próprio tom do vídeo é meio sinistro.

Clique aí embaixo para assistir (o vídeo está em inglês; se você não domina o idioma, clique no botão Configurações para ativar legendas em português. Elas são geradas por um robô e contêm erros, mas quebram o galho).

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