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Cientistas podem ter descoberto o que são as “aranhas” na superfície de Marte

Pesquisadores usaram um simulador de atmosfera para recriar as manchas que aparecem nos polos do planeta vermelho – e que, claro, não têm nada de aracnídeas.

Por Maria Clara Rossini 8 abr 2021, 19h57

As “aranhas” que você vê na foto acima são, na verdade, manchas escuras encontradas em Marte. Os próprios estudos que se debruçam sobre o tema, inclusive, classificam as manchas como araneiformes (ou seja, que tem forma de aranha). Elas parecem pequenas, mas podem medir até um quilômetro de comprimento e são diferentes de tudo que vemos na Terra.

Desde que foram observadas pela primeira vez, no ano 2000, cientistas vêm pesquisando quais fenômenos poderiam originar figuras tão únicas. Agora, um artigo publicado no periódico Scientific Reports pode ter matado a charada de vez.

Pesquisadores do Reino Unido conseguiram recriar, em laboratório, uma versão em miniatura das manchas. Eles utilizaram uma placa de gelo de dióxido de carbono (o famoso gelo seco) e um equipamento que simula a atmosfera de Marte, com as mesmas condições de pressão e temperatura do planeta. Quando o gelo seco entrou em contato com a atmosfera e o solo marcianos fake, parte do CO2, que estava congelado, transformou-se instantaneamente em gás – e as rachaduras aracnídeas no gelo se formaram à medida que o composto sublimava.

“Esse é a primeira evidência empírica de um processo na superfície de Marte que altera a paisagem polar”, disse a pesquisadora Lauren McKeown em nota.

  • A atmosfera de Marte contém mais de 95% de gás carbônico e só 1% de oxigênio. Por isso, a maior parte do gelo que se forma nos polos durante o inverno é, justamente, o gelo seco (CO2 sólido). Como as “aranhas” eram observadas nos polos, os cientistas já sabiam que elas se formavam no gelo.

    Um estudo de 2003 já havia sugerido que essas estruturas seriam resultado da primavera marciana, quando os raios solares penetram o gelo e esquentam o solo que está abaixo dele. O calor faz o CO2 sublimar (passar do estado sólido para o gasoso), criando uma pressão na base do gelo até ele rachar. O gás escapa por essas rachaduras, deixando para trás o padrão aracnídeo observado pelos astrônomos.  

    A hipótese foi bem aceita durante quase duas décadas, mas era difícil testá-la na prática, já que a Terra possui condições completamente diferentes das de Marte. O novo estudo só foi possível usando a Câmara de Simulação Marciana da Open University, na Inglaterra, que simula a atmosfera do planeta. A equipe colocou sedimentos de diferentes tamanhos na câmara para emular o solo de Marte e, em seguida, posicionou o gelo.

    Câmara de Simulação Marciana da Open University, na Inglaterra. Um grande tonel cinza com cabos conectados.
    Câmara de Simulação Marciana da Open University, na Inglaterra. Open University/Divulgação

    No estudo, o gelo sempre sublimava e deixava a forma aracnídea em contato com o solo, seja qual fosse o tamanho dos sedimentos colocados na câmara. E quanto mais finos eram os grãos, mais as pernas das “aranhas” se alongavam.

    Daqui em diante, tanto o equipamento quanto a técnica empregada poderão ser usados não só para estudos do CO2 em Marte, mas também da sublimação em outros corpos celestes, como as luas Europa, de Júpiter, e Enceladus, de Saturno.

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