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Luz: a nova vilã

Menos grave que o caso das tartarugas, mas também preocupante é a situação de insetos, sobretudo mariposas.

Paulo D¿Amaro

Em junho, a República Checa proibiu toda iluminação externa que não for realmente necessária. Os checos deram um passo à frente num assunto que está começando a freqüentar as conversas dos ambientalistas: a poluição luminosa. Relegada a segundo plano durante décadas, só agora ela parece atrair a atenção de cientistas. Há poucas pesquisas a respeito, mas todas revelam efeitos nefastos do excesso de luz. “Os luminosos de hotéis e outros estabelecimentos nas praias têm causado a morte de muitos filhotes de tartarugas do mar”, disse à revista americana Science News o biólogo Michael Salmon, da Universidade Atlântica da Flórida. Segundo ele, com a luminosidade as tartarugas recém-nascidas se confundem e passam a caminhar sem rumo, em vez de ir para o oceano. Com isso, muitas amanhecem na areia e morrem torradas pelo sol, devoradas por predadores ou atropeladas nas estradas do Estado.

Menos grave que o caso das tartarugas, mas também preocupante é a situação de insetos, sobretudo mariposas. O avanço das áreas urbanas quase sempre significa seu desaparecimento. Segundo o pesquisador americano Kenneth Frank, da Universidade de Nebraska, a tão comum revoada em torno das lâmpadas é um fenômeno nada natural, que acaba matando parte delas pelo contato com os bulbos e parte pelo ataque de predadores. Estudos mostram que, enquanto circulam em torno da luz, as mariposas perdem sua habilidade de detectar a presença de morcegos e outros inimigos. Assim, tornam-se presas fáceis.

Mas, talvez, os fenômenos mais impressionantes sejam os que envolvem sapos e aves. Cientistas do Utica College, em Nova York, descobriram que alguns sapos ficam paralisados durante horas depois de atingidos por fachos de luz. “Eles suspendem a alimentação e a reprodução, mesmo depois que a luz se foi”, diz a pesquisadora Sharon Wise. No caso das aves, uma experiência realizada pela Universidade de Clemson, na Carolina do Sul, sugeriu que algumas espécies perdem o senso de orientação em vôos noturnos quando há luzes avermelhadas à vista – como em antenas de TV. Um forte indício disso está num levantamento feito por um grupo ambientalista usando o Newell·s shearwater – ave marinha prima do feiticeiro-do-mar, comum na costa brasileira. Nada menos que 10% da população morre em colisões com torres, antenas e prédios no Havaí. Pense nisso antes de acender a luz do quintal.