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Camada de gelo na Groenlândia está liberando grande quantidade de mercúrio no oceano

Uma pesquisa mostrou que a concentração do metal, que é toxico, é dez vezes maior que o normal por lá. Recentemente, cientistas também apontaram grandes concentrações de mercúrio em fossas do Pacífico.

Por Rafael Battaglia Atualizado em 30 Maio 2021, 18h52 - Publicado em 30 Maio 2021, 18h37

Nesta semana, uma pesquisa publicada na revista Nature mostrou que uma camada de gelo na região sudoeste da Groenlândia está liberando altas doses de mercúrio em rios próximos. O metal, que é tóxico, acaba indo para o oceano e pode contaminar animais marinhos – e pessoas que se alimentam deles.

O mercúrio (Hg) é um metal encontrado em algumas rochas – e é líquido em temperatura ambiente. Quando geleiras derretem, parte das rochas nas quais elas estavam também vai junto, e é assim que a substância vai parar na água. Em pequenas quantidades, o mercúrio pode causar tremores musculares, coceiras e problemas neurológicos. Se a exposição for muito alta, mata em poucos dias.

O estudo realizou duas expedições à Groenlândia entre 2015 e 2018. Nelas, os cientistas coletaram amostras de água de três rios que receberam grandes quantidades de água (até 800 metros cúbicos por segundo) do derretimento da camada de gelo em questão. As amostras foram filtradas e preservadas para evitar contaminações. Depois, os pesquisadores mediram a concentração de mercúrio em cada uma delas.

Eles identificaram que, naquela região, a concentração de mercúrio é dez vezes maior do que se comparada a de um rio normal. Os níveis são os mesmos de rios altamente poluídos com a substância – com a diferença de que não, nesse caso, houve interferência humana nesse processo. Bem, quase.

“Embora esse mercúrio não seja introduzido pelos humanos, a camada de gelo está derretendo muito mais rápido como resultado da mudança climática”, explicou à New Scientist Jon Hawkings, pesquisador da Universidade Estadual da Flórida que liderou a pesquisa.

De acordo com Hawkings, a camada de gelo dessa região pode estar contribuindo com 42 toneladas de mercúrio despejadas no oceano por ano – 10% do volume anual em todo mundo. Muito disso acaba indo parar nos fiordes – entradas de mar entre duas montanhas comum em algumas regiões costeiras, formadas pela erosão de antigas geleiras.

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É um problema que não pode ser ignorado. Na região analisada pelos cientistas, há diversas comunidades indígenas que dependem fortemente dos animais marinhos para se alimentar. Quanto maiores os níveis de mercúrio, maiores as chances dessas pessoas se contaminarem.

  • Do lado de lá

    A pesquisa na Groenlândia não foi o único alerta sobre mercúrio da semana. Na última quarta (26), outro estudo publicado na Nature analisou depósitos do metal em fossas no Oceano Pacífico. A medição revelou quantidades nunca antes registradas de mercúrio – superiores, inclusive, a muitas áreas contaminadas diretamente por liberação industrial.

    O estudo foi feito por cientistas de quatro países: Dinamarca, Canadá, Alemanha e Japão. Eles analisaram trincheiras profundas do Pacífico – mais de seis quilômetros abaixo do nível do mar. O acúmulo de mercúrio em sedimentos oceânicos é comum, diga-se, e faz parte do ciclo do metal. Mas a taxa de acumulação nessas fossas é maior do que se imaginava até então.

    “As trincheiras oceânicas agem como um depósito permanente e, portanto, podemos esperar que o mercúrio que vai parar lá ficará soterrado por muitos milhões de anos”, explicou em comunicado Hamed Sanei, professor do Departamento de Geociências da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e líder do estudo. “As placas tectônicas levarão esses sedimentos para o manto superior da Terra.”

    Mas é preciso ficar atento. “Esses altos níveis de mercúrio podem ser representativos do aumento coletivo das emissões de mercúrio nos oceanos causadas pelo homem”, disse Sanei. “Mesmo que o mercúrio seja removido da biosfera, continua sendo bastante alarmante a quantidade do metal que foi parar nas fossas oceânicas. Isso pode ser um indicador da saúde geral de nossos oceanos.”

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