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Cocaína em rios europeus está deixando enguias doidonas – e muito doentes

A droga pode degenerar os músculos desses peixes – e acabar impedindo uma das migrações mais épicas do oceano Atlântico

Por Bruno Vaiano - Atualizado em 28 jun 2018, 15h29 - Publicado em 28 jun 2018, 15h05

Quase tudo que o ser humano usa, de cotonetes a ácido sulfúrico, vai parar em um rio eventualmente. Drogas não são exceção. No trecho do rio Tâmisa que corta Londres, a concentração de benzoilecgonina (um resquício metabólico que sai na urina de quem consome cocaína) é de 17 bilionésimos de grama por litro de água. Uma análise feita no rio italiano Pó em 2005 revelou que ele dá vazão a 4 kg de cocaína diariamente – o trocadilho fica por conta do leitor.

Quem não gosta nada dessa história são os peixes. Mais especificamente, as enguias de uma espécie com nome científico engraçado: Anguilla anguillaUm artigo científico publicado na semana passada demonstrou que a cocaína, na concentração que é encontrada nos rios europeus, causa inchaço e disfunções nos músculos e torna esses animais hiperativos – o que poderia impedi-los de completar as loucas migrações que eles fazem para se reproduzir. 

As enguias testadas em laboratório foram colocadas em água com 20 bilionésimos de cocaína por litro – uma concentração residual condizente com a verificada em rios de verdade. Outras enguias, que serviram de referência, ficaram em água pura, sem contaminantes. Após 50 dias de exposição à droga, as narcóticas arriaram: exibiram sintomas similares aos de uma condição chamada rabdomiólise, em que as fibras musculares se desintegram. Outro problema é que, graças ao aumento da concentração de cortisol, o hormônio do stress, elas pararam de acumular reservas de gordura – que são essenciais para suportar viagens aquáticas longas. 

Nem 10 dias de rehab em água limpa ajudaram: os danos são praticamente irreversíveis. “Todos os tecidos afetados tem funções essenciais para a sobrevivência das enguias”, afirmou ao The Guardian Anna Capaldo, pequisadora da Universidade de Nápoles Federico II que liderou o estudo. “Guelras debilitadas podem reduzir a capacidade respiratória, um músculo avariado pode afetar a habilidade de nadar.”

É claro que qualquer peixe que esteja em risco por causa de contaminação é motivo de preocupação. Mas as enguias europeias são um caso especialmente delicado porque dependem da capacidade de nadar para fechar seu ciclo reprodutivo e perpetuar a espécie. Entenda abaixo:

Enguias transatlânticas

Você já viu um filhote de pombo? Pois é, eu também não. Mas que eles existem, existem. Afinal, tudo que é vivo já foi bebê um dia. Por uns bons séculos, os pescadores dos rios europeus devem ter feito uma piada parecida com as enguias. Elas davam a impressão de já vir de fábrica adultas, esbanjando comprimento. Ovos de enguia? Enguias adolescentes? Ninguém nunca tinha visto (ou melhor, pescado).

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Foi só em 1920 que um biólogo dinamarquês chamado Johannes Schmidt matou a charada. Os bebês de enguia europeia existiam – só não viviam na Europa. Na verdade, a dita cuja está mais para Pokémon do que para peixe: muda de forma e habitat várias vezes ao longo da vida. Acompanhe a história: 

Os ovos de enguia eclodem em uma região do Atlântico próxima ao litoral americano chamada “mar de Sargaços”. Nessa velha infância, elas são discretas: larvas de poucos centímetros, transparentes e achatadas, que atendem pelo nome de leptocéfalos. Os leptocéfalos são tão diferentes de sua versão adulta que, por muito tempo, ninguém percebeu que eles e as enguias na verdade eram duas fases da mesma coisa. Eles eram simplesmente classificados como outro animal, de nome científico Leptocephalus brevirostris. 

Só depois que o quebra-cabeça reprodutivo foi montado que ficou claro o que acontecia. As pequenas larvas, nadadoras talentosas, cruzam o oceano sempre próximas à superfície, se alimentando de pequenas partículas orgânicas até alcançar a Europa. A viagem, impulsionada por correntes marítimas, leva 300 dias.

No litoral, ainda mergulhadas em água salgada, elas crescem até atingir o próximo estágio evolutivo, chamado “enguia-de-vidro”, ou meixão. Nessa altura, penetram na foz dos rios, e nadando contra a corrente, passam a viver em água doce. O meixão é cobiçado por restaurantes, e sua pesca excessiva em países como Portugal compete pau a pau com a cocaína na longa lista de ameaças às enguias. 

As enguias ainda passarão por um estágio – chamado “enguia-amarela” – até estarem prontas para se reproduzir. Neste ponto, se tornam enguias prateadas, adultas e com quase um metro de comprimento, e começam a acumular reservas de gordura para aguentar a longa viagem de volta para o Atlântico, onde deixarão os ovos. É aí que os músculos se tornam tão importantes: elas precisam voltar para o mar de Sargaços em um pique só, sem parar sequer para comer. Chegando lá, morrem logo após a reprodução, fechando o ciclo.

Os pesquisadores afirmam que ainda são necessários mais estudos para descobrir o quanto a cocaína realmente afeta as enguias em rios reais, fora do ambiente experimental – e por que a droga é tão nociva para o organismo desses animais em particular. As perspectivas, porém, não são animadoras. Afinal, além de substâncias ilícitas, a água também tende a estar contaminada com pequenas concentrações de metais pesados, pesticidas e antibióticos. Um coquetel de porcarias sutis que não dá espaço para otimismo.

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