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EUA não sabem o que fazer com 63 milhões de doses de hidroxicloroquina estocadas

Após a agência reguladora FDA voltar atrás na aprovação para o uso da droga contra a covid-19, Trump precisa lidar com um elefante branco de comprimidos inúteis.

Por Bruno Carbinatto - 19 jun 2020, 17h46

Após a Food and Drug Administration (FDA) revogar a autorização de uso emergencial de cloroquina e hidroxicloroquina para o tratamento de covid-19, mais de 66 milhões de doses desses medicamentos estão em estoque sob responsabilidade do governo federal americano. O destino de tantas caixinhas é incerto, segundo o jornal The New York Times.

A FDA – o órgão regulador americano equivalente à Anvisa no Brasil – havia emitido a aprovação emergencial dos medicamentos no meio de março, somente para o uso hospitalar em casos graves de covid-19. Na época, a cloroquina e a hidroxicloroquina já eram exaltadas pelo presidente americano Donald Trump como cura para infecção pelo novo coronavírus, mesmo que não houvesse nenhuma evidência científica.

A autorização fez o governo federal dos EUA correr para adquirir milhões de doses das substâncias e distribui-las para os 50 estados americanos. Na última segunda-feira, porém, a FDA revogou a autorização, alegando que, além de não haver comprovação de sua eficácia, uma série crescente de evidências mostra que seu uso pode ter efeitos colaterais. “Os benefícios conhecidos e potenciais da cloroquina e hidroxicloroquina não superam seu riscos conhecidos e potenciais”, explicou a agência.

A decisão não foi bem recebida pelo governo Trump, que vinha trabalhando para estocar cada vez mais os dois medicamentos, fosse por meio da compra, fosse por doações de empresas privadas de todo o mundo. Ao todo, desde a aprovação emergencial emitida em março, foram distribuídos 31 milhões de comprimidos de hidroxicloroquina para departamentos de saúde nos estados e cidades do país, institutos de pesquisa e hospitais privados. Outras 63 milhões de doses estão agora em estoque sob responsabilidade do governo federal, segundo disse Carol Danko, representante do Departamento de Saúde americano, ao The New York Times.

A cloroquina, por sua vez, não foi tão estocada – o governo decidiu apostar mais na hidroxicloroquina, por ser uma substância menos tóxica e com menos efeitos colaterais. Mesmo assim, a gestão Trump aceitou uma doação de 3 milhões de doses de cloroquina da fabricante farmacêutica Bayer. Felizmente, os comprimidos não chegaram a ser distribuídos, já que a versão do medicamento feita pela gigante alemã ainda não recebeu o selo de segurança da FDA.

Agora, o governo não sabe o que fazer com esse elefante literalmente branco – a cor dos milhões de comprimidos que aguardam alguém que realmente precise deles. Segundo Danko, os oficiais de saúde do país estão em contato com as empresas que doaram os medicamentos para “determinar as opções disponíveis” para o destino dos produtos.

A hidroxicloroquina e a cloroquina possuem aprovação para serem usadas contra a malária nos EUA, mas, segundo o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos, apenas cerca de 2 mil casos da doença são registrados no país por ano – ou seja: as vítimas da doença, transmitida por mosquitos, podem ficar tranquilas, porque há bem mais comprimidos do que a quantidade necessária para cada paciente.

A hidroxicloroquina também é utilizada no tratamento de doenças autoimunes como lúpus e artrite reumatoide, mas a demanda para estes casos já era suprida comfortavelmente antes da pandemia. Além disso, mesmo que as toneladas de comprimidos estocados fossem destinadas para usos como malária ou doenças autoimunes, especialistas afirmam que ainda seria preciso reavaliar a segurança dos lotes recebidos, já que o processo de fabricação e doação foi realizado de forma rápida – e, por causa disso, pouco rigorosa.

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Rick Bright, ex-diretor da BARDA, uma pasta do Departamento de Saúde americano responsável por pesquisas com medicamentos, sugeriu em seu Twitter que o governo americano jamais deveria ter estocado a droga, e que a única saída, agora, é destruir o carregamento. Bright se destacou como um dos maiores desafetos de Trump em sua equipe técnica e foi rebaixado de suas posições de liderança dentro do Departamento de Saúde após apontar a falta de segurança nas doses de cloroquina doadas pela Bayer.

Enquanto isso, no Brasil, os medicamentos continuam sendo recomendados para todos os casos de covid-19, incluindo os leves, segundo o mais recente protocolo publicado pelo Ministério da Saúde. A cloroquina é defendida fortemente pelo presidente Jair Bolsonaro e foi o principal motivo de cisão com o ex-ministro da Saúde Nelson Teich, que não concordava com o uso das drogas sem antes ter evidências de sua eficácia (que não existem: todos os estudos disponíveis até agora indicam que a cloroquina e a hidroxicloroquina são inúteis conta o novo coronavírus).

Há três semanas, antes da revogação da FDA, o governo americano doou dois milhões de doses de hidroxicloroquina ao Brasil “como demonstração da solidariedade” no combate à pandemia, segundo o Itamaraty.

Pouco após a retirada da aprovação de seu uso em território americano, a repórter Raquel Krähenbühl, correspondente da Rede Globo em Washington, perguntou ao presidente americano se ele pretende continuar com o envio dos medicamentos ao Brasil mesmo após o novo protocolo. Trump respondeu que sim. “Ele pediu e nós estamos enviando. Eu não posso reclamar, eu tomei por duas semanas e estou aqui”, se referendo ao período em que fez uso da droga como forma de prevenção à Covid-19, mesmo sem evidências de que isso funcione.

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