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Certo por linhas tortas

Movido por um instinto de ordem e perfeição, o ser humano procurou encontrar a simentria... ... na natureza. E, quanto mais busca, mais descobre que o Universo, na essência, é assimétrico

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h49 - Publicado em 31 out 2003, 22h00

Bruno Leuzinger

Diante do espelho, a menina não contém o espanto ao ver aquele mundo tão semelhante ao seu. À primeira vista, tudo parece idêntico. Mas pouco a pouco as diferenças surgem aos seus olhos. Por exemplo, nos livros do lado de lá, as imagens aparecem ao contrário. As palavras são escritas de trás para a frente. Quando atravessa o espelho, ela descobre que naquele outro universo tudo é diferente, as regras são totalmente distintas, nada é igual.

Esse cenário absurdo, descrito em Através do Espelho, de 1871, saiu da imaginação de Lewis Carroll, autor também de As Aventuras de Alice no País das Maravilhas. O trecho é recontado por Chris McManus em seu livro Right Hand, Left Hand – The Origins of Asymmetry in Brains, Bodies, Atoms and Cultures (“Mão Direita, Mão Esquerda – As Origens da Assimetria em Cérebros, Corpos, Átomos e Culturas”, sem versão em português). Psicólogo da University College de Londres, McManus chama atenção para um detalhe curioso. Antes de iniciar sua jornada, Alice se pergunta se o leite do lado de lá seria bom para beber. Carroll não oferece solução para sua personagem, mas a ciência, sim. A resposta é não – o leite de lá não presta. “Pelo menos não se bebido do lado de cá”, diz McManus.

Para entender por quê, é preciso primeiro explicar o que é simetria. Não é difícil. Um objeto simétrico é aquele que é idêntico ao seu reflexo. Já um objeto assimétrico difere de sua imagem refletida. O historiador de arte Dagobert Frey definiu as mesmas palavras com um pouco mais de estilo: “Simetria significa descanso e ligação, e assimetria, movimento e desatamento; uma a ordem e a lei, e outra a arbitrariedade e o acidente; uma rigidez formal e repressão, e outra vida, prazer e liberdade”.

Beleza é verdade?

O corpo humano apresenta o que se chama de simetria bilateral – é possível traçar um eixo vertical bem no meio e cada metade será igual à outra. Ou quase. Nossa concepção de beleza está associada a esse princípio. Pessoas mais harmoniosas fazem mais sucesso com o sexo oposto, como provaram dois pesquisadores da Universidade do Novo México, Estados Unidos. Randy Thornhill e Steven Gangestad mediram as proporções de centenas de universitários, calculando a largura das mãos, pulsos, cotovelos, tornozelos e pés, além da largura e comprimento das orelhas. Os universitários preencheram um questionário sobre comportamento sexual. Thornhil e Gangestad concluíram que os rapazes mais simétricos haviam tido sua primeira relação três ou quatro anos antes da média do grupo.

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O conceito de simetria, como quase todos, surgiu na Grécia antiga, justamente como uma tentativa de explicar a beleza por bases racionais. Os gregos não eram dados a muita subjetividade – eles gostavam de achar que havia lógica por trás de tudo. Por isso, conceberam a idéia de proporção áurea, uma relação matemática segundo a qual a divisão da medida do pedaço maior pelo pedaço menor de uma linha é igual à divisão da linha inteira pelo pedaço maior. E procuravam por essa proporção mágica em tudo, inclusive em seres humanos. Essa noção de harmonia, de equilíbrio, de proporção – de simetria – foi perseguida ao longo dos séculos no Ocidente todo, altamente influenciado pelos gregos. Inúmeros artistas se dedicaram ao estudo do tema, do italiano Leonardo da Vinci ao holandês M.C. Escher. A arte religiosa constantemente fez uso das proporções simétricas, como observou Hermann Weyl em sua clássica obra Simetria. “Sempre que Deus ou Cristo são representados como símbolos imortais da verdade ou da justiça, são apresentados em posição frontal, e não de perfil”, escreveu. De frente, os homens são simétricos. De lado, não (as costas não são iguais à frente).

“Simetria enquanto verdade e beleza é uma ficção”, afirma McManus. “Simetrias podem revelar verdades e verdades podem ser belas, mas essa relação não é obrigatória”, diz. O professor britânico não é fã de simetrias. Ele prefere se dedicar à investigação da assimetria na natureza e na cultura. Seu livro é um manifesto a favor da diferença, um foco de luz sobre o abismo que existe entre a mania humana de buscar padrões e o mundo como ele realmente é, todo torto. “Na verdade, a própria vida é assimétrica”, afirma.

A descoberta fundamental de que a assimetria é essencial à vida aconteceu em 1848, quando o cientista francês Louis Pasteur apresentou sua pesquisa sobre ácido racêmico na Academia de Ciências de Paris. O ácido racêmico é uma substância sintética opticamente inativa – ou seja, não causa efeito sobre a luz, não desvia seus raios e, portanto, é muito transparente. Com a ajuda do microscópio, Pasteur descobriu que o ácido racêmico é composto por dois tipos de pequenos cristais, um a imagem refletida do outro. Ambos eram opticamente ativos – ou, em outras palavras, faziam os raios de luz desviarem. Os que giravam a luz para a direita, no sentido horário, foram chamados de dextrógiros, enquanto os outros, que provocavam o efeito contrário, são os levógiros. Juntas, as duas formas de cristais se contrabalançam, tornando o ácido racêmico opticamente inativo. Ou seja, a substância de Pasteur, apesar de ser absolutamente simétrica na aparência, é completamente assimétrica quando vista bem de perto.

O cientista mostrou que moléculas podem ser dextrógiras ou levógiras – ou, para simplificar, destras ou canhotas. Como parafusos, cada uma delas gira apenas para um lado. O mesmo acontece com as moléculas de DNA e também com os aminoácidos, que compõem as proteínas. Algumas moléculas são simétricas e não há distinção entre suas duas formas. Mas grande parte é assimétrica. É por isso que o leite de Alice, do outro lado do espelho, não seria bom de beber aqui – porque suas proteínas seriam da forma oposta à que estamos acostumados. O organismo não conseguiria digeri-las e isso provocaria no mínimo uma boa diarréia. Já se Alice bebesse a cerveja de lá, ficaria embriagada do mesmo jeito, porque a molécula do álcool é absolutamente simétrica (o gosto da cerveja, porém, seria diferente, porque vários dos componentes que afetam as papilas gustativas são assimétricos).

A maioria das moléculas orgânicas assimétricas pode ser criada em suas duas formas no laboratório – destras ou canhotas –, mas ocorrem naturalmente em apenas uma delas. No corpo humano, os aminoácidos são do tipo canhoto. E que diferença isso faz? Toda. Começa pelo seu coração. O músculo que bombeia o sangue fica virado para a esquerda – não só no homem como em quase todos os vertebrados. Nem sempre foi assim. No início do desenvolvimento embrionário, há apenas um tubo reto, no meio do corpo, por onde fluem as proteínas que vão formar o coração. A “correnteza” desse fluido é determinada pela presença de monocílios, organelas celulares cujos minúsculos pêlos funcionam como hélices, girando para empurrar as substâncias químicas. Acontece que os pelinhos rodam todos no sentido horário, o que leva as partículas a flutuarem em direção ao lado esquerdo. Caso os monocílios fossem compostos por proteínas destras, os cílios girariam no sentido contrário, e o coração bateria no lado direito.

Sua localização voltada para um dos lados torna o coração uma rosca assimétrica e isso é uma vantagem, porque permite que o sangue seja bombeado em espiral, o que diminui a turbulência e facilita o fluxo. “A simetria é uma vantagem para estruturas simples. No entanto, quando o grau de complexidade aumenta, a assimetria passa a ser necessária”, afirma McManus, como que confirmando a história de Alice, que descobre a assimetria só quando se aprofunda no assunto. A regra vale para estruturas orgânicas e para mecânicas. Por fora, um carro é bastante simétrico, com duas rodas de cada lado, do mesmo tamanho. Não fosse assim, seria difícil dirigir em linha reta. Mas por dentro o volante e os pedais ficam de um único lado. Na parte do motor, tudo também é assimétrico. O corpo humano funciona de forma idêntica. Sem duas pernas do mesmo tamanho, andar seria muito mais difícil. Mas, no interior, somos bem diferentes de nossa imagem no espelho.

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Na cabeça também

Com seus dois hemisférios aparentemente idênticos, o cérebro também esconde uma assimetria. Em 1863, 15 anos depois da divulgação do trabalho de Pasteur, outro francês, o médico Paul Broca, revelou que o hemisfério direito controla o lado esquerdo do corpo e vice-versa. Mais que isso: Broca percebeu que cada hemisfério executa funções distintas. Ele chegou a essas conclusões depois de examinar três dezenas de cérebros de pessoas que haviam sofrido derrame cerebral resultando em paralisia do lado direito do corpo e perda da linguagem. Constatou-se que todos apresentavam lesão no hemisfério esquerdo. Atualmente, sabe-se que na maioria dos seres humanos este é muito importante para a linguagem e o intelecto, enquanto o hemisfério direito trabalha mais com as imagens e a intuição.

O que diferencia os hemisférios parece ser a velocidade das conexões nervosas. Em um estudo realizado pelo professor Michael Nicholls, da Universidade de Melbourne, Austrália, voluntários escutavam uma gravação com ruídos como os de um rádio fora de sintonia. No meio do barulho, havia um breve instante de silêncio, de décimos ou até centésimos de segundo. Usando o ouvido direito (e portanto o hemisfério esquerdo), os voluntários conseguiam perceber intervalos até 15% mais curtos do que com o outro ouvido. Para uma atividade como a fala, tão dependente da veloz coordenação entre o cérebro e as cordas vocais, qualquer pequena diferença é crucial. “A linguagem pode estar no hemisfério esquerdo porque aquele hemisfério trabalha mais rápido.”

O ato de arremessar uma pedra ou uma bola de tênis também requer uma perfeita sincronia entre cérebro, braço e mão. Se arremessado frações de segundo antes ou depois do tempo certo, o objeto não atingirá o alvo. Assim, a função motora igualmente costuma ficar localizada no hemisfério esquerdo. McManus propõe que o cérebro é assimétrico por causa de uma mutação, ocorrida há milhões de anos, do gene que determina o lugar do coração. Esse mesmo gene mutante seria responsável por definir aquela que é talvez a assimetria mais visível para nós: a que separa destros de canhotos.

Pessoas que escrevem e realizam quase todas as tarefas com a mão direita representam cerca de 90% da população mundial. Os destros sempre foram maioria esmagadora, como indicam achados arqueológicos (como ferramentas e armas rudimentares) e a análise de obras de arte em que pessoas são retratadas usando uma das mãos. A atribuição de valores para direita e esquerda também é muito antiga, à primeira sempre cabendo um conceito positivo e à segunda, um negativo – o que não é surpresa, já que vivemos em uma sociedade de destros. Do latim dexter (direita) veio o termo “destreza”, que significa “habilidade”, “aptidão”. Já sinister (esquerda) originou “sinistro”, ou “mau”, “fúnebre”. No português, “direito” também é sinônimo de “correto”, “justo”. O mesmo acontece no inglês (right) e no alemão (recht). Já o termo francês gauche, além de “esquerdo”, significa “desajeitado”, “torto”.

Ovelhas e bode

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Essa distinção vem de tempos bíblicos, como se pode comprovar na Bíblia. O Evangelho de São Mateus diz que, no Dia do Juízo Final, Jesus Cristo retornará e que à Sua direita ficarão as “ovelhas”, aqueles que encontrarem a redenção, enquanto à Sua esquerda estarão os “bodes”, pecadores condenados à danação eterna. Na Europa Medieval, um dos “indícios” que poderiam levar uma mulher a ser identificada como bruxa (e a enfrentar a morte certa na fogueira) era o fato de ser canhota. E, até o século 20, muitas escolas obrigavam os alunos a aprender a escrever com a mão direita – sob ameaça de castigos para os rebeldes.

Hoje, diminuiu o preconceito contra quem tem a mão esquerda como a mais hábil, mas os resquícios ficaram em expressões como “entrar com o pé direito”, que significa começar com sorte, ou “acordar do lado esquerdo da cama”, para descrever alguém de mau humor. Nos aspectos práticos do cotidiano, os destros continuam amplamente favorecidos. São sempre eles que os projetistas têm em mente quando criam o design de uma ferramenta. A maioria das pessoas não percebe justamente porque é destra, mas, para um canhoto, utilizar uma tesoura convencional é um sacrifício. A razão disso é que elas são assimétricas, perfeitas para serem manuseadas com a mão direita. Parafusos também são feitos para destros, girando sempre no sentido horário.

São casos em a assimetria pode atrapalhar, mas entende-se que seja assim para beneficiar uma maioria. Atualmente, já é possível achar produtos especiais para canhotos. Entretanto, em outras situações, é o exagero de simetria que acaba sendo prejudicial, e dessa vez a intenção é simplesmente a de satisfazer uma compulsão estética. Consideradas talvez mais bonitas, maçanetas e torneiras redondas, perfeitamente simétricas, são muito comuns. Porém, abrir a porta ou fazer a água correr na pia, com tanta simetria, fica bem mais difícil, principalmente se você estiver carregado de sacolas de compras ou com as mãos ensaboadas.

Para o professor Celso Wilmer, do Departamento de Artes e Design da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, há hoje uma tendência de privilegiar a forma sobre a função. “É tudo uma procura por beleza, uma vontade de querer eliminar o diferente. Acho isso muito cretino. Simetria não é um bem em si. A funcionalidade de um produto deve ser examinada”, diz. A queixa também se estende a aparelhos eletrônicos. Nos painéis dos videocassetes, os botões são todos parecidos, do mesmo tamanho e dispostos lado a lado. É fácil para alguém se confundir, apertar o botão de gravar por engano e apagar sem querer algo importante. Celso queixa-se dessa tentativa de disfarçar as teclas. “Botão não é verruga”, afirma.

No fim, tudo faz parte do mesmo e antigo desejo do homem de encontrar simetria em todo lugar. E, se não a encontra, então ele a cria. “Nós procuramos por simetria em parte porque ela é bonita. A maioria das pessoas não usa calças com uma perna azul e outra verde”, afirma McManus. Mas não é só isso. “As pessoas também procuram por simetria porque ela é reconfortante. Simetria implica um padrão. Quando você identifica o padrão, significa que você entendeu alguma coisa”, diz. E a sensação de entender torna essa vida confusa bem mais suportável.

Essa necessidade de ordem e beleza leva a armadilhas que enganam até os céticos cientistas. Em 1956, os físicos sino-americanos Chen Ning Yang e Tsung-Dao Lee encontraram uma assimetria na essência da matéria que permeia todo o Universo. A comunidade científica os massacrou, e Lee e Yang foram desacreditados por gente do quilate do austríaco Wolfgang Pauli, vencedor do Prêmio Nobel, um dos físicos mais importantes do século, que escreveu uma carta aos dois afirmando duvidar da descoberta.

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Lee e Yang tiveram a ousadia de propor que havia assimetria em uma das forças que mantêm o Universo no lugar. Há apenas quatro forças interagindo com toda a matéria e toda a energia que existe – a força eletromagnética, a força gravitacional, a força forte e a força fraca (essas duas últimas, pouco conhecidas, regem a atração e a repulsão das minúsculas partículas subatômicas). Em relação às três primeiras, nunca houve qualquer dúvida – elas são absolutamente simétricas. Cada uma das subpartículas atômicas envolvidas nessas forças teria exatamente a mesma aparência se fosse refletida num espelho.

Pois os dois cientistas chegaram à conclusão de que isso não se aplica à força fraca. É a força fraca que faz com que, dentro do núcleo de um átomo, um nêutron possa perder um elétron e virar um próton – num processo chamado “decaimento”, que está por trás da radiação atômica, das explosões nucleares e da geração do brilho das estrelas. O que Lee e Yang mostraram é que, nesse processo, uma partícula minúscula chamada neutrino gira de um modo assimétrico. Se refletirmos a força fraca num espelho, o neutrino vai aparecer rodando para o lado errado. Soou uma heresia para os cientistas, tão apaixonados pela perfeição. Mas estava correto. Tanto que os dois físicos ganharam o Prêmio Nobel de 1957.

“Cada vez que se pensa que a assimetria pode ser explicada por meio de alguma simetria escondida, cava-se mais fundo e acaba-se encontrando mais assimetria”, diz McManus. O professor britânico defende a tese de que a força fraca pode estar no princípio de todas as outras assimetrias. A descoberta dos sino-americanos significa que o átomo não é simétrico, o que faz com que moléculas destras e canhotas sejam fundamentalmente diferentes – afinal as peças de que são compostas estão viradas para lados diferentes. No começo do Universo, qualquer pequena distinção poderia tornar-se uma vantagem e levar ao predomínio de uma das formas de aminoácidos e à quase extinção da outra.

Na Terra, realmente, há um excesso de aminoácidos canhotos. Mas a Terra é um pedacinho muito pequeno do Universo. Um pré-requisito para a teoria de McManus estar certa é que esse excesso se repita em toda parte. A análise de meteoritos que caíram em nosso planeta parece confirmar isso. Ou seja, dá a impressão de que é mesmo verdade que o Universo, ao contrário do que queriam os gregos, tão obcecados com a perfeição, é fundamentalmente assimétrico. Mas é cedo para ter certeza disso.

Por enquanto, os físicos podem apenas especular – verbo, aliás, mais do que apropriado para o tema. A palavra vem do latim speculum e originalmente significava observar o movimento dos astros no céu noturno com o auxílio de um espelho.

Para saber mais

Na livraria:

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Right Hand, Left Hand – The Origins of Asymmetry in Brains, Bodies, Atoms and Cultures

Chris McManus, Harvard University Press, EUA, 2002

Simetria

Hermann Weyl, Edusp, São Paulo, 1997

Na internet:

http://www.righthandlefthand.com

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