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Cores estranhas e agrotóxicos invisíveis

A maior feira de frutas e verduras do mundo tem 3.276 expositores de 90 países - e todos os tipos imagináveis de tecnologia agrícola. Com uma exceção.

Por Bruno Garattoni, de Berlim Atualizado em 23 abr 2019, 20h04 - Publicado em 21 abr 2019, 17h50

“Eu não vou responder a nenhuma pergunta sobre glifosato”, diz Jacqueline Applegate, diretora de ciência ambiental da Bayer. Estamos no estande da empresa na Fruit Logistica, em Berlim: a maior feira de frutas e verduras do mundo, com 3.276 exibidores de 90 nações. Ela reúne agricultores de todos os cantos do planeta – pense em qualquer alimento, de aspargos a atemoia, e você encontrará vários países produtores aqui, loucos para fechar negócio com os 78 mil visitantes do evento.

A feira também tem absolutamente todas as máquinas, serviços e insumos agrícolas imagináveis, das coisas mais banais (redinhas para embalar limões e laranjas) às mais sofisticadas (o robô belga Octinion, primeiro capaz de colher morangos, ou a máquina italiana CTI, que pega, posiciona, corta e desencaroça 17 mil abacates por hora), passando por tecnologias que já fazem parte da sua vida, mas você nem sabe que existem – na próxima vez que comprar alface embalada, saiba que dentro do saquinho há uma “atmosfera modificada”, com o oxigênio substituído por CO2 e nitrogênio, para fazer a verdura durar mais. A Fruit Logistica tem até detectores de metais: eles se tornaram a sensação da indústria depois que alguém colocou agulhas dentro de morangos australianos, no ano passado, causando mais de 180 incidentes e arruinando os produtores locais.

A exposição só não tem uma coisa: agrotóxicos. Eles são parte central do mundo moderno, e essenciais para a indústria agrícola, mas na Fruit Logistica é como se nem existissem. Só no pavilhão 18, de todos os 26 que compõem o evento, há um mísero estande dedicado a esse tipo de produto. Ele pertence à empresa espanhola Citrosol, que parece ter tomado cuidado para disfarçar (os panfletos dos seus pesticidas estão escondidos atrás de uma máquina, que ela também oferece, para “medir os limites de resíduos” de agrotóxico nos alimentos). Todos os gigantes da indústria agroquímica estão aqui, mas nenhum deles mostra seus principais produtos. É como ir a uma feira de medicina, por exemplo, e não ver nenhuma menção a remédios. Insólito.

Mas também tem sua lógica: depois que a Bayer comprou a Monsanto, que produz o glifosato e plantas transgênicas compatíveis com esse herbicida, as ações da empresa alemã caíram quase 50%, afogadas pela polêmica em torno do produto. Nos EUA, a Bayer já foi condenada a pagar US$ 370 milhões em indenizações a agricultores que dizem ter desenvolvido câncer devido ao uso de glifosato. A empresa está recorrendo dos processos e, aqui, prefere discutir “práticas sustentáveis” e apresentar suas novas variedades de melão, tomate e pimentão, que comercializa sob as marcas Seminis e De Ruiter.

No estande vizinho, da empresa de biotecnologia Syngenta, também não há qualquer menção aos mais de 50 pesticidas comercializados pela marca. Mas há alimentos bem estranhos, que não se parecem a nada que você já tenha visto nos supermercados: a melancia individual Sunprima (grande demais, na prática, para comer sozinho), uma bizarra couve-flor roxa chamada Depurple, e o não menos esquisito tomate Yoom, com intensa e curiosa cor preta. Não são transgênicos – as alterações foram obtidas por meio de cruzamentos seletivos, que foram mudando lentamente as cores dos alimentos, num processo que levou sete anos (eles ficaram dessas cores porque contêm mais antocianinas, um pigmento antioxidante). Mas eles têm algo de alienígena – e aqui na feira, expostos em redomas de acrílico, são até meio intimidantes. Pergunto qual é o gosto do tomate preto, e um executivo da empresa logo aparece com um. Chega a ser um alívio constatar que ele tem, apenas, gosto de tomate.

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Mas nenhuma tecnologia é tão assustadora quanto a da empresa Bee Vectoring Technology, que usa abelhas como transportadoras de pesticidas. O sistema, que já está sendo usado em plantações de morango e blueberry nos EUA, usa uma bandeja colocada na saída da colmeia. As abelhas pisam nela e ficam impregnadas com pequenas quantidades de pesticida, que levam até as plantas que polinizam. A empresa diz que a coisa não faz mal aos insetos – algo, convenhamos, difícil de acreditar.

“Eu nem vou tentar explicar, é uma física quântica muito profunda”, diz o americano RJ Hassler, inventor do produto mais questionável de toda a feira: o Food Freshness Card. Ele está em destaque no catálogo da Fruit Logistica, mas quase não consigo encontrá-lo – seu estande é pequeno e fica num cantinho do 23o. pavilhão. Trata-se um cartão plastificado, com desenhos que lembram símbolos illuminati, para colocar dentro da geladeira, onde faria a comida durar 40% mais tempo.

Pergunto a Hassler se ele tem estudos científicos comprovando a eficácia do produto, que custa US$ 75. Ele diz que ganhou vários prêmios de inovação e mostra vídeos, supostamente gravados em laboratório, que comparam uvas, tomates e pés de alface envelhecendo com e sem o cartão milagroso. Hassler diz que os estudos podem ser consultados em seu site e, confiante, me dá um Freshness Card para levar e testar.

Ao voltar para o Brasil, adivinhe só. Não havia estudo nenhum. E o tal cartão, claro, não funcionou.

Ele é uma picaretagem. Mas as demais tecnologias descritas nos textos que compõem esta reportagem não são – mesmo nos casos em que parecem surreais. E, no que depender da indústria alimentícia, fatalmente chegarão ao seu prato. Bom apetite.

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