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Como entrar para a Mensa

Os clubes de superdotados reúnem as cabeças mais brilhantes do mundo e funcionam como uma espécie de rede de apoio para os cérebros privilegiados

Uma “mesa” ao redor da qual todos são iguais. Esse é o significado por trás do logo – e do nome, que vem do latim – da Mensa, a sociedade para pessoas de alto QI. Por lá, não interessa a profissão, a idade ou a origem da pessoa. O requisito é um só – o que não significa que seja fácil se tornar um “mensan”, como são chamados os membros da organização. Para chegar lá, é preciso realizar um teste de QI e obter um resultado superior a 98% da população já avaliada – em média, mais de 130 pontos.

A organização surgiu em 1946, na Inglaterra, com um objetivo claro: reunir pessoas inteligentes ao redor do mundo, sem preconceitos raciais ou religiosos. Ela conta hoje com mais de 134 mil membros, sendo cerca de 1,4 mil em solo brasileiro, onde a associação desembarcou em 2001.

Além de encontros informais, a Mensa realiza todos os anos uma reunião oficial de abrangência nacional, chamada de Annual Gathering, em inglês mesmo. A de 2017 está marcada para Brasília, em setembro. No mundo inteiro, a organização busca identificar pessoas com alta inteligência e estimular programas para crianças superdotadas poderem tirar o máximo proveito de suas aptidões. Essas políticas costumam ser discutidas no “gathering”.

Mas, além de garantir o direito vitalício de se gabar diante dos amigos, o que exatamente significa ser um membro da Mensa? A resposta varia. Para alguns, fazer o teste e ser reconhecido como dono de um QI alto é a simples chance de comprovar suas habilidades mentais. Para outros, uma maneira de formar novas amizades. “Eu nunca me senti tão compreendida como na Mensa”, afirma a psicóloga Cristiane Costa Cruz, ex-presidente do braço brasileiro da associação.

“A inteligência é como uma janela: quanto maior a janela, maior a percepção do mundo, e mais detalhes é possível enxergar”, diz Cristiane, que organiza reuniões informais todos os meses entre os membros da Mensa, em São Paulo. “Conversar com superdotados, mais do que o assunto em si, tem a função de me fazer sentir mais `normal¿”, revela. A sensação é compartilhada por outros membros. Vindos de contextos em que sua visão de mundo não era totalmente compreendida, encontraram na interação com outros mensans uma forma de se encaixar melhor.

Para alguns deles, ser parte da Mensa salvou sua vida, literalmente. É o caso do escritor, filósofo e astrólogo Alexey Dodsworth. Considerado um dos membros mais populares da associação no Brasil, Dodsworth conheceu a Mensa por acaso, em um episódio de Os Simpsons no qual a jovem Lisa é convidada para integrar a organização. “Pesquisei, achei interessante e fiz o teste só por farra. Passei”, conta. Na infância, Alexey queria ser astrônomo. Aos 11 anos e diante da dificuldade de encontrar material específico sobre o tema, começou a comprar revistas de astrologia acreditando ser a mesma coisa – só depois se deu conta do equívoco, mas nunca deixou de se interessar pela simbologia dos astros.

Dodsworth hoje cursa o doutorado em filosofia na USP, e começou uma graduação em astronomia (agora para valer). Quando publica seus livros, realiza eventos com os mensans, o que o tornou bastante conhecido no círculo brasileiro. Alguns anos atrás, passou a ter problemas de saúde que nenhum médico soube resolver. Chegou a ser tratado como hipocondríaco, mas depois descobriu que tinha câncer. Os especialistas achavam que o tumor era benigno – e não era. “Então, um médico membro da Mensa se ofereceu para me atender. Fez tudo direito. Pela primeira vez em muitos anos, eu senti que não sabia mais do que o médico”, recorda.

Durante a luta contra a doença, Dodsworth precisou de doações de sangue. Fez pedido nas redes sociais e não obteve ajuda de seus amigos. Apesar disso, conseguiu o que precisava em 24 horas. “Pedi para ver a lista com os nomes dos doadores: eu não conhecia ninguém. Daí, descobri que eram pessoas da Mensa.”

Os mensans são rápidos em desfazer o mito de que as pessoas de alto QI se encaixam sempre no estereótipo de nerds e geeks. Ao contar suas experiências, os associados da Mensa ressaltam que a única coisa que a maioria tem em comum é a nota alta no teste de inteligência. A diversidade de interesses aparece na variedade de carreiras escolhidas por eles – ou, em alguns casos, na dificuldade de ficar em uma carreira só.

“Ao longo dos anos, percebi que é comum pessoas inteligentes começarem diversas faculdades e cursos e acabarem desistindo, pois muitas vezes falta motivação. Ou, quando o assunto se torna fácil, perde a graça. Isso ocorre com muita frequência na minha vida”, ressalta Pamella Zanini, que entrou na organização aos 17 anos.

Ela própria começou sete faculdades e hoje trabalha em áreas muito diferentes: tem uma carreira em TI, mas nas horas vagas dá aulas de gastronomia e atua como cabeleireira. “É ótimo ser compreendida em várias situações que fora da Mensa são tidas como banais, como conversas sobre coisas nerd, dúvidas sobre o que estudar, dicas sobre livros e leituras”, diz Pamella.

Os mensans tentam combater a visão de que são uma sociedade de esnobes, um “clube de gênios”, algo que a postura de alguns membros não ajuda a desfazer. “O problema, e aí eu tendo a ser minoria dentro da própria Mensa, é que eu não acredito que essa `maior capacitação¿ nos torne melhores. Nos torna mais responsáveis, no sentido de ajudar a tornar o mundo um lugar melhor. É um princípio basilar que aparece até em histórias em quadrinhos: o Homem-Aranha fala isso”, acredita Dodsworth.

Clubes geniais

Embora seja uma das mais famosas, a Mensa não é a única sociedade criada com o objetivo de reunir pessoas com um alto escore nos testes de QI. Diferentes associações pipocaram pelo mundo com ideias parecidas – e a briga parece ser para determinar quem consegue montar o clube mais exclusivo, colocando critérios cada vez mais rígidos para abrigar novos integrantes.

A Intertel, criada 20 anos depois da Mensa, em 1966, restringiu ainda mais a admissão, aceitando só aqueles cuja nota esteja entre os 1% de maior QI. Tanto que tem só 1,3 mil participantes no mundo. Em 1978, a Triple Nine Society abriu as portas apenas para quem tem QI entre os 0,1% mais altos. Curiosamente, a TNS, como é conhecida, tem mais membros do que a própria Intertel: com mais recursos para se estabelecer em outros países, reúne em torno de 1,7 mil pessoas hoje.

A mais exclusiva de todas? Uma organização chamada Mega Society, criada pelo filósofo americano Ronald Hoeflin, em 1982. Se as organizações anteriores se valiam de testes já conhecidos, como o WAIS e o Stanford-Binet, a Mega só aceita quem passa por alguma das avaliações que foram criadas pelo próprio Hoeflin (e são criticadas por especialistas). O QI necessário, cerca de 172, representa 0,0001% da população mundial. Com tantas restrições, a Mega tem apenas 26 membros.

Mensans ilustres
Tem músico, escritor, cartunista, ator e até sargento entre os membros

Roger Moreira
Conhecido pelas discussões acaloradas (nem sempre intelectualizadas) nas redes sociais, o vocalista do Ultraje a Rigor é o membro mais famoso da Mensa no Brasil, mas não tem participado da entidade.

Isaac Asimov
O famoso autor de ficção científica foi vice-presidente da Mensa Internacional e nunca escondeu suas críticas a alguns dos membros, que definia como orgulhosos e agressivos.

Adrian Cronauer
Ex-sargento da Força Aérea dos EUA, ficou famoso por suas locuções durante a Guerra do Vietnã. Foi a inspiração para o filme Bom Dia, Vietnã.

Scott Adams
O cartunista por trás da tirinha Dilbert, que satiriza o cotidiano do mundo corporativo, é um caso de ex-membro da Mensa: Adamsparou de pagar as anuidades nos anos 1980.

Nolan Gould
O cartunista por Ator famoso por um personagem que não é um exemplo de inteligência (o adolescente Luke, da série Modern Family), Gould é um mensan com QI avaliado em 150. Ele concluiu o Ensino Médio aos 13 anos.
Os critérios de ingresso
Teste é aplicado pela entidade por R$ 80
Para entrar na Mensa, é preciso estar entre os 2% com escores mais altos nos testes de QI, considerando os padrões de resultados de brasileiros da sua faixa etária. No Brasil, os testes são administrados pela própria associação, em sessões coletivas (no passado, eram provas individuais), e as inscrições podem ser realizadas pelo site mensa.com.br, com o pagamento de uma taxa de R$ 80. Também é possível enviar o laudo de um teste de QI já realizado no passado, desde que tenha sido aplicado por um psicólogo registrado no Conselho Regional de Psicologia – neste caso, a taxa é mais alta, no valor de R$ 500. Os testes aceitos atualmente no país são o APM (Matrizes Progressivas avançadas de Raven-Pearson), o WAIS-III (edição mais antiga do teste mais utilizado no mundo hoje, o WAIS-IV), e o WASI, a versão abreviada do WAIS.