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Filhotes de gaivota vibram para se comunicar com seus irmãos – sem sair do ovo

Pássaros que eram alertados sobre a presença de predadores, ainda que não os ouvissem, nasceram mais atentos – e mais rápidos na hora de fugir.

Por Guilherme Eler - Atualizado em 26 jul 2019, 14h30 - Publicado em 21 jul 2019, 10h01

Gaivotas são bichos barulhentos por natureza. E o curioso é que elas não precisam sequer ter nascido para se fazerem entender. Antes mesmo de estrearem no mundo, seus filhotes possuem uma maneira própria de se comunicar com os irmãos, enquanto aguardam no ninho. Como? Vibrando a casca do ovo que os separa da vida lá fora.

A habilidade que papais e mamães pássaros têm de interagir com filhotes que ainda não eclodiram já havia sido estudada pela ciência – sabe-se que isso pode acontecer, também, com répteis, por exemplo. Mas uma nova pesquisa, desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Vigo, na Espanha, e publicada na revista Nature Ecology and Evolution, provou que a reação a estímulos do ambiente não existe apenas na presença dos mais velhos.

Cientistas observaram o comportamento em um experimento feito com 90 ovos de gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis). Eles foram coletados na região da Ilha de Sálvora, no norte da Espanha, e guardados em trios dentro de incubadoras artificiais.

Quatro vezes ao dia, dois ovos eram separados do grupo e levados para uma câmara especial. Eles ficavam lá durante uma hora e, de tempos em tempos, ouviam o canto que gaivotas usam para sinalizar a presença de predadores. Então, eles eram devolvidos ao ninho original. Isso aconteceu até que os filhotes estavam prestes a furar a casca do ovo.

Diante desse estímulo, os embriões não apenas entenderam o recado, como também reagiram à suposta ameaça, vibrando no interior do ovo. Além de balançarem, os filhotes que ouviram o som de predadores interpretaram o perigo e demoraram mais tempo para rachar, por exemplo.

Mas a mudança também refletiu no comportamento dos bebês após o nascimento. Os cientistas descobriram que os filhotes que ouviram o canto que avisava sobre predadores, quando nasceram, eram mais rápidos na hora de fugir. Ao se sentirem ameaçados, conseguiam correr e se esconder com desenvoltura maior que os pássaros do grupo controle – que cresceram sem ouvir barulho algum e não tiveram contato com irmãos que o fizeram.

Essa diferença apareceu, inclusive, a nível genético. Os pesquisadores identificaram altos níveis de corticosterona nas cobaias, hormônio relativo ao estresse. Ou seja: os bichos carregavam a característica de estarem sempre alertas em seu DNA.

O mais curioso, no entanto, é que tudo isso foi observado também no caso de embriões que estavam guardados no ninho e só sentiram a vibração dos irmãos – sem, portanto, ouvir o alerta de perigo diretamente. “Esses resultados sugerem que os embriões de gaivota conseguem adquirir informações importantes do ambiente a partir de seus irmãos”, escrevem os pesquisadores, no estudo. De acordo com o grupo, esse senso de perigo pode ter sido passado adiante por meio das vibrações, sentidas pelos ovos vizinhos.

Os cientistas argumentam que essa é uma forma de dizer aos irmãos que a barra está limpa: caso algum desavisado não tenha ouvido a notícia sobre o predador, ele recebe do irmão a informação de que é uma boa aguardar um pouco mais antes de sair do ovo. A explicação por esse instinto fraterno é evolutiva. Saber sobre os perigos da vida fora da casca pode aumentar o sucesso reprodutivo da família – e, por tabela, da espécie. Segundo o grupo, o próximo passo é entender se essa habilidade também vale para outras espécies de aves.

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