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A Terra mergulha entre restos do Halley

Os fregmentos do cometa Halley poderam ser vistos este mês na forma de uma bela chuva de até 25 meteoros por hora.

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

Este mês, será possível observar, a olho nu, os fragmentos do mais célebre de todos os cometas – o Halley. Denominados Orionídeos, eles surgem, todos os anos, entre os dias 20 e 24, na forma de uma bela chuva de até 25 meteoros por hora. Na realidade, a chuva apresenta quatro ou cinco picos de maior intenidade, durante os quais os corpos cadentes se irradiam de diversos pontos do céu, que podem estar centrados nas vizinhanças da estrela gama da Constelação de Gêmeos. A origem desse fenômeno, ao que tudo indica, remota aos estragos que o Sol impõe ao núcleo do cometa, todas as vezes que ele percorre as regiões centaris do sistema solar.
Alguns autores sugerem que, este ano, as chuvas do Orionídeos serão mais intensas devido a uma surpreendente reviravolta no comportamento do Halley, descoberta pelos belgas Oliver Hainaul e Alain Smette, amos do Instituto de Astrofísica de Liège. Em fevereiro, durante uma missão no Observatório Europeu Austral, na localidade de La Silla, Chile – quando o cometa já ia longe, afastando-se do Sol entre as órbitas de Saturno e Urano – os astrônomos observaram que ele sofria um extraordinário aumento de brilho, que se tornou 300 vezes maior que o previsto.

O que o teria causado? Na falta de uma resposta, os astrônomos resolveram realizar outra observação – eles haviam obtido a primeira imagem com uma câmara equipada com um multiplicador eletrônico de luz, o CCD. Ainda assim, por ser a primeira vez que se vê o brilho de um cometa intensificar-se em regiões distantes do Sol, não há, até agora, uma solução simples. Três hipóteses foram aventadas. A primeira sugestão é a de o cometa ter sido abalroado por um pequeno objeto, e isso provocou a emissão de matéria. A segunda idéia e que, de alguma forma, ejetou-se do núcleo uma importante quantidade de energia retida no seu interior.
Por último, pode ter havido um choque de partículas de alta energia, componentes do vento solar. Esta ultima hipótese é reforçada pelo fato de o Sol estar em atividade máxima, e sua ação pode estar afetando todo o sistema de planetas – sinal disso foi a recente aparição de uma grande mancha branca na superfície de Saturno. Essas hipóteses partem dos fatos que se conhecem a respeito dos núcleos cometários, constituídos, principalmente, de gelo misturado com grãos de poeira de diferentes dimensões. Sabe-se há algum tempo que parte desses grãos é de natureza mineral. Outra parte dos grãos de poeira compõe-se de carbono e outros compostos orgânicos.

Quanto à cor, o núcleo do Halley é extremamente escuro e reflete apenas 4% da radiação solar que incide sobre ela. Por isso, quando o cometa se aproxima do Sol, a fina camada de matéria escura absorve calor e sua temperatura se eleva rapidamente. O gelo, derretido, transforma-se em gás e libera a poeira da superfície. É como se forma a cabeleira: uma densa nuvem de resíduos à volta do núcleo. Aos poucos, sob o sopro cada vez, mais forte do vento solar, a nuvens se alonga e toma a forma característica de uma cauda de cometa.
Nesse período, são comuns variações na luminosidade, decorrentes de explosões de gases e poeira do núcleo. Depois da passagem pelo Sol, a temperatura volta a cair, o núcleo se estabiliza e se dispersam os resíduos que compõem a nuvem. Como resultado, fica no espaço um vasto anel de fragmentos, como se fosse um rastro ao longo da trajetória do cometa. A Terra atravessa a órbita do Halley em dois pontos, um em maio e outro em outubro. Ocorrem, então, as chuvas de meteoros.

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão e astrônomo e membro da União Astronômica Internacional.

Eventos do Mês

Constelações

À medida que a Terra gira em torno do Sol, ela passa por diferentes regiões do espaço. Consequentemente, mudam as constelações que podem ser observadas de sua superfície, à noite. Este mês estão visíveis no céu, às 20 horas do dia 15, os seguintes conjuntos de estrelas: Pégaso, Aquário, Cisne, Lagarto, Cefeu, Lira, Águia, Ofiúco, Sagitário, Escorpião, Libra, Lobo, Altar, Pavão, Telescópio, Triângulo Austral, Ave do Paraíso, Oitante, Pintor, Dourado, Retículo, Hidra Macho, Relógio, Erídano, Fênix, Baleia, Peixes, Áries, Triângulo, Andrômeda.

Meteoros

No dia 13, os Píscidas estão em máxima atividade. Eles tem radiante em Peixes (isto é, parecem divergir de um ponto na direção dessa constelação), e podem ser observados no zênite à meia-noite. Não se sabe o número de meteoros da chuva. No dia 15, é a vez dos Cetídeos (Baleia), que tem radiante na Constelação da Baleia. Eles caem à taxa horária de cinco meteoros e passam pelo zênite à meia-noite. Os Orionídeos, enfim, alcançaram o máximo no dia 21 (veja matéria na pagina anterior).

Lua

Nova, dia 7, 18h39; crescente, dia 15, 14h33; cheia, dia 23, 8h8; minguante, dia 30, 4h10; luz cinzenta, entre os dias 8 e 10.

Planetas

Mercúrio: observá-lo, no final do mês, um pouco antes de o Sol nascer (magnitude -0,2; quanto maior a magnitude, menor o brilho; a estrela mais brilhante, Sírius, tem magnitude -1).

Vênus: torna-se astro matutino, nessa época: procurá-lo, antes de o Sol nascer, em Leão (magnitude -4,6).

Marte: cada vez mais difícil de ver, situa-se, logo após o pôr-do-sol, em Virgem (magnitude 1,8).

Júpiter: visível, um pouco antes de o Sol nascer, nas proximidades do Leão (magnitude -1,4).

Saturno: continua sendo uma das alterações do mês: deve-se observá-lo no início da noite em Capricórnio (magnitude 0,7).

Urano: visível com luneta, no início da noite, em Sagitário (magnitude 6,1).

Netuno: visível com luneta, na primeira parte da noite, em Sagitário (magnitude 7,8).

Amadores

A Lua é um dos melhores pontos de referência para iniciantes localizarem os planetas. Assim, estarão ao sul da Lua os planetas Vênus (dia4), Júpiter (dia5), Mercúrio e Marte (dia 8) e Netuno (dia 14). Ao norte, estarão Urano (dia 14) e Saturno (di 16).