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Por que é mais fácil lembrar letra de música que conteúdo de uma prova?

Por Bruno Vaiano - Atualizado em 24 set 2019, 10h50 - Publicado em 19 set 2019, 12h38

O acadêmico britânico Eric A. Havelock explica no livro Prefácio a Platão que o conteúdo das conversas cotidianas (e, por tabela, do texto corrido dos livros didáticos) é vulnerável ao fenômeno do telefone sem fio: você reformula os enunciados em vez de transmiti-los ao pé da letra, porque o que interessa é a mensagem, e não as palavras que você escolhe para transmitir essa mensagem. Aos poucos, a informação se perde.

Já a música não permite reformulação: as palavras em si importam tanto quanto o sentido, porque o número de sílabas, a acentuação e as rimas determinam o que encaixa ou não. “O ritmo cria um padrão que favorece a memorização”, diz André Malta, especialista na literatura da Grécia Antiga. Em sociedades de tradição oral, poemas são o melhor jeito de transmitir leis, pois a métrica fixa o conteúdo. 

É por isso que poemas épicos de milhares de versos como a Ilíada e a Odisséia eram recitados de memória por estudantes na época foram compostos. Eles eram uma espécie de Faroeste Cabloco. Lembra quando você fazia escansão de versos no Ensino Médio – e precisava separar as sílabas poéticas? Pois é: todo compositor precisa ter uma noção intuitiva disso para criar músicas tão gostosas quanto as de Homero. 

Por fim, é bom esclarecer: lembrar não é entender (olha só, rimou). Por exemplo: você sabe decor que Jorge Ben Jor canta Jacarezinho! Avião! Cuidado com o disco voador… Tira essa escada daí… O que não significa que você tenha entendido alguma coisa.

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Do mesmo jeito, dá para compor uma canção superfácil de lembrar sobre a equação de Schrödinger – que não vai adiantar nada se você entende mecânica quântica tão bem quanto discos voadores (uma gíria carioca para sirene de polícia).

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