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E se a escravidão não tivesse existido?

Do ciclo do açúcar ao ouro em Minas, o enriquecimento da Europa com as colônias americanas foi movido por pessoas negras escravizadas. E esse dinheiro sujo financiou até a Revolução Industrial.

Por Fábio Marton 19 ago 2021, 09h55

O racismo contra negros é algo tão abjeto quanto pervasivo: chega a ser difícil imaginar um tempo em que ele simplesmente não existiu. Mas houve esse tempo. Na Antiguidade e na Idade Média, pessoas da África Subsaariana eram, para os europeus, apenas estrangeiros de países distantes. Havia, é claro, o receio no contato entre etnias diferentes – mas não discriminação sistemática.

Isso mudou com a escravidão. A Europa herdou essa prática do Império Romano (onde ela não era pautada por cor de pele – os cativos eram prisioneiros de guerra, e vinham de todas as províncias: Britânia, Gália, Egito…). Com o tempo, essa mão de obra se tornou menor e menos importante, sob o argumento de que os escravizados eram, também, cristãos. Surgiu a servidão feudal, que predominou na Idade Média.

Um lugar onde a escravidão continuou, porém, foi a Península Ibérica – tanto entre cristãos quanto entre muçulmanos, que a ocuparam até o século 15. Os islâmicos já capturavam africanos e os exportavam para todos os seus domínios, incluindo os ibéricos. Quando portugueses e espanhóis passaram a explorar as costas da África, no século 15, já sabiam o que procuravam.

O Tratado de Tordesilhas (1494) deu aos portugueses o domínio de todo o litoral da África, enquanto os espanhóis ficaram com a maior fatia da América. Foi assim que os portugueses se tornaram os maiores responsáveis pelo tráfico de pessoas no Atlântico – só enfrentando concorrência mais tarde dos britânicos, franceses e holandeses. Os espanhóis compravam de outros países. Os brasileiros atuaram primeiro como cidadãos coloniais portugueses – isto é, o tráfico português e o brasileiro eram a mesma coisa. Depois da Independência, montaram seus próprios negócios e atuaram inclusive de forma clandestina.

Sem escravidão, a história do Brasil seria, obviamente, outra. O ciclo do açúcar não teria como acontecer com mão de obra indígena – que moveu o começo da colônia extraindo pau-brasil. Por pressão de religiosos dominicanos e jesuítas – e também pela devastação demográfica causada pelas epidemias levadas pelos europeus –, a escravidão indígena foi formalmente abolida em 1556 na América Espanhola, e diminuiu gradualmente no Brasil até sua abolição final, em 1758.

Além dos portugueses, os espanhóis – bem como os franceses, ingleses e holandeses – recorreram a negros escravizados em suas plantações de açúcar. A cana era a maior indústria da época: uma especiaria que não precisava chegar da Ásia. O trabalho nos engenhos era exaustivo, exigente. Rodar uma empreitada assim com os números definhantes de nativos da América (ou com os poucos colonos europeus que arriscavam conviver com o sol e a malária) seria impossível.

A primeira hipótese, então, é que sem escravidão não teria havido ciclo do açúcar. O Brasil se manteria como uma colônia menor – mais uma possessão formal do que o combustível financeiro do império português. E isso teria impacto mundial. O açúcar, no começo, era tão caro quanto as especiarias. Depois, os preços caíram (principalmente após os holandeses entrarem no jogo). Em 1750, se tornaria a commodity mais negociada da Europa.

Outro aspecto pouco lembrado do açúcar é que ele era, para a época, um produto de alta tecnologia. Uma indústria mecanizada, ainda que movida por pessoas e cavalos em vez de motores a vapor. Engrenagens, caldeiras e retortas (para produzir aguardente e rum) tinham que vir da Europa, incentivando o avanço da engenharia mecânica. Parte do capital acumulado pela fabricação e venda desse maquinário acabou na mão dos britânicos. Sem escravidão, a Revolução Industrial poderia não ter acontecido – ao menos não da forma relativamente rápida como aconteceu.

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A gente aprende na escola que os ingleses queriam mão de obra livre para consumir, com seus salários, produtos fabricados em escala industrial. É verdade. Mas também é verdade que o dinheiro que financiou a Revolução Industrial foi sujo. E não veio só do açúcar: a indústria têxtil foi a pioneira da automação na Inglaterra, mas dependia de plantações de algodão americanas movidas a escravos.

  • A ausência da grana das grandes plantações significaria mais paz. Guerras massivas, como a dos 30 anos (1618-1648), e menores, como a invasão da Holanda ao Brasil português (1630-1654), não aconteceriam. Sem Revolução Industrial, outros povos teriam mais tempo para desenvolver tecnologia. Haveria uma relativa paridade de poder entre a Europa e os outros continentes. E os vários grupos étnicos africanos manteriam poder sobre seus territórios, com mais condições de manter igualdade do ponto de vista bélico.

    Veja só: a disparidade não era tão grande no começo do período colonial. No século 16, os portugueses tiveram que desistir de sua ideia de capturar escravos eles próprios, porque foram derrotados pela retaliação dos africanos por mar e terra. Tiveram de entrar em acordos diplomáticos – notavelmente com o Reino do Congo, em 1494 – para levar prisioneiros das guerras locais (guerras que, por conta dessa demanda, aumentaram brutalmente).

    Mistura do Brasil com a Índia

    Sem escravidão, enfim, os europeus não teriam conseguido submeter a África ao imperialismo no século 19. O mundo seria bem menos desigual. E o racismo institucionalizado (primeiro com justificativa religiosa, depois com pseudociência) não teria criado raízes.

    Voltando às Américas, uma hipótese alternativa é que o ciclo do açúcar acontecesse com mão de obra livre. Uma boa candidata a fornecê-la seria a Índia. Sua enorme população dominava o plantio da cana, planta nativa da Ásia, e estava habituada ao clima quente. Migrar para cá seria uma opção atraente para os indianos de castas mais baixas.

    Foi exatamente isso o que aconteceu quando o Império Britânico aboliu a escravidão negra em suas colônias, em 1833. Indianos passaram a assinar contratos de servidão, com a obrigação de morar e trabalhar, mediante uma modesta compensação. Na prática, foi só um pouco melhor que a escravidão, mas funcionou como propaganda do “trabalho livre”. Os descendentes desses indianos ainda vivem em Trinidad e Tobago, Guiana e Suriname – lugares onde formam a etnia mais numerosa hoje.

    Se esse esquema tivesse se disseminado, as Américas seriam indianizadas. Uma população híbrida (genética e culturalmente) de indianos, indígenas e europeus. E também de africanos, mas vindos como imigrantes voluntários.

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