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Baratas e os seus reflexos ultra-rápidos

Uma barata fêmea fica quase permanentemente grávida. Cada uma carrega até quarenta ovos, que são capazes de germinar mesmo depois do falecimento da mãe.

Mariana Mello e Denis Russo Burgierman

Lá está ela, num canto da sua cozinha, saboreando restos de gordura que encontrou sabe-se lá como. (Afinal, sua cozinha é superlimpa.) Você chega quieto, na ponta dos pés, e prepara o chinelo. No que o golpe é armado, a barata sai chispando e se enfia num buraco que parecia menor que ela. Você dá de cara com o óbvio: matar uma barata é muito difícil.

Como ela fugiu? Para entender, vamos voltar a cena. Aproxime-se conosco do monstrinho. As antenas, compostas de 130 segmentos cada uma, esfregam-se nervosamente na comida velha para sentir seu cheiro – sim, as hastes são o nariz do bicho. O que seria o queixo dela tem uns dedos finos chamados palpos que agarram cada pedacinho do almoço antes de enfiá-lo na boca. Os palpos sentem o gosto. Graças a eles o monstrengo fica sabendo se o prato é bom antes de botá-lo para dentro.

Nesse momento surge você, havaiana na mão, sorriso sádico nos lábios, certo de que vai acabar com aquele banquete insolente. Você faz a pontaria. Pausa. Vamos acionar a câmera lenta. O chinelo balança e desloca um pouquinho de ar. A brisa mínima viaja até o canto da cozinha e empurra sutilmente dois pelinhos que o inseto tem no traseiro, chamados cercis.

O balanço dos cercis é transformado em um sinal nervoso e a informação chega em centésimos de segundo ao gânglio, uma espécie de cérebro que fica nas costas. Volta outro impulso, a jato, direto para as seis patas fininhas e cheias de espinhos, que começam a correr. Não passou nem meio segundo e a cascuda já sabe o tamanho do inimigo, sua velocidade e sua localização exatas. Em um instante, esquece o petisco, olha para o predador frustrado – o instinto informa a ela que você, quem diria, estava para comê-la – e vai procurar um esconderijo. Seu esqueleto é flexível como plástico e se entorta todo para que ela entre pela fenda no azulejo.

Pronto. Voltemos à velocidade normal do filme. Não tem mais barata nenhuma ao alcance do chinelo. Ela venceu. De novo.

A capacidade de a barata “ler” o vento usando um tipo de biruta no traseiro é o tema de um artigo que saiu em maio na prestigiosa revista inglesa Nature. Dois biólogos do instituto de pesquisas da empresa de informática NEC mediram os impulsos elétricos que circulam pela barata e descobriram que os pelinhos são capazes de perceber movimentos sutis do ar e de dar ao bicho informações detalhadas sobre a ameaça que se aproxima. “Isso explica os reflexos ultra-rápidos”, diz o americano Hanan Davidowitz, um dos biólogos da NEC, cujo trabalho consiste em entender melhor o sistema nervoso de insetos para futuras aplicações em robôs.

Mas o sofisticado sensor de vento é só uma das armas desse tanque de guerra. Vamos atrás dela, na fenda do azulejo, para conhecer um pouco mais do seu superorganismo. Silêncio agora. Os ouvidos do monstrinho são absurdamente apurados, tão sensíveis que detectam até os passos de outra barata. Não dá para enxergar nada aqui dentro, não é? Pois cuidado: a barata está vendo você. É que nossos olhos têm apenas uma lente – o cristalino –, enquanto os dela possuem 2 000. “Elas enxergam mesmo quando quase não há luz”, diz o entomologista José Henrique Guimarães, do Instituto Biológico de São Paulo.

Agora prepare-se. Vamos livrar o mundo desse bicho nojento. É só um inseto, não pode ser difícil matá-lo. Para ajudar, consideremos que você tenha conseguido capturá-la. Que tal arrancar uma pata? Não dá resultado. Ela parece nem ligar. Membros perdidos crescem de novo em poucos dias. Vamos radicalizar então. Faça de conta que é um personagem de um filme do Tarantino. Arranque a cabeça da imunda. Ela continuará vivinha da silva. É que seu sistema nervoso fica espalhado pelo abdômen. Nem a guilhotina resolve. Um monstro decapitado como esse pode sobreviver por semanas até morrer de fome, porque não tem mais boca para comer.

Bom, não nos resta outro remédio senão uma bela chinelada. Você ainda está com aquela havaiana do começo da matéria? PLÁÁ! Bata outra vez, mais forte. A carcaça de quitina é dura como pedra, não vai quebrar fácil assim. PLÁÁÁ. Pronto, parece que agora morreu. Não, veja, ela ainda mexe as patas, agonizante. Bata de novo, caso contrário ela sara em alguns dias. O poder de recuperação da lazarenta é incrível. PLÁÁÁÁ!

Agora foi. Morreu. É bom tirá-la daí ou ela vai apodrecer e pode atacar a saúde de quem mora por perto. Segundo o alergista Júlio Croce, da Universidade de São Paulo, os detritos das baratas causam pneumonia, alergias e infecções respiratórias. Tape o nariz. Chegue mais perto. Está vendo esse líquido branco? Dizem que, bem temperado, ele tem gosto de camarão. (Os aborígines da Austrália e uma tribo na Tailândia apreciam o quitute.) A gosma é gordura. É aqui que o animal guarda as reservas de nutrientes que vão alimentar as células quando faltar comida. Misturados com a meleca, há algumas dezenas de ovos, e a maioria deles está inteiro. Ou seja: você esmaga uma e dá à luz dezenas.

Uma barata fêmea fica quase permanentemente grávida. Cada uma carrega até quarenta ovos, que são capazes de germinar mesmo depois do falecimento da mãe. Não adianta jogar inseticida no cadáver. Os ovos sobreviverão. A capacidade de reproduzir é um dos principais trunfos das baratas. Durante seus 150 dias de vida, uma única fêmea consegue parir oito vezes. Como são quarenta filhotes por vez, isso significa 320 baratinhas a mais no mundo. Nesse ritmo, em pouco mais de um ano, as descendentes daquela única progenitora, incluindo suas filhas, netas, bisnetas e tataranetas, superariam a população humana, que é de 6 bilhões! E não há nada que você possa fazer.

O biólogo David George Gordon conta em seu livro The Compleat Cockroach (A Barata Completa) uma história que ilustra esse furor reprodutivo. Uma vez, no Texas, o serviço de controle de pragas foi chamado a uma casa onde havia entre 50 000 e 100 000 baratas. Os especialistas encharcaram o lugar de inseticida, mas não mataram todas. Três semanas depois, existiam 400 cascudas. Passaram outras três semanas e elas já eram 1 000. Seis meses depois, numa nova inspeção, o que se viu foi a casa inteira tomada novamente. Cada jato de inseticida numa rachadura fazia com que milhares de animaizinhos surgissem alucinados. Calcula-se que, mesmo depois de todo o veneno, havia ainda algo como 25 000 cascudas – só na cozinha.

Essa velocidade de reprodução faz dela um inimigo quase indestrutível. Um alien. Cada vez que um bando é atacado com inseticidas, uma delas sobrevive e passa a resistência ao produto para os descendentes. Em pouco tempo, todo mundo é resistente. Por isso as empresas que desenvolvem venenos têm sempre que reciclar as fórmulas.

A barata é um dos bichos mais bem adaptados do planeta. Não é à toa que infesta os buracos quentes e úmidos do mundo há 340 milhões de anos, como atestam recentes descobertas de asas fossilizadas. Quando surgiu o primeiro dinossauro, há mais de 220 milhões de anos, as cascudas já se alimentavam de seus restos de comida. Mas a época de ouro das baratas iniciou-se há uns 2 milhões de anos, quando uns macacos espertos começaram a morar em cavernas e a guardar comida. Esse animal, o Homo erectus, era ancestral direto do homem.

Os insetos adoraram a companhia dos nossos tataravôs. Desde então, fazem a festa nas lixeiras e despensas. Apesar de ter inventado o chinelo e o inseticida, o homem é o melhor amigo da barata. As grandes cidades concentram também as maiores populações de baratas, principalmente aqui nos trópicos, onde o calor oferece condições ideais para aquele corpinho imbatível reinar. Em São Paulo, por exemplo, deve haver 200 baratas para cada pessoa, segundo Luis Fernando Macul, diretor da Associação Paulista de Controladores de Pragas Urbanas. (Se você quiser, pode ficar com as minhas.) “Não há como exterminá-las de uma cidade grande”, afirma. “No máximo, podemos controlar a população.”

Portanto, perca as esperanças de livrar-se delas. Tente fazer amizade, afinal aqueles olhos horríveis viram nossa espécie surgir e certamente ainda nos verão sumir da Terra. Um dia, quando um asteróide errante ou uma bomba nuclear nos tirar a luz do Sol e decretar a extinção da humanidade, elas farão exatamente o que já fizeram uma vez, há 65 milhões de anos, quando os dinossauros morreram. Encontrarão um esconderijo, esperarão baixar a poeira e sairão em busca de alimento. Como haverá fartura de animais mortos, certamente não será difícil encontrar comida. E os monstrengos continuarão habitando as fendas do planeta, com os pelinhos do traseiro em prontidão, à espera de uma espécie que lhe seja páreo. Que ainda está para nascer.

Para saber mais

Na livraria: The Compleat Cockroach, David George Gordon, Ten Speed Press, Estados Unidos, 1996.

The Cockroach Papers, Richard Schweid, Four Walls Eight Windows, Estados Unidos, 1999.

No vídeo: Joe e as Baratas, dirigido por John Payson, 1996.

Na Internet:

Museu da Barata, http://www.pestshop.com/cockroac.htm

mamello@abril.com.br / drusso@abril.com.br

Tanque de guerra

Confira o armamento que faz da barata um inimigo quase indestrutível

Autonomia

O sistema nervoso é uma cadeia de nervos interligados, um em cada anel do corpo. Cada um deles funciona sozinho por um tempo se alguma parte da cadeia for lesada

Biruta

Estes dois cabelinhos, os cercis, funcionam como uma biruta e ajudam a barata a saber qual é a direção do ar. Quando alguém se aproxima, eles sentem o ventinho e dão o alarme

Firmeza

Os espinhos das patas transmitem doenças. As unhas dão ao inseto a habilidade de andar pelas paredes, pelo teto, ou até em vidros lisinhos

Nariz

As antenas, partes mais sensíveis do bicho, são revestidas por cílios microscópicos e estão ligadas diretamente ao sistema nervoso. Percebem cheiros, umidade e calor