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Terapia pode interromper progressão do Alzheimer em cérebros de macacos

Macacos idosos que receberam tratamento com oligodesoxinucleotídeos CpG, medicamentos da classe de reguladores imunológicos, apresentaram até 59% menos acúmulo da proteína beta-amiloide, que leva a doença neurodegenerativa.

Por Luisa Costa Atualizado em 18 jun 2021, 16h17 - Publicado em 17 jun 2021, 13h06

Uma terapia experimental contra a progressão do Alzheimer revelou potencial em pesquisa com macacos, mostrando recuo de 59% no desenvolvimento da doença no cérebro dos animais. O tratamento faz com que células do sistema imunológico engulam proteínas deformadas, placas de beta-amiloide e proteínas tau, cujo acúmulo anormal leva à doença degenerativa.

O estudo foi liderado por pesquisadores da NYU Grossman School of Medicine, faculdade de medicina em Nova York. Eles perceberam que macacos idosos tinham até 59% menos depósitos de placas de beta-amiloide em seus cérebros após o tratamento com oligodesoxinucleotídeos CpG (CpG ODN), medicamentos da classe de reguladores imunológicos.

A beta-amiloide é a proteína mais característica do Alzheimer. À medida que se acumula no cérebro de quem tem a doença, ela atrapalha a comunicação entre neurônios no cérebro, formando placas que bloqueiam as conexões entre eles – as chamadas sinapses.

Os cérebros dos macacos que receberam o tratamento também apresentaram uma queda nos níveis de tau tóxico. Essa proteína, cujo acúmulo também é característico do Alzheimer, pode destruir tecidos vizinhos, porque alterações químicas relacionadas à doença fazem com que ela se espalhe por outras células.

“Nossas descobertas ilustram que esta terapia é uma forma eficaz de manipular o sistema imunológico para retardar a neurodegeneração”, disse Akash Patel, pesquisador assistente do Centro de Neurologia Cognitiva da NYU Langone Health.

Os pesquisadores estudaram 15 macacos fêmeas entre 17 e 19 anos de idade. Os animais idosos eram da espécie conhecida por “macaco de cheiro” ou “macaco esquilo”, que habita florestas tropicais na América do Sul e na América Central. Já se registrou que este macaco pode viver até 21 anos (em cativeiro).

Os animais foram divididos em dois grupos para o estudo. Oito deles receberam uma única dose do medicamento uma vez por mês, durante dois anos. O restante fez parte do grupo que serviria para fins de comparação, recebendo apenas uma solução salina.

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Os pesquisadores observaram o comportamento dos dois grupos ao longo do tratamento e compararam o tecido cerebral e as amostras de sangue dos animais, observando depósitos de placas e níveis de proteínas tau.

  • Os cientistas também ficaram atentos a evidências de inflamação nos macacos. Isso porque, segundo os pesquisadores, tratamentos anteriores direcionados ao sistema imunológico causaram níveis perigosos de inflamação – que poderiam matar as células cerebrais –, porque as drogas utilizadas estimularam excessivamente o sistema.

    “Nosso novo tratamento evita as armadilhas de tentativas anteriores porque é administrado em ciclos, dando ao sistema imunológico a chance de descansar entre as doses”, disse o co-autor sênior do estudo, Thomas Wisniewski. Ele afirma que nenhuma inflamação adicional foi observada nos macacos tratados.

    Os pesquisadores perceberam que o tratamento também trouxe benefícios cognitivos. Os macacos idosos tratados, quando apresentados a alguns quebra-cabeças, tiveram um desempenho muito melhor do que os macacos que ficaram sem o medicamento – semelhante ao desempenho de animais adultos jovens.

    Segundo Wisniewski, os macacos-esquilo desenvolvem uma forma de neurodegeneração à medida que envelhecem, semelhante ao Alzheimer em humanos, o que os torna ideais para estudar a doença.

    Henrieta Scholtzova, co-autora sênior do estudo, afirma: “As semelhanças no envelhecimento entre os animais estudados e nossa própria espécie nos dão esperança de que esta terapia funcione em pacientes humanos também”.

    Segundo Scholtzova, os macacos do estudo já apresentavam sinais de neurodegeneração, e outros testes em animais mais jovens vão permitir que se avalie a eficácia do tratamento em estágios mais iniciais da doença.

    A equipe de pesquisadores também planeja começar a testar a terapia CpG ODN em pacientes humanos com deficiências cognitivas leves ou em estágios iniciais de demência, além de estudar o tratamento em doenças neurodegenerativas relacionadas.

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