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Lobotomia: a barbaridade que rendeu um Nobel

Cortar as conexões entre os lobos frontais e o resto do cérebro para curar doenças mentais. É absurdo — mas já foi aceito pela ciência.

Por Salvador Nogueira - Atualizado em 12 jun 2020, 11h30 - Publicado em 4 jun 2020, 11h29
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A psicologia não se encarrega apenas de investigar o funcionamento normal da mente. Ela também se preocupa em compreender estados anormais. E é importante lembrar que a era dos medicamentos psiquiátricos é bem recente. Na primeira metade do século 20, não havia remédio capaz de produzir mudanças controladas na dinâmica cerebral. Diante dessa impotência, não chega a surpreender que neurologistas e psiquiatras tenham se deixado seduzir por terapias radicais para tentar aliviar sintomas de problemas como esquizofrenia, depressão clínica, síndrome do pânico e outros problemas que afetam o bom funcionamento mental.

Entre elas, destacam-se algumas que hoje soam completamente absurdas, como injeção de altas doses de insulina, a indução de febre alta por meio de infecção por malária diretamente no cérebro e terapia eletroconvulsiva, em que o paciente era eletrocutado até entrar em convulsão. Mas talvez nenhuma delas tenha se tornado tão perigosa – já que tão corriqueira – quanto a lobotomia.

A ideia de que lesões no cérebro poderiam alterar o estado psicológico e psiquiátrico de uma pessoa nem seria despropositada. O difícil era saber quais lesões produzir e como fazê-las com segurança, tendo a certeza de que não destruiriam a mente da pessoa no processo. Mais uma vez, entra em cena a confiança que alguns cientistas demonstram em suas teorias. O neurologista português António Egas Moniz era um desses. Ele se apoiava em visões simplistas do funcionamento cerebral, que sugeriam que ideias obsessivas existiam por conta de circuitos neuronais fixos e destrutivos que se instalaram no cérebro. Para curar os pacientes com esses males, raciocinou, bastava destruir esses arranjos mais ou menos fixos de conexões celulares, “particularmente os que estão relacionados aos lobos frontais”.

Solução? Uma cirurgia cerebral – ou “psicocirurgia”, como cunhou o próprio Moniz – para interromper esses circuitos, cortando as ligações entre a porção frontal do cérebro e o resto do órgão. Em 1935, o neurologista português decidiu testar essa teoria em pacientes com doenças mentais do Hospital Mental Miguel Bombarda, em Lisboa. As primeiras lobotomias foram realizadas sob a supervisão de Moniz, mas não por suas mãos. Vitimado por gota, ele não tinha precisão manual suficiente, e por isso deixou a tarefa, feita sob anestesia geral, para José de Matos Sobral Cid.

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António Egas Moniz, o neurologista português que ganhou um equivocado Nobel após destruir cérebros de pacientes. Photo 12/Getty Images

No procedimento original, fazia-se um furo na lateral do crânio e então se injetava etanol para destruir as fibras que conectavam o lobo frontal ao resto do cérebro. A primeira paciente a se submeter ao procedimento tinha o diagnóstico de depressão, e Moniz rapidamente a declarou “curada” após avaliar uma redução de seus sintomas originais – embora ela jamais tenha deixado o hospital psiquiátrico. No total, oito pacientes foram operados por esse método, mas a injeção de etanol não estava se mostrando eficaz para cortar as ligações cerebrais.

Então, para realizar a tarefa com mais eficácia, Moniz e Lima introduziram um instrumento cirúrgico projetado para realizar os cortes no cérebro: o leucotomo. Tipicamente, ele era usado para produzir seis lesões em cada um dos lobos frontais. Em março de 1936, os cientistas estavam prontos para apresentar seus resultados colhidos da primeira leva de 20 operações. Nove dos pacientes sofriam de depressão, seis de esquizofrenia, dois de síndrome do pânico e três respectivamente eram vitimados por mania, catatonia e depressão maníaca. Os casos mais recentes tinham diagnóstico feito apenas quatro semanas antes da cirurgia. Mas havia casos em que a doença já se manifestava havia 22 anos.

Os pacientes apresentaram efeitos colaterais como febre, vômitos, incontinência urinária, diarreia e perda de controle dos olhos, além de mudanças psicológicas como apatia, letargia, desorientação, cleptomania e sensação anormal de fome. Nada muito relevante, segundo o entusiástico Moniz. De acordo com seu levantamento, sete dos casos, ou 35%, tiveram melhora significativa. Outros 35% tiveram alguma melhora, e os 30% remanescentes permaneceram sem mudança. Não houve mortes e ele não viu nenhum paciente piorar de sua condição psiquiátrica após a lobotomia.

Quanto aos sintomas negativos, Moniz dizia que todos seriam transitórios e o paciente se recuperaria assim que seu cérebro se adaptasse, formando conexões alternativas. Num mundo em que não havia recurso contra doença mental, e os resultados eram apresentados sob essa luz positiva, não é difícil imaginar por que a lobotomia logo se tornou uma febre, popularizando-se na Europa e na América, inclusive no Brasil. Claro, sempre houve seus detratores, mas eles não tinham nada muito melhor a oferecer.

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Cirurgião abrindo o crânio de um paciente para realizar lobotomia, num hospital britânico, em 1946. Kurt Hutton/Getty Images

Nos Estados Unidos, o neuropsiquiatra Walter Freeman e seu colega neurocirurgião James Watts abraçaram fervorosamente a inovação ainda em 1936, e mais tarde desenvolveram uma técnica para torná-la mais facilmente praticável, uma década depois. Passou-se a usar a órbita dos olhos para um acesso mais fácil aos lobos frontais, permitindo que o procedimento fosse realizado diretamente em hospitais psiquiátricos, sem a necessidade de instalações cirúrgicas. Para que se tenha uma ideia dos métodos de trabalho, Freeman sugeria que, nos casos em que anestesia convencional não estivesse disponível, o paciente podia ser levado à inconsciência por terapia eletroconvulsiva.

Com o desenvolvimento da técnica, o número de lobotomias saltou de centenas por ano para milhares. Em 1949, só nos EUA, 5.074 procedimentos foram realizados. No total, estima-se que cerca de 40 mil lobotomias tenham sido feitas em solo americano. No Reino Unido, foram mais de 17 mil. E nos países nórdicos, um número assombroso a julgar pelo tamanho das populações: 9.300 lobotomias. No Brasil, foram mais de mil, até vir a proibição, em 1956. O resultado dessas cirurgias às cegas, operando sob falsas hipóteses, era a destruição da mente das pessoas, numa tentativa leviana de aliviar seus sintomas psiquiátricos.

Era o que o médico britânico Maurice Partridge chamou de “reduzir a complexidade da vida psíquica”. Freeman, o “herói” da lobotomia americana, falava em “infância cirurgicamente induzida”. Em muitos casos, era quase como transformar pessoas em zumbis. E mesmo assim essas operações continuaram a ser realizadas até que aparecessem medicamentos antipsicóticos eficazes, em meados da década de 1950. Os antidepressivos merecem lá algumas críticas. Mas, perto da lobotomia, não há comparação.

Ainda assim, António Egas Moniz recebeu o Prêmio Nobel em Fisiologia ou Medicina de 1949, pela “descoberta do valor terapêutico da leucotomia [nome original dado à lobotomia] em certas psicoses”. Recentemente, houve pressão sobre a Academia Real de Ciências da Suécia para que a premiação fosse cassada, mas por ora a organização ainda defende sua escolha, feita sete décadas atrás.

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