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Cobras sabem quanto veneno possuem – e não atacam se ele estiver escasso

Durante testes, serpentes da espécie Deinagkistrodon acutus que tinham menos veneno em seus reservatórios eram mais propensas a recuar quando se sentiam ameaçadas.

Por Carolina Fioratti 22 jun 2021, 15h47

Um estudo divulgado nesta terça-feira (22) aponta que serpentes da subfamília dos Crotalíneos são capazes de medir a quantidade de veneno que possuem no corpo, e isso interfere em seu comportamento: quanto menor a proporção do líquido, menores as chances do animal de reagir a ameaças. O artigo foi publicado na revista científica Toxicon.

A produção de veneno das cobras ocorre em glândulas localizadas na boca do animal. Pesquisas anteriores já haviam mostrado que as serpentes são capazes de regular a quantidade de substância que injetam em suas presas durante a caça, soltando o líquido de acordo com o tamanho da vítima, por exemplo. Havia hipóteses de que as serpentes tinham noção da quantidade de veneno que levavam em seus corpos, mas faltava confirmar a informação e também entender como isso poderia impactar sua resposta a ameaças.

Foi o que os cientistas fizeram durante seus ensaios. O estudo foi conduzido por pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências, na cidade de Chengdu, ao sudoeste da China. Eles analisaram, no total, 23 cobras jovens da espécie peçonhenta Deinagkistrodon acutus, conhecida por seu comportamento agressivo. Os animais foram divididos em três grupos, de acordo com a situação de seus estoques de venenos: se estavam baixos, normais ou em reposição. 

O grupo de cobras que estavam com o tanque baixo foi submetido a uma série de testes cíclicos, com três dias de duração cada. Nos dois primeiros dias, as serpentes eram induzidas a morder um pano, o que garantiria que seu estoque de veneno continuasse baixo. No terceiro, era feito um teste comportamental, em que o animal era provocado e os cientistas anotavam sua reação.

  • Para o grupo de cobras que estava em processo de reposição do veneno, o cenário foi bem parecido. A única diferença é que, nos três últimos ciclos da fase de teste, os pesquisadores deram aos animais quatro dias de descanso após o teste comportamental – tempo suficiente para que boa parte do veneno fosse reposta. As serpentes do terceiro grupo, que estavam com o estoque de veneno normal, não foram induzidas a liberar a substância, mas também passaram pelos testes comportamentais. 

    Para atiçar o animal, os cientistas apresentavam às cobras um pedaço de pele de silicone medicinal presa na ponta de um gancho utilizado para o manejo de serpentes. O processo durava cerca de um minuto, e os animais responderam emitindo sons, fugindo ou atacando e injetando veneno no fragmento. As cobras com quantidades normais de veneno eram mais propensas a dar o bote, enquanto aquelas com menos substância tendiam a fugir. As serpentes  em processo de reposição se tornaram mais corajosas na segunda parte dos testes, quando tiveram mais tempo para aumentar seus níveis de veneno.

    As respostas das serpentes sugerem que o animal possui consciência sobre o nível de veneno que há em seu corpo – e também entende que, quanto menor a quantidade, maior a ameaça. Pesquisadores mais céticos chegaram a sugerir que o comportamento pode ter sido influenciado por fatores como o cansaço, habituação – as cobras teriam deixado de ter medo da ameaça – ou fome. Yige Piao, um dos autores do estudo, descarta as possibilidades, argumentando que as serpentes eram testadas apenas uma vez ao dia, tendo tempo para descansar. Além disso, elas mostraram poucos sinais de habituação e traziam características em seus ataques comumente associadas à defesa, e não à predação.

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