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Guerras são principal ameaça à fauna na África

Análise de mais de 500 documentos revela que os conflitos armados são a maior ameaça à biodiversidade africana

Por Bruno Vaiano 15 jan 2018, 19h57

Caça ilegal, ocupação de áreas de preservação ambiental, secas e corrupção são todos problemas que os grandes mamíferos da África precisam encarar na luta contra a extinção. Mas um fator de risco que normalmente não é levado em consideração – e que é bem mais difícil de combater – pode ser a maior ameaça aos elefantes e hipopótamos do continente: a guerra.

Dois especialistas em ecologia da Universidade de Princeton, nos EUA, analisaram mais de 500 documentos de várias origens – como artigos científicos, atas governamentais e relatórios de ONGs – em busca de estatísticas sobre a preservação de animais selvagens africanos de 1946 até hoje. Ao colocar essas informações em um gráfico, lado a lado com a evolução histórica dos conflitos armados no continente, perceberam que as duas curvas se entrelaçam: toda vez que o clima político esquenta, a fauna é afetada na mesma proporção. Os resultados foram publicados na Nature.

Entraram na conta 253 populações de 36 espécies de herbívoros, que habitam 126 áreas de preservação diferentes. A queda no tamanho das populações durante a guerra foi verificada até em regiões que foram atingidas com uma frequência relativamente baixa – um conflito a cada duas décadas, ou apenas um ao longo de cinco décadas. Disputas militares são a variável que, sozinha, melhor prevê a morte de animais – dados como corrupção ou habitação irregular em áreas protegidas não são tão precisos para isso.

Embora a primeira imagem que venha à mente seja a de animais presos no fogo cruzado, isso quase nunca acontece. A guerra afeta a fauna de maneiras indiretas: mamíferos de grande porte são uma boa fonte de alimento para soldados, e itens como chifres de rinoceronte podem ser vendidos no mercado negro para financiar a atuação de milícias – uma história que a SUPER contou no ano passado. Além disso, o número de armas disponíveis no mercado negro aumenta, e elas se tornam mais acessíveis a caçadores.

Até então, pesquisadores não descartavam a possibilidade de que as guerras, por obrigarem seres humanos a desocuparem determinados lugares, criassem ilhas de preservação ambiental em que a fauna poderia prosperar em relativa paz. Segundo o New York Times, a zona de fronteira entre as duas Coreias – uma faixa de segurança de 250 quilômetros que só pode ser acessada por militares – se tornou um parque exuberante, em que espécies raras vivem em paz.  

O estudo não traz apenas notícias ruins. Embora guerras estejam sempre associadas à diminuição no número de animais, ela raramente os leva à extinção. Costumam sobreviver pequenos grupos, que escapam das ameaças e servem de base para reconstruir a população quando chega a trégua. Segundo os pesquisadores, a intervenção rápida de grupos preservacionistas após o fim do conflito pode tornar a situação ainda melhor do que era antes. Um bom exemplo é o de Moçambique: após 15 anos de guerra civil (entre 1977 e 1992), o número de elefantes no principal parque nacional do país caiu de 2 mil para 200. Esforços posteriores de educação da população e combate à caça conseguiram elevar o número para 500, e a situação só tende a melhorar.  

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