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Barriga de aluguel no reino animal

A mesma técnica de locação de útero que semeou tantas confusões entre os humanos pode virar uma eficiente arma para ajudar espécies ameaçadas. Pelo menos é essa a esperança de dois pesquisadores da Faculdade de Ciências Veterinárias da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Jaboticabal, que investiram quatro anos de estudo numa experiência inédita: o uso de mães de aluguel para ampliar as chances de sobrevivência de animais em vias de desaparecimento.

Coordenada pelos veterinários José Maurício Barbanti e Joaquim Garcia, a pesquisa está na fase final e os técnicos prometem para breve a transferência definitiva de embriões entre dois cervídeos brasileiros, escolhidos por critérios de proximidade genética e fisiológica: o catingueiro e o bororó, este último bastante raro e possivelmente em extinção. Para a equipe de Jaboticabal, no entanto, já existem motivos para comemorar a vitória, uma vez que o maior desafio do trabalho foi vencido com sucesso. “O grande problema era conseguir estimular a ovulação de nossas fêmeas para usar outras espécies na propagação de populações ameaçadas”, diz Barbanti.

Sem poder contar com estudos precisos sobre os períodos férteis dos animais, os técnicos optaram por uma ação radical. “Decidimos interferir no ciclo das fêmeas com progesterona, o hormônio que sincroniza o cio”, lembra Joaquim Garcia. A tentativa deu certo e resultou em uma técnica segura de ovulação.

Uma esponja embebida em progesterona foi mantida na vagina das cobaias durante dez dias. Retirada a esponja, a fêmea recebeu uma injeção de PMSG, droga para o crescimento dos folículos que abrigam os óvulos e, em seguida, com ajuda de outra substância, HCG, os folículos foram rompidos. “Conseguimos entre seis e sete pontos de ovulação”, revela Barbanti, lembrando que normalmente, uma fêmea bororó produz apenas um óvulo por período. “Com isso, poderemos instalar os óvulos excedentes em fêmeas de catingueiro, que existem em abundância, e multiplicar por seis a procriação de espécies como o bororó e o mateiro, outro parente da dupla”.

No futuro, a ideia dos pesquisadores da Unesp é ajustar a tecnologia para usa-la com o maior número possível de animais e, mais tarde, criar convênios com zoológicos de todo o país. Os bichos iriam para Jaboticabal, onde seria formado um banco de sêmen, óvulos e até embriões congelados. Assim, haveria uma reserva capaz não só de assegurar o futuro das espécies em risco, como dar fôlego a zoológicos para encontrar matrizes que carreguem no ventre a esperança da vida alheia. Para os pesquisadores, o problema agora é obter financiamento que custeie a estrutura necessária para receber os animais.