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Freeman Dyson

Um dos maiores físicos do século prevê que levaremos meio milênio para chegar às estrelas e, quando isso acontecer, o homem dará origem a outros seres - ETs do futuro

Flávio Dieguez

Durante mais de 30 anos, o físico e matemático inglês Freeman J. Dyson, do Instituto de Estudos Avançados, em Princeton, nos Estados Unidos, construiu uma reputação invejável: tão sólida dentro das universidades quanto fora delas. Atualmente com 77 anos, Dyson foi um dos criadores da Teoria das Partículas Subatômicas, na década de 40. Mas isso é pouco para descrever o seu talento – entre os cientistas ele é visto como uma espécie de Leonardo da Vinci moderno por dominar com igual facilidade a ciência do núcleo atômico, a do interior das estrelas e a do nascimento do universo, para não falar de tudo que sabe sobre a genética e a origem da vida.

Os milhões de leitores dos vários livros que escreveu vêem Dyson como um gênio da engenharia espacial, autor de projetos espetaculares que antecipam brilhantemente as possibilidades das viagens a outros planetas e outras estrelas. Como um dos principais consultores da Nasa, ele criou, por exemplo, o desenho básico da “Concha de Dyson”, uma cidade espacial com área habitável milhões de vezes maior que a de qualquer planeta, a ser montada com matéria-prima obtida lá em cima mesmo, nos diversos mundos do sistema solar. É dele também a previsão de que é possível reunir conhecimentos da física e da engenharia genética para projetar naves biônicas, robôs com partes mecânicas e partes vivas, que poderiam tornar os vôos espaciais mais simples e mais seguros. Ele imagina, especialmente, uma nave-borboleta que voaria até os planetas mais distantes na forma de um casulo blindado; depois, chegando ao destino, se metamorfosearia em um inseto alado capaz de pousar suavemente em qualquer superfície. Nesta entrevista, ele fala à Super sobre essas e muitas outras idéias mirabolantes.

 

Super – Você acredita que a exploração espacial pode ganhar novo impulso depois de um período de relativa estagnação – especialmente após a perda de diversas naves enviadas a Marte nos últimos dois anos?

Não creio que houve uma estagnação, nem que esteja havendo um novo impulso agora. O avanço da exploração espacial tem sido muito persistente nas últimas duas décadas, como se vê pelo nível constante dos gastos governamentais nesse campo.

 

Mas hoje há inúmeras empresas dispostas a investir na colonização de outros planetas, o que não acontecia anteriormente…

O espaço só é lucrativo quando não há passageiros humanos envolvidos. A necessidade de garantir a segurança da tripulação encarece muito os projetos.

 

Até que ponto a Estação Espacial Internacional, inaugurada em setembro de 2000, pode contribuir para a exploração do espaço?

Na minha opinião, ela só traz benefício para as indústrias aeroespaciais russa e americana. Sua única vantagem é impedir que os engenheiros e cientistas russos passem fome por falta de trabalho e salário. Nenhuma das três categorias de clientes que, por hipótese, a utilizariam – empresas, pesquisadores e militares – mostra interesse em sua construção.

 

Você acha que já poderíamos estar vivendo regularmente no espaço? Estamos atrasados em relação ao que poderia ter sido feito?

Estamos avançando tão depressa quanto possível. Só faz sentido ir para o espaço a um custo aceitável. Ainda vai demorar 100 anos para as viagens aos planetas se tornarem rotina. Para chegar às estrelas levaremos, no mínimo, 500 anos.

 

Você tem um cálculo sobre o preço ideal para a colonização dos planetas…

Eu avaliei a viagem dos primeiros emigrantes europeus para os Estados Unidos e concluí que um custo razoável da colonização de outros planetas seria da ordem de 40 000 dólares per capita. Isso seria comparável ao custo da colonização da América. Qualquer coisa acima disso – e o custo hoje aponta para um número pelo menos mil vezes maior – me parece um luxo inaceitável.

 

Que tipo de tecnologia será empregada nos próximos anos?

Há boas sugestões, como as naves a vela, que seriam impulsionadas pelo “sopro” de gás emitido pelo Sol. Outro avanço virá dos motores de plasma, ou seja, um gás eletrificado, acelerado por eletroímãs e ejetado a altíssima velocidade pelas turbinas. Isso daria aos foguetes uma velocidade muito alta, encurtando o tempo de vôo e o preço da viagem. Essas novidades apontam caminhos possíveis, embora ainda sejam insuficientes para resolver completamente o problema dos custos.

 

A que se pode atribuir as perdas sofridas pela Nasa em relação a Marte?

Eles se devem justamente ao desejo de correr riscos. Em 1999, o Laboratório de JatoPropulsão (JPL), ligado à Nasa, lançou seis missões em seis meses, um ritmo puxado para esse tipo de empreendimento. A perda de duas dessas naves, como aconteceu, é uma proporção de erro que se deveria esperar dentro de um programa bem conduzido. Espero que os políticos não proíbam o JPL de correr riscos semelhantes daqui para a frente.

 

Por que quase não se fala em viagens a Vênus, que é um planeta tão próximo da Terra quanto Marte?

A missão Magalhães, enviada a Vênus nos anos 80, foi um tremendo sucesso. Tanto que hoje conhecemos a geografia venusiana melhor do que a geografia dos oceanos terrestres. Mas é mais excitante explorar lugares como Europa (satélite de Júpiter) e Titan (satélite de Saturno). Primeiro, porque sabemos muito pouco sobre eles. Depois, porque é possível que exista vida por lá, enquanto que, em Vênus, a possibilidade de vida é nula.

 

Durante anos você pregou a necessidade de uma redução no tamanho das naves espaciais como forma de barateá-las (o que hoje é uma norma da Nasa). A sua nave-borboleta, com partes mecânicas e partes vivas, seria um exemplo dessa linha de trabalho?

Sim. Só que ela ainda é uma tecnologia distante de nós. É um projeto para quando soubermos muito mais biologia do que sabemos atualmente. O Projeto Genoma, com certeza, ajudará. Mas a regra é sempre a mesma: primeiro, temos que desenvolver a ciência, depois a engenharia. Para a borboleta espacial voar, passaremos meio século fazendo pesquisa básica e outro tanto trabalhando na engenharia do projeto.

 

Você diz que o universo foi construído para que o homem surgisse nele. Trata-se de uma idéia religiosa?

Sou moderadamente religioso. Mas o que essa frase quer dizer é que a vida e a mente parecem ter sido construídas dentro da estrutura do universo. Não foram acidentes; são inerentes à maneira como o universo evoluiu.

 

Outra afirmação sua intrigante é que, se o homem for para o espaço, deixará de ser o que é…

Quero dizer que a imensa maioria das espécies desaparece. A minoria que deixa descendentes geralmente se divide em diversas outras espécies. Então, o homem partilha dessa mesma possibilidade: ou caminha para a extinção ou evolui para gerar outros seres. Se nos espalharmos pelo universo, ocupando novos hábitats entre as estrelas, há uma boa chance de nos dividirmos em muitas outras espécies. Esse é um dos principais motivos que me levam a desejar a disseminação da humanidade pelo espaço.

 

fdieguez@abril.com.br

Frase

A vida e a mente foram construídas dentro da estrutura do universo. Não surgiram por acaso; são inerentes à maneira como o universo evoluiu