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China retira escamas de pangolim de sua lista de itens de medicina tradicional

O animal – que pode ter sido hospedeiro intermediário do coronavírus – é o mais traficado do mundo graças a uma crença pseudocientífica nas propriedades curativas de suas escamas.

Por Bruno Carbinatto - Atualizado em 12 jun 2020, 18h48 - Publicado em 12 jun 2020, 18h40

Em meio a uma pressão crescente pela proibição da criação e comércio de animais selvagens desde o início da pandemia, o governo chinês retirou as escamas de pangolim da lista oficial de ingredientes aprovados para uso na na medicina tradicional chinesa. O mamífero, que tem formato de tamanduá e é coberto por escamas, é o animal mais traficado do mundo atualmente, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), em grande parte graças à crença pseudocientífica de que suas escamas teriam propriedades curativas.

O pangolim ganhou as manchetes nos últimos meses após cientistas identificarem nesses animais uma linhagem de coronavírus semelhantes ao Sars-CoV-2, o causador da pandemia de Covid-19. O sequenciamento genético, porém, determinou que o corona do pangolim é só 92% igual ao nosso – sinal de que ele provavelmente não foi o responsável por passar a doença a nós. Seja o pangolim o hospedeiro ou não, é bom esclarecer que ele ou qualquer outro animal seriam apenas intermediários: acredita-se que o vírus surgiu no corpo de um morcego, mas fez escala em pelo menos um animal antes de alcançar o Homo sapiens.

Independentemente de qual tenha sido o papel do pangolim, a pressão internacional pelo fim do tráfico do bicho só aumentou nos últimos meses – afinal, não importa o papel que ele teve nesta pandemia: além de estar em risco de extinção, ele ainda abriga outros vírus que talvez infectem seres humanos no futuro. Além da insatisfação de ativistas e organizações sem fins lucrativos de todo o mundo, países como Estados Unidos e Austrália estão fazendo cobranças diplomáticas.

Estima-se que um pangolim é retirado da vida selvagem a cada cinco minutos, e que mais de um milhão deles foram caçados só na última década. O animal é extremamente cobiçado por caçadores e coletores ilegais por dois motivos: sua carne é considerada uma iguaria em alguns locais, e partes do seu corpo, em especial suas escamas, são consideradas itens com propriedade curativas pela medicina tradicional chinesa – apesar de não haver nenhuma evidência científica de sua eficácia. Na realidade, as escamas do bicho são feitas de queratina – a mesma proteína que forma as unhas em humanos.

Existem oito espécies de pangolim, quatro na Ásia e quatro na África. Destas, três estão classificadas como “criticamente ameaçadas de extinção” pela IUCN, enquanto outras três estão “ameaçadas” e duas estão “vulneráveis”. A população de todas as oito caiu nas últimas décadas – e o comércio ilegal é a causa principal. Na China, por exemplo, a diminuição da espécie Manis pentadactyla foi de mais de 90% desde a década de 1960, segundo estimativas. As outras espécies asiáticas também tiveram uma redução drástica, e mesmo os exemplares africanos, que eram menos caçados, começaram a enfrentar ameaças severas.

Segundo a mídia estatal chinesa, o pangolim foi retirado da Farmacopeia Chinesa (a lista de tratamentos tradicionais aprovados) devido a preocupações com a preservação da espécie. A medida vem poucos dias depois de o governo chinês elevar os pangolins para a classificação de “primeiro nível de proteção de animal selvagem”, status compartilhado por animais como pandas e tigres.

Antes da pandemia, o governo chinês agia lentamente na proteção desses animais: em 2008, proibiu a caça ilegal do pangolim em seu território, e, em 2018, parou de importar itens (como remédios) fabricados com matéria-prima extraída do bicho. Em ambas ocasiões, porém, o governo fez vista grossa a quem desrespeitava as normas. Só na China, a criação e comércio de animais exóticos empregava 14 milhões de pessoas e gerava até US$ 73,3 bilhões até o ano passado. Tudo legalizado.

Após a pandemia, o governo chinês proibiu totalmente o comércio de animais selvagens no território (pelo menos por enquanto). Ainda não se sabe se a proibição será permanente e se de fato será colocada em prática com seriedade pelo governo – ainda mais depois de novas evidências apontarem que o wet market de Wuhan, onde eram vendidas diversas espécies selvagens, provavelmente não foi o local de surgimento do novo coronavírus. Porém, é improvável que a pressão internacional pelo fim da prática, tanto de organizações independentes como de governos, cesse em um futuro próximo.

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