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Mulher Cientista Por Maria Clara Rossini Todos as semanas, a repórter Maria Clara Rossini entrevista uma pesquisadora brasileira e explica seu trabalho. Acompanhe aqui e no Instagram da Super.

Renata Sgobbi estuda como os hormônios femininos influenciam a ansiedade

A #MulherCientista dessa semana usa camundongos fêmeas para estudar como os transtornos neurológicos são afetados pelo ciclo feminino – algo que pode levar a medicamentos mais eficientes para mulheres.

Por Maria Clara Rossini Atualizado em 14 Maio 2021, 19h01 - Publicado em 14 Maio 2021, 18h42

Se você acompanha a Super ou qualquer outro site que fale sobre ciência, já deve ter visto dezenas de estudos que envolvem modelos animais. Em português claro, isso nada mais é do que o uso de camundongos ou ratos em pesquisas. As vacinas contra a Covid-19, por exemplo, foram testadas nesses roedores e em primatas antes de chegarem em humanos.

Geralmente, essa informação é suficiente para entender o estudo. Mas você já se perguntou qual é o sexo dos animais usados em testes? Para a maior parte das pesquisas, todos os animais são machos. Os laboratórios evitam usar fêmeas devido à complexidade hormonal das ratinhas. Assim como as humanas passam pelo ciclo menstrual, que dura 28 dias, as fêmeas de ratos e camundongos vivem o ciclo estral, que dura de quatro a cinco dias.

A bióloga Renata Ferreira Sgobbi está interessada justamente nessa complexidade. Desde o mestrado, ela trabalha com transtornos neurológicos comparando o comportamento de machos e fêmeas. “Elas mudam de comportamento de um dia para o outro, por causa dos níveis hormonais. Não dá para juntar todas em uma coisa só, como se faz com os machos. A gente tem que pensar na fêmea em quatro fases diferentes”, diz a pesquisadora.

Renata se formou na Universidade Estadual de Londrina, mas conduziu a maior parte das pesquisas na Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto. Ela compara como as fêmeas lidam com o medo e ansiedade em cada fase do ciclo. Quando os níveis de estrógeno e progesterona estão mais altos, as ratinhas ficam mais destemidas, quase como se os hormônios tivessem um efeito protetor sobre o medo. Esse é o período em que as fêmeas estão receptivas para acasalar.

A pesquisadora verificou isso em laboratório ao estudar transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) nos camundongos. Ele ocorre quando o indivíduo passa por um grande trauma, e então qualquer gatilho pode resgatar o medo e a memória do evento.

Para reproduzir o TEPT nos roedores, eles são mantidos por 4 horas em caixas com pequenas aberturas. Uma serpente é colocada para rastejar sobre as caixas, fazendo com que os roedores vivenciem o trauma. No dia seguinte são expostos ao confronto com a serpente e sua exúvia (que é a “pele” da cobra) durante 5 minutos. Renata analisa como os machos e as fêmeas em cada fase lidam com o confronto. Depois de seis dias, ela repete o mesmo procedimento com os camundongos, mas utiliza apenas a exúvia.

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As fêmeas com altos níveis de progesterona e estrógeno não parecem estressadas ou ansiosas com a presença do predador. Elas circulam pelo ambiente e algumas chegam até a subir na serpente.

  • Mas basta um dia para as fêmeas ficarem acanhadas de novo. Cada fase do ciclo estral dura um dia ou poucas horas. Para verificar em qual fase se encontram, a bióloga coleta amostras do canal vaginal das fêmeas e verifica em qual estágio as células se encontram. Acontece que a mudança de comportamento é tão grande que dá para saber em qual fase elas estão antes mesmo de olhar para o microscópio. A queda hormonal faz com que os níveis de ansiedade e medo aumentem.

    Agora, pense no ciclo menstrual feminino como uma versão mais longa do ciclo estral. A queda hormonal nas mulheres ocorre no período pré-menstrual e também na menopausa. Os relatos de ansiedade costumam ser maiores nessas fases.

    A ansiedade atinge até três vezes mais mulheres do que homens. Os medicamentos disponíveis, no entanto, não levam em conta essa montanha-russa de hormônios que é o ciclo menstrual. “Seria excelente se a gente tivesse um medicamento que fosse indicado para certos dias do ciclo”.

    Da pesquisa com camundongos até o desenvolvimento de um novo medicamento, ainda há um longo caminho a percorrer. Mas toda droga passa pelos modelos animais antes de chegar nos humanos. Nas próximas pesquisas, Renata irá avaliar o uso do canabidiol para o tratamento do estresse pós-traumático nos animais. A pesquisadora pretende verificar em qual fase do ciclo estral a substância pode ser mais benéfica.

    Quando a pesquisadora começou a trabalhar com modelos animais femininos, poucos pesquisadores faziam o mesmo. Mas Renata afirma que isso tem mudado nos últimos cinco anos. “O meu objetivo é incluir esses hormônios em pesquisas de neurociência. Acho importante expandir cada vez mais a área e dar uma visão mais ampla dos transtornos”, diz ela.

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