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Todos os sons do mundo são formados pelas sete notas musicais?

Nem de longe: as sete notas são a escala diatônica maior, uma convenção da música do Ocidente que data de Pitágoras. Para construi-la, selecionamos frequências específicas dentre a infinidade de sons que existem.

Por Bruno Vaiano Atualizado em 24 set 2021, 14h08 - Publicado em 16 nov 2020, 10h52

Não. Para começo de conversa, a maioria dos sons produzidos no nosso cotidiano não têm altura definida. Ou seja: não podem ser identificados como uma nota nem como uma combinação delas. É o caso do barulho de um objeto caindo no chão ou de uma britadeira.

Os sons de altura definida – que seu ouvido entende como notas, e não como ruídos aleatórios –, são periódicos: consistem em ondas que oscilam um certo número de vezes por segundo. Esse número se chama frequência. Cada cultura humana construiu escalas musicais com um certo conjunto de frequências. As sete notas que conhecemos, que formam a escala diatônica maior da música ocidental europeia, são só a ponta do iceberg.

Algo importante de entender é que as notas não estão associadas a frequências específicas. Atualmente, quase todos os músicos optam por padronizar a afinação de seus instrumentos com base na nota Lá, e quase todos consideram que a nota Lá equivale a uma onda com frequência de 440 Hz. São duas convenções que surgiram na Idade Moderna: não há nada que torne o Lá especial em relação às demais notas.

Tanto é que o Lá já teve várias frequências ao longo da história, todas localizadas em uma janela que vai de 400 Hz a 450 Hz. Existe até uma espécie de terraplanismo musical: um grupo de músicos que acredita piamente nas propriedades mágicas do Lá 432 Hz em relação aos demais. Não caia nessa.

Fica fácil obter as outras notas uma vez escolhida a frequência da onda que vai corresponder à nota Lá – algo que se faz por padronização, já que não faz diferença usar um Lá um pouco mais agudo ou mais grave (desde que todos os músicos estejam usando o mesmo Lá).

Isso é feito multiplicando a frequência do Lá por certas frações pré-fixadas, que foram determidas por Pitágoras na Grécia Antiga e sofreram alguns ajustes desde então. Essa versão com alterações é o sistema de afinação vigente na música pop até hoje.

Pitágoras percebeu que quando você pega um som de uma frequência qualquer, sempre haverá outros sons com frequências que são frações simples dessa frequência principal. Por exemplo: um som com metade da frequência. Ou o dobro da frequência. Ou dois terços da frequência.

Quanto mais simples a fração entre duas frequências, mais estável será o som produzido quando esses dois sons soam juntos. Mas a música também é feita de instabilidades – que se resolvem em conjuntos de sons mais estáveis. Isso se traduz em frações mais quebradas.

Pitágoras construiu a escala diatônica da música ocidental usando uma seleção de frações mais estáveis e menos estáveis. Usando essas frações, você pode construir uma escala diatônica maior (as famosas sete notas musicais) a partir de qualquer som. Não importa o som em si, só as relações entre os sons.

Ou seja: as sete notas musicais não correspondem a sete frequências fixas. E, seja como for, elas sempre são só sete frequências, dentre todas as outras frequências possíveis – existem infinitas frequências.
Outras culturas humanas usam seleções de sons diferentes, ainda que certas frações muito estáveis, como os intervalos de quarta (dó para o fá) e de quinta (dó para o sol), tenham sido descobertas independentemente por diversas culturas.
A música árabe, por exemplo, trabalha com escalas de mais de 20 notas. Alguns intervalos que soariam desafinados para um ouvinte ocidental destreinado fazem sentido nos parâmetros deles.
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