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Guia Einstein de viagens no tempo

Einstein provou que dá parta construir uma máquina do tempo que vá até o futuro. O problema é voltar: a ideia de viajar ao passado continua desafiando a ciência.

 

Uma vez que a física estabelece que o tempo não é fixo, estático e imutável, como todo mundo pensava até Einstein mudar as regras, passamos ao status de viajantes do tempo.

Sim, viajar pelo tempo é possível e é exatamente isso que estamos fazendo agora. Como a passagem do tempo para nós depende de nossas circunstâncias gravitacionais (ou seja, da curvatura do espaço-tempo, ditada principalmente pelo Sol nessas redondezas), nada impede que estejamos rapidamente acelerando rumo ao futuro, se comparados a uma civilização que tenha decidido se realocar nas redondezas de um buraco negro. Cada região do espaço – e nós com ela – tem seu próprio relógio.

A teoria da relatividade restrita vai ainda mais longe e sugere como podemos saltar para o futuro, sem violar nada (exceto, talvez um limite de velocidade conservador imposto pela polícia rodoviária interestelar). Para visitar o ano de 2030, por exemplo, basta fazer uma viagenzinha de alguns minutos a uma velocidade próxima à da luz. Pronto, estamos lá.

Claro, atingir essa velocidade é muito complicado, porque a relatividade também sugere que sua massa aumenta se você vai muito rápido, e seria preciso muita energia para impulsionar uma pessoa a algo que se aproxime da velocidade da luz. No momento, os viajantes do tempo mais intrépidos que temos são os astronautas. Quando eles passam seis meses na Estação Espacial Internacional, voando a 28 mil km/h, avançam gloriosos 0,007 segundo no futuro.

Então, visitar o amanhã é mais que uma possibilidade – já acontece. O complicado é voltar.

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A relatividade restrita estabelece que a velocidade máxima permitida nouniverso é a da luz, 300 mil km/s. Quando esse marco é atingido por um observador, o tempo literalmente para. Se quisermos mudar de direção e voltar no tempo, em tese, precisamos viajar mais depressa que a luz. Não pode.

Mas há uma forma de voltar ao passado, e ela emerge da relatividade geral. Entram em cena os buracos de minhoca. Eles são aparentados dos buracos negros, com uma diferença. Em vez de produzir um furo no espaço-tempo que vai desembocar fora do Universo, esse furo acaba saindo em outro ponto do mesmo Universo, criando efetivamente um túnel atravessável. Ele pode levá-lo não só para outro lugar do espaço, mas também para outro ponto do tempo – inclusive no passado.

“A ideia é que você entra por uma boca do buraco de minhoca e sai pela outra em um lugar diferente e em um tempo diferente”, explica Stephen Hawking, físico britânico que não se entusiasma muito com a possibilidade de viagens no tempo com direção ao passado.

O problema básico é que, se você pode retornar ao passado, pode, por exemplo, matar o seu avô antes que ele conhecesse a sua avó. Esse evento, por sua vez, o impediria de existir, o que inviabilizaria sua viagem no tempo em primeiro lugar, e você não mataria seu avô. Mesmo desconsiderando por um momento a desumanidade que seria matar o seu próprio avô, admitamos que há um problema aí. Um paradoxo que viola as relações de causa e efeito – em essência, o que dá sentido ao Universo.

Por isso, apesar de a teoria permitir a existência de coisas como buracos de minhoca, Hawking acredita que algo na natureza impediria sua formação. Ele é defensor de uma “conjectura de proteção cronológica” – a ideia de que as leis da física, de algum modo ainda não compreendido, impediriam qualquer possibilidade de viagem para o passado.

Se ele tem razão ou não, ninguém sabe. Mas é fato que, se temos hoje viajantes do tempo vindos do futuro visitando seus avós com más intenções, eles são bem discretos.

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O tema de viagens no tempo é um em que a vida imitou a arte. Antes que Einstein elaborasse o arcabouço teórico que permitiria as jornadas temporais, H.G. Wells já descrevia, em seu clássico romance A Máquina do Tempo, como passado e futuro eram apenas parte de uma dimensão adicional, num espaço-tempo quadridimensional. O livro foi publicado em 1895, dez anos antes da teoria da relatividade especial. Teria Wells viajado no tempo para se antecipar à ciência?