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Há uma associação genética entre ser mais inteligente e usar óculos

O estereótipo do nerd, no fim das contas, tem uma pontinha de verdade

Sabe aquela história de que gente inteligente usa óculos? Pois é: calhou de ser verdade. Uma colaboração internacional com centenas de pesquisadores analisou o DNA de 300 mil indivíduos em busca de genes que influenciassem, de alguma maneira, o desempenho cognitivo. Foram encontrados 148 – alguns dos quais, curiosamente, aumentam em 28% as chances do portador ter problemas de visão. As descobertas foram relatadas em um artigo científico publicado ontem (29) na Nature.

Antes, algumas ressalvas. A primeira: “desempenho cognitivo” é um termo bem genérico, que engloba uma porção de atributos do cérebro, como atenção, velocidade de processamento, aprendizado, memória (tanto de armazenamento quanto de trabalho), fluência verbal e por aí vai. Não é errado chamar essa coleção de atributos de “inteligência”, mas é importante entender que esse é um sentido de inteligência mais amplo que o raciocínio lógico bruto medido pelos testes de QI. Um músico profissional, por exemplo, pode ter uma capacidade de concentração e uma memória de trabalho invejáveis – necessários para ler uma partitura em tempo real – mesmo que ele não tenha ido bem em matemática no Ensino Médio.

A segunda: a massa cinzenta humana é o computador mais complicado da natureza – o que significa que sua construção e operação demandam o trabalho coordenado de um pedaço enorme do seu DNA. Notícias de jornal do tipo “foi encontrado o gene para alguma coisa” às vezes dão a impressão de que o material genético é uma biblioteca perfeitamente organizada, em que há uma prateleira para coisas que causam câncer, uma para montar o fígado, uma para a inteligência, uma para a vontade de viajar e por aí vai. Essa é uma simplificação. O que um gene faz, na verdade, é produzir uma proteína. Essa proteína é o gatilho de uma longa cadeia de reações bioquímicas que é muito difícil de decifrar. É possível associar um gene a uma determinada consequência de sua atividade, mas isso não quer dizer que esse gene “sirva” para isso.

Terceiro: “gene”, na verdade, é o termo errado. Estamos falando de algo com nome mais cabeludo: locus genético. Entenda assim: no seu DNA, há uma espécie de encaixe em que entra, por exemplo, o gene para cor dos olhos. Nesse encaixe dá para pôr tanto um gene para olhos azuis quanto um gene para olhos castanhos. O que o novo estudo descobriu foram 148 encaixes para genes que afetam, de alguma maneira, a inteligência. Conforme o gene que você encaixa em cada um deles, a pessoa resultante pode ficar mais ou menos inteligente.

O que acontece é que, quando você opta por encaixar um ou outro gene em alguns desses espaços, além de afetar o cérebro, eles também afetam outras partes do corpo – como os olhos. Vale notar que miopia, astigmatismo e afins, apesar de terem ido parar nas manchetes, não foram os únicos traços congênitos associados de alguma forma à inteligência. Os pesquisadores também encontram coincidências entre a capacidade cognitiva dos indivíduos e a chance deles terem hipertensão (baixa) ou viverem mais tempo (alta).

Essas relações são meramente estatísticas. São tendências, não regras. Seja como for, dão uma pontinha de razão para o senso comum: CDFs realmente tendem a usar óculos. Só não é porque eles “forçam mais a vista”, que fique bem claro para as vovós de plantão.