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Meteorito pode abrigar primeira proteína extraterrestre

As moléculas de proteína são os tijolos que formam as coisas vivas. O que uma delas estaria fazendo no espaço?

Por Carolina Fioratti - 2 mar 2020, 20h32

A origem da vida, e a eventual existência dela fora da Terra, seguem como um mistério. Mas talvez tenhamos uma nova pista agora na busca pela solução. Pesquisadores de Harvard podem ter detectado proteína em um meteorito encontrado na Argélia 30 anos atrás. 

Mas o que isso significa? As proteínas são moléculas bem grandes, formadas por cadeias de aminoácidos. Elas estão presentes em todos os seres vivos e participam ativamente de algumas funções celulares, como no transporte de oxigênio e na aceleração de processos químicos no corpo. As proteínas estão intimamente ligada com o conceito de vida. 

A proteína encontrada no meteorito Acfer 086 foi batizada de Hemolithin. Ela tem estrutura semelhante às proteínas terrestres, mas a proporção de deutério (também chamado de água pesada) em relação ao hidrogênio na molécula não se compara a nenhum outro composto existente em nosso planeta. 

Apesar de essa ser a primeira molécula de proteína de origem extraterrestre, não é o primeiro elemento ligado à vida que já encontraram em meteoritos. Também já encontraram aminoácidos isolados em diversos meteoritos. Inclusive neste de agora. Em 2017, os mesmos cientistas identificaram glicina (um aminoácido) no meteorito argelino. Mas acharam que a molécula estava isolada.

Agora, usaram técnicas de última geração para avaliar o material, e viram que não era bem isso. Detectaram mais moléculas de glicina nessa segunda análise. Além disso, veio com uma surpresa extra: as moléculas estavam ligadas a ferro e lítio, um indício de que, juntos, esses aminoácidos estavam formando uma proteína.

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A pesquisa ainda está em uma fase considerada inicial no meio científico, e como qualquer tese, deve passar pela revisão por pares – processo em que outros especialistas avaliam o trabalho e sugerem revisões, se for o caso. Os outros profissionais apenas auxiliam, enquanto os cientistas responsáveis seguem com o estudo. Existe a chance de eles terem encontrado não uma proteína, mas só uma maçaroca de átomos que pareça uma proteína. Isso é o que devem confirmar nos próximos passos. Além disso, outros cientistas podem utilizar a tecnologia aplicada para estudar meteoritos que tenham indícios de aminoácidos em sua composição.

Chenoa Trembley, pesquisadora australiana que não participou do estudo, explicou a Science Alert que “a proteína é produzida mais facilmente no espaço por causa da gravidade reduzida”, o que torna a existência delas bem provável no local. A ideia pode ser comprovada a partir de estudos da Estação Espacial Internacional. Começar a encontrar evidências da existência de proteínas foi caracterizado como “emocionante” para a cientista.

Se tiverem mesmo encontrado uma molécula cósmica de proteína, a ideia parecerá excitante para os partidários da Panspermia. Essa teoria sugere que há vida por todos os cantos do Cosmos, e que ela é distribuída meteoritos, asteroides, cometas… Tipo: um asteroide bate num planeta, ele solta rochas cheias de microorganismos para o espaço e eles acabam colonizando outros mundos. Eventuais bactérias vindas de Marte, por exemplo, talvez sobrevivessem a uma viagem até aqui.

Não faz sentido acreditar que as primeiras formas de vida da Terra vieram prontas do espaço. Simplesmente porque isso só joga o problema adiante. A vida não surgiu na Terra? Ok. Mas surgiu aonde? E como? A hipótese mais simples é que a primeira coisa viva do planeta tenha nascido aqui mesmo, já que a água líquida e o calor do Sol são fundamentais para aquilo que a gente conhece como vida.

Já quanto aos “tijolos” que formam as coisas vivas a história é outra. Se a pesquisa de Harvard estiver correta, é possível que partes fundamentais dos nossos corpos tenham, sim, uma história interestelar para contar.

 

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