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Humanos podem ter hibernado para sobreviver a invernos rigorosos, diz estudo

Ossos de neandertais encontrados em caverna na Espanha apresentam sinais de lesão semelhantes aos vistos em animais que hibernam.

Por Carolina Fioratti 23 dez 2020, 15h40

Hamsters, esquilos, morcegos e alguns outros animais aproveitam o inverno para tirar um longo cochilo. Eles reduzem a temperatura de seus corpos, diminuem a frequência respiratória e deixam seus batimentos cardíacos lentos, parecendo até mesmo que estão mortos. A cena mórbida reflete o estado de hibernação – quando os animais “desligam” para poupar energia, já que o frio intenso vem acompanhado da escassez de alimentos. 

A hibernação só ocorre em alguns animais homeotérmicos, ou seja, que possuem temperatura corporal constante. Os humanos se encaixam nessa classificação, mas não são capazes de hibernar. Porém, ossos encontrados em uma caverna na Espanha sugerem que, no passado, antigos hominídeos podem ter hibernado para lidar com invernos rigorosos. É o que afirma um estudo publicado na revista L’Anthropologie.

Os fósseis foram encontrados na Sima de los Huesos (Cova dos Ossos, em português), uma caverna no município de Atapuerca, no norte da Espanha. O local é considerado um dos sítios arqueológicos mais importantes do mundo. Nele, pesquisadores já encontraram milhares de dentes e pedaços de ossos com mais de 400 mil anos, remetendo, provavelmente, aos primeiros neandertais ou a seus antecessores. 

  • A partir de análises com microscópio e tomografias computadorizadas, cientistas da Universidade Demócrito da Trácia, na Grécia, notaram que alguns desses ossos traziam padrões de lesão e outros danos semelhantes aos encontrados em animais que hibernam. Essas marcas estão associadas a doenças causadas pela carência de vitamina D, como a osteodistrofia renal e o raquitismo. A vitamina D é sintetizada na pele após a exposição solar, mas esses humanos antigos pareciam ficar em ambientes escuros hibernando por longos períodos de tempo. As doenças, combinadas com a queda da atividade metabólica dos hominídeos, geravam interrupções sazonais no crescimento ósseo, que foram descritas na pesquisa. 

    Os próprios autores do estudo chegaram a pensar em contra-argumentos para a tese, questionando o fato dos povos Lapão e Inuíte, que vivem hoje em regiões de frio extremo, não hibernarem. Acontece que os Lapões e Inuítes têm acesso a peixes e renas no inverno, não faltando comida para eles. Os cientistas acreditam que, no passado, não havia nas redondezas da caverna espanhola fontes de alimento capazes de oferecer gordura o suficiente para sustentar os humanos no inverno. 

    Os pesquisadores explicaram ao jornal The Guardian que a hibernação em humanos “pode soar como ficção científica”, mas reforçam que muitos mamíferos fazem isso, inclusive primatas, como os lêmures. Por outro lado, alguns cientistas seguem céticos quanto à descoberta e reforçam que são necessárias mais evidências para comprová-la. 

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