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Enzima pode explicar porque ebola causa doença em humanos, mas não em morcegos

Ela acelera a taxa de mutação do vírus dentro das células dos animais, o que não é visto em humanos.

Por Maria Clara Rossini - 19 ago 2020, 17h22

Grande parte dos patógenos que parasitam humanos vieram de animais. De todas as doenças conhecidas atualmente, 61% são zoonoses. Inicialmente, esses vírus, bactérias e protozoários infectavam apenas espécies animais, mas o maior contato com os humanos deu a oportunidade para que os patógenos passassem a infectar pessoas também.  

O morcego é um dos animais que mais carregam esses microorganismos. Além de terem sido os possíveis vetores do SARS-Cov-2, eles também são a origem de doenças como SARS, MERS e ebola. Enquanto essas doenças são potencialmente fatais em humanos, elas passam despercebidas em populações de morcegos.

Uma pesquisa da Universidade do Texas investigou por que o vírus do ebola não causa doença nos morcegos, mas é fatal em metade dos humanos infectados. Parte da resposta pode estar na enzima ADAR, que faz com que o vírus sofra mais mutações em morcegos do que em humanos.

Quando um vírus causa a morte de seu hospedeiro, é porque ele não está bem adaptado àquela espécie. Afinal, é mais interessante para o vírus que o hospedeiro permaneça vivo e saudável, espalhando cópias do seu material genético por aí. Assim, ele infecta mais pessoas e a população de vírus aumenta.

Mas se o vírus causa uma doença forte, que mata o paciente ou deixa ele de cama, o hospedeiro não conseguirá espalhar a doença para muitas pessoas, e aquela linhagem do vírus pode acabar desaparecendo. O vírus influenza, por exemplo, é muito mais comum que o do ebola, porque não causa sintomas tão fortes. Nesse caso, pode-se dizer que o influenza é mais bem sucedido evolutivamente, já que preserva o seu “habitat natural” – o humano.

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Já o morcego parece ser um bom habitat para o ebola – o que significa que o vírus está bem adaptado a esse hospedeiro. Para entender a diferença entre os morcegos e humanos, os pesquisadores estudaram a taxa de mutação e a estrutura das populações de vírus em células das duas espécies.

Eles verificaram que o vírus do ebola sofria mais mutações nas células de morcego do que em células humanas. Isso porque a enzima ADAR dos morcegos facilita a replicação do vírus, o que não foi verificado da mesma forma em humanos.

Quanto mais o vírus se reproduz, mais mutações ele sofre. Então, as mutações menos agressivas do vírus tendem a prosperar por seleção natural. Os pesquisadores também encontraram indícios de que a enzima pode alterar algumas proteínas do vírus.

Como o mesmo não foi observado em humanos, é provável que o vírus demore mais para se adaptar à nossa espécie. Ele causa uma doença extremamente agressiva pois ainda não apareceu uma mutação oportuna, que consiga preservar o hospedeiro.

Existem outras razões para a resistência dos morcegos às doenças. Uma delas está no sistema imune desses animais. Ao invés de bombardear o organismo com defesas, como geralmente o nosso corpo faz, o sistema imunológico dos morcegos é mais “preguiçoso” e não dá muita bola para invasores. Por incrível que pareça, isso pode ser uma vantagem. Afinal, boa parte dos sintomas de doenças em humanos não são diretamente causados pelo patógeno em si, e sim pela reação exagerada do nosso corpo para tentar expulsá-los.

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