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Esqueleto encontrado em Portugal pode pertencer à múmia mais antiga do mundo

O corpo foi enterrado há oito mil anos – pelo menos um milênio antes da múmia mais antiga conhecida até então.

Por Maria Clara Rossini 16 mar 2022, 14h38

Nos anos 1960, uma equipe de arqueólogos encontrou treze corpos enterrados no vale do Sado, no sul de Portugal. Os esqueletos estavam em covas de oito mil anos, o que já os torna uma baita descoberta arqueológica por si só. O arqueólogo Manuel Farinha dos Santos tirou fotos em preto e branco, com uma câmera analógica

As fotos foram encontradas e reveladas recentemente. Após a análise das imagens e visita ao sítio arqueológico, um grupo de pesquisadores da Suécia descobriu que pelo menos um daqueles corpos foi mumificado – provavelmente para facilitar o transporte até o local do enterro. Isso o torna a múmia mais antiga de que se tem notícia, batendo o recorde anterior por mil anos.

E pasme: o recorde anterior não era do Egito. Ele pertencia às múmias de sete mil anos do povo Chinchorro, encontradas no deserto do Atacama, no Chile. O clima seco do deserto fazia com que alguns corpos sofressem o processo de mumificação naturalmente, enquanto outros eram mumificados artificialmente.

As múmias do Egito só começam a aparecer dois mil anos depois. Apesar de as múmias estarem fortemente atreladas à cultura egípcia, outros povos já dominavam técnicas para retardar a decomposição do cadáver. O processo é mais fácil em locais com condições favoráveis, com clima seco e frio.

Segundo Rita Peyroteo-Stjerna, bioarqueóloga da Universidade Uppsala e uma das autoras do novo estudo, é difícil encontrar múmias na Europa graças ao clima úmido da região. A evidência de mumificação mais recente encontrada na Europa até então datava de 1.000 a.C. É possível que outros corpos encontrados nas covas estejam mumificados.

A descoberta

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Sem as fotos tiradas em 1962, é provável que a múmia não fosse descoberta tão cedo. Por meio das imagens, os pesquisadores perceberam que os ossos dos braços e pernas estavam curvados para além do limite natural do corpo – indicando que o indivíduo foi amarrado e “apertado” após a morte, como geralmente se faz no processo de mumificação. As amarras, é claro, já foram decompostas.

Fotografias das múmias encontradas.
Peyroteo Stjerna et al/European Journal of Archaeology/Divulgação

Além disso, os ossos e articulações permaneceram no lugar, outra evidência de que o corpo foi enterrado amarrado. Os ossos do pé, em particular, costumam se desprender no processo de decomposição, mas isso não ocorreu no esqueleto encontrado.

A última evidência de que o corpo foi mumificado artificialmente antes do enterro é que não há sinais de decomposição dos tecidos moles no solo. Isso significa que o corpo foi dissecado e os membros foram “encolhidos” pelas amarras após a morte do indivíduo. A foto abaixo mostra uma reconstrução da técnica.

Reprodução artística do corpo sendo mumificado ao longo do tempo.
Peyroteo Stjerna et al/European Journal of Archaeology/Divulgação

Apesar da descoberta recente, o posto de múmia mais antiga do mundo pode não durar muito tempo. Há indícios de mumificações de mais de 10 mil anos em Israel, e de 30 mil anos em Belarus. No entanto, esses casos ainda devem passar por estudo e análises.

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