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Cientistas elucidam a morte dos últimos mamutes

Os exemplares derradeiros pereceram confinados em uma ilha, entre a Rússia e o Alasca.

Durante dezenas de milhares de anos, eles foram uma das espécies mais bem adaptadas e onipresentes da era do gelo. Entre 100 mil e 15 mil anos atrás, todo o hemisfério norte era o lar doce lar do mamute peludo — seu habitat se estendia da Espanha ao Alaska. Mas, em um curto período de tempo, tudo mudou e o animal gigante desapareceu da face da Terra por volta do ano 2000 antes de Cristo. Qual foi a causa do declínio tão drástico e repentino?

Uma equipe de pesquisadores da Finlândia, Alemanha e Rússia desenvolveu um estudo de grande abrangência justamente para entender o que está por trás do ocaso dos mamutes. Eles examinaram ossos e dentes do primo cabeludo do elefante com o intuito de reconstruir em detalhes como era o mundo no qual eles pereceram. As ossadas provinham de Yukon, no Canadá, do Alaska, do norte da Sibéria e da Ilha Wrangel, no nordeste da Rússia.

Esses restos mortais pertenceram a animais que viveram entre 40 mil e 4 mil anos atrás. Os cientistas avaliaram a presença de certos elementos químicos para investigar a evolução da dieta dos mamutes e identificar possíveis evidências de degradação ambiental onde viviam. De todos os espécimes, os da Ilha Wrangel apresentaram sinais de condições de vida mais estáveis e favoráveis. Foram eles, justamente, os últimos mamutes a andar sobre a Terra.

O isolamento desses bichos que tiveram uma sobrevida de sete milênios em comparação com os parentes continentais ocorreu devido ao aumento do nível do mar, que criou a ilha. Conforme constatou o estudo recente, os níveis dos isótopos de colágeno e de nitrogênio dos animais confinados manteve-se constante mesmo após o aquecimento do planeta que começou a se intensificar há 10 mil anos. Sinal de que levavam uma vida boa por ali.

Isso ficava ainda mais claro frente à situação dos mamutes de outros lugares. Tanto aqueles nativos das planícies da Rússia e da Ucrânia, mortos há 15 mil anos, quanto os moradores da Ilha de São Paulo, no Alaska, extintos há 5,6 mil anos, apresentavam desequilíbrios na composição dos isótopos. Sugere que enfrentaram mudanças profundas em seu habitat antes de morrerem. Os cientistas descobriram mutações nos mamutes de Wrangel.

Elas afetavam sobretudo o funcionamento da gordura no metabolismo, bem diferente dos ancestrais da Sibéria. “Isso reflete a tendência dos mamutes siberianos de depender das reservas de gordura para sobreviver aos invernos extremamente rigorosos da era do gelo, enquanto os mamutes de Wrangel, vivendo em condições mais amenas, não precisavam”, disse em comunicado Laura Arppe, da Universidade de Helsinki, que liderou a pesquisa.

No entanto, nem tudo eram flores na ilha perdida dos últimos mamutes. Os cientistas detectaram altos níveis de estrôncio e enxofre em suas ossadas — possível indício de que intemperismos mais intensos soltavam minerais das rochas e comprometiam a qualidade da água que bebiam. Pode ter sido uma das causas que levaram a espécie à extinção.

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Se os mamutes isolados de Wrangel estavam relativamente saudáveis mesmo quando todos os seus parentes de outras terras já haviam perecido, a explicação mais provável para seu desaparecimento são fenômenos pontuais, como eventos climáticos rigorosos. Neve acima do normal pode ter encoberto o solo e impedido que achassem alimentos por períodos prolongados. E, ainda por cima, os humanos chegaram em seu pacato recanto.

Não se sabe se homens pré-históricos caçavam mamutes na ilha, mas o mais recente osso achado no local antecede poucos séculos o primeiro assentamento humano descoberto por arqueólogos. A hipótese de que, mesmo na remota Ilha Wrangel, teria havido dedo humano na extinção dos mamutes não pode ser descartada. O estudo mostra que, a princípio, o isolamento parece tê-los favorecido, mas no final das contas, grandes mamíferos estão particularmente suscetíveis à extinção quando confinados em pequenas populações.