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Não faça as malas: Trappist-1 pode não ser tão habitável assim

Primeiros estudos sobre a atmosfera das três Novas Terras não são animadores. Mas calma: ainda há esperança de encontrarmos vida por lá

Por Ana Carolina Leonardi - Atualizado em 14 mar 2017, 15h18 - Publicado em 13 mar 2017, 14h34

A principal notícia da astronomia do mês passado foi o anúncio da Nasa de que encontramos um novo Sistema Solar, com sete planetas. Três deles estavam até na Zona Habitável, região em que a temperatura permitiria a existência de água líquida na superfície.

Maravilha: a Nasa até se empolgou e divulgou pôsteres “turísticos” para quem sonha em passear por uma das três candidatas à Nova Terra. Mas aí veio o lembrete de que a ciência caminha em passos pequenos.

Ainda não conseguimos examinar a atmosfera desses planetas, mas as pistas que temos vêm dos estudos sobre a radiação emitida por Trappist-1, a estrela que dá nome ao sistema a 39 anos-luz do nosso.

Este Outro Sol é uma anã ultrafria, bem menor que o nosso astro – até por isso, os planetas podem ficar mais perto dela sem esquentar demais. Porém, como toda estrela, ela emite muita radiação. E essa radiação vai agredindo a atmosfera dos planetas. Aqui no Sistema Solar, foi isso que aconteceu com Marte. Os ventos solares “furaram o pneu” da atmosfera marciana, varrendo os gases para longe.

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Mas o que isso tem a ver com a possibilidade de vida? Primeiro, porque precisamos de uma concentração de gases estufa ao redor de um planeta para que ele tenha temperatura estável. Segundo, porque é muito difícil existir água líquida sem pressão atmosférica. Em Marte, por exemplo, a água evapora a meros 10ºC.

O que os estudos publicados calcularam é que a radiação de Trappist-1 pode fazer os planetas perderem água equivalente a 15 oceanos terrestres. Os dois planetas mais próximos da estrela teriam sua atmosfera aniquilada de 1 a 3 bilhões de anos. Os outros levariam um pouco mais de tempo: entre 5 e 22 bilhões de anos.

Se a radiação da estrela já acabou com a atmosfera, de nada adianta os planetas estarem na Zona Habitável nem serem rochosos como a Terra. O que não sabemos é se esses bilhões de anos já se passaram, antes mesmo de encontrarmos o Sistema, ou se ainda estão por vir.

Há motivos para ter esperança, porque existem indícios de que a destruição da atmosfera ainda não chegou na metade. Isso porque o Sol de lá parece ser bem mais jovem do que a gente imaginava.

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Cientistas compararam dois tipos de radiação emitidos por Trappist-1: raios-x e um tipo de luz ultravioleta chamada radiação Lyman-alpha. Eles compararam a quantidade de radiação à emitida por Proxima Centauri, uma estrela bem mais próxima da Terra, que tem 4,65 bilhões de anos de idade – e perceberam que a Trappist emitia só metade de ultravioleta, por ser uma estrela bem mais fria. Por outro lado, emitia quase a mesma quantidade de raios-x.

Quanto mais velha é uma estrela, menos dessas radiações ela emite, mas a munição de raios-x acaba bem mais rápido. Baseados nessa informação, os pesquisadores fizeram uma estimativa da idade da estrela de Trappist-1, que ficou por volta de 500 milhões de anos.

O cálculo ainda não pode ser considerado preciso, por conta da pouca informação que temos sobre o sistema. Mas se estiver correto, significa que boa parte da atmosfera dos planetas ainda resiste, firme e forte à radiação, e tem mais de meio bilhão de anos pela frente. Nesse período, dá para existir água líquida e, quem sabe, vida. Os planetas de Trappist-1 continuam na corrida pelo título de Nova Terra.

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