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Formigas paramédicas limpam ferimentos e aplicam antibiótico nas colegas

Formigas amputadas em ataques a cupins são carregadas para casa por suas companheiras. Graças aos primeiros socorros, sobrevivem em 90% dos casos.

Por Bruno Vaiano Atualizado em 14 fev 2018, 17h11 - Publicado em 14 fev 2018, 17h06

Seleção natural nem sempre é sinônimo de egoísmo – em determinadas situações, até o mais Dawkins dos biólogos admite que ser bacana com os outros é um bom jeito de passar seus próprios genes para frente. É o caso das formigas paramédicas africanas, estrelas de um artigo científico publicado hoje pela Royal Society.

Formigas da espécie Megaponera analis, comuns em toda a África, tem cerca de dois centímetros de comprimento. Elas se alimentam de cupins, mas conseguir o almoço não é fácil. Quem já viu um cupinzeiro na beira da estrada sabe que o negócio é um feito arquitetônico. Uma fortaleza impenetrável de terra e sujeira.

A solução é esperar os cupins saírem do “ninho”, e atacá-los quando eles estão se alimentando de matéria orgânica morta. Mais de 600 formigas participam da ofensiva. As mais parrudas abrem caminho no braço, as magrelas matam as vítimas. E nesse processo, é claro, há vítimas. Uma formiguinha mais lenta no gatilho pode ser pisoteada, ou ter uma ou duas pernas arrancadas a dentadas por um cupim pistola.

  • Ninguém fica para trás. Os feridos que não deram perda total (ou seja, perderam cinco patas ou mais) são carregados de volta para casa por socorristas. Eles limpam os ferimentos e talvez até apliquem antibióticos no local da amputação para facilitar a cura – é difícil saber sem uma análise bioquímica mais detalhada, que ainda não foi feita.

    “Nós não sabemos se as formigas só estão removendo a sujeira do ferimento ou aplicando uma substância que combate micróbios para evitar infecções”, afirmou ao The Guardian Erik Frank, biólogo da Universidade de Würzburg e um dos autores do estudo. “O que nós já sabemos é que as formigas feridas que não recebem tratamento morrem 24 horas após o ataque em 80% dos casos.” As tratadas, por outro lado, tem 90% de chance de sobreviver.

    As formigas feridas que querem ser resgatadas precisam fazer sua parte, liberando feromônios que informam sua posição. Essas substâncias só podem ser secretadas da forma adequada se a formiga ainda é capaz de parar em pé apesar dos ferimentos – é esse o mecanismo que seleciona, entre as amputadas, as que são um caso perdido e as que têm salvação.

    As formigas paramédicas são um exemplo impressionante de como comportamentos altruístas complexos podem emergir em insetos sociais com as pressões evolutivas corretas – mesmo que eles façam tudo no automático, sem a consciência de um herói de guerra. Veja o vídeo abaixo.

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