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Nixon deixou um discurso pronto caso a Apollo 11 falhasse; leia

No dia 18 de julho de 1969, o redator de discursos oficiais do presidentes dos EUA escolhia cuidadosamente as palavras que ninguém queria ouvir.

O presidente americano Richard Nixon, lembrado por ser o único chefe do executivo da história dos EUA a renunciar o cargo (consequência direta do Watergate), foi também o primeiro ser humano a fazer uma ligação diretamente pra Lua.

Do outro lado da linha (e do espaço), estavam os astronautas Buzz Aldrin e Neil Armstrong, primeiros homens a caminhar sobre a Lua.

Esse feito foi televisionado para milhões, no dia 20 de julho de 1969. E o presidente não poupou palavras bonitas e frases de efeito:

“Olá, Neil e Buzz. Estou falando com vocês por telefone diretamente da Sala Oval da Casa Branca. Este é certamente o telefonema mais histórico já feito.

Eu mal consigo lhes dizer quão orgulhoso todos estamos do que vocês fizeram. Para cada americano, este deve ser o dia de maior orgulho de nossas vidas. E para as pessoas ao redor do mundo, eu tenho certeza de que elas também se juntam com os americanos no reconhecimento da imensidão deste feito.

Por causa do que vocês fizeram, os céus tornaram-se parte do mundo do homem. E enquanto vocês falam conosco a partir do Mar da Tranquilidade [ou Mare Tranquillitatis, uma região da Lua], nos inspiram a redobrar nossos esforços para trazer paz e tranquilidade à Terra.

Por um momento inestimável em toda história humana, todas as pessoas nesta Terra são verdadeiramente uma: uma em seu orgulho no que vocês realizaram, e uma em nossas orações de que vocês voltarão em segurança à Terra.”

Apesar de, publicamente, ter se posicionado sempre com a certeza de que os dois voltariam bem, nenhum chefe de estado pode governar só na base do otimismo, certo? Ainda mais considerando uma missão inédita e tão arriscada. Chegar até a Lua era apenas o primeiro dos obstáculos.

Voltar talvez fosse o maior deles.

Buzz e Neil pousaram na lua usando o Eagle, uma cápsula que fazia parte da nave Columbia e tinha sido projetada exatamente para pousar na Lua. Fazer aquele módulo lunar tripulado realizar uma aterrissagem não traumática em solo extraterrestre era o desafios inicial, mas acoplar de volta a cápsula na nave mãe requeria ainda mais trabalho.

Se eles falhassem em acoplar o Eagle de volta, o terceiro (e menos famoso) tripulante da missão recebeu ordens claras: abandonar os astronautas. Michael Collins que não chegou a descer na Lua e ficou esperando os companheiros na nave mãe não poderia, em hipótese alguma, tentar salvar os outros dois. Ele assistiria de camarote à condenação dos amigos.

“Se tivessem falhado, Neil Armostrong e Buzz Aldrin não poderiam ser resgatados. O Centro de Controle de Missão teria de ‘encerrar as comunicações’ e, conforme o mundo agonizava, deixar os astronautas condenados morrerem de fome ou então cometerem suicídio”, disse o jornalista William Safire ao New York Times.

Safire sabe do que está falando: na época, era o redator oficial dos discursos do presidente Nixon. Foi ele também o encarregado de escrever as palavras do presidente para o discurso que ninguém queria ouvir: o anúncio caso tudo desse errado. Se Neil e Buzz fossem abandonados, Nixon teria o fardo de contar a situação ao mundo, nas palavras planejadas antecipadamente por Safire.

Há exatos 50 anos, em 18 de julho de 1969, o jornalista enviou o texto final ao presidente. As instruções também incluíam as cordialidades mandatórias: Nixon deveria primeiro ligar para as possíveis viúvas, para avisá-las antes que o mundo inteiro soubesse.

Talvez elas fossem as primeiras a ouvir a frase de abertura: “o destino ordenou que os homens que foram à Lua para explorar em paz… permaneçam na Lua para descansar em paz”.

De fato, não foi fácil para Buzz e Neil escaparem do “Mar da Tranquilidade” (enquanto um deles se movia desengonçadamente na cabine graças à gravidade baixa da lua, um disjuntor que controlava os motores da nave foi danificado).

Ainda assim, eles conseguiram se encontrar com Michael e os três voltarem seguros à Terra. Felizmente, ninguém precisou as dramáticas palavras de Nixon. O possível discurso entrou para a história como uma relíquia nunca usada.

O que não invalida a importância histórica do discurso. Você pode ver uma versão digitalizada da carta original aqui.

Hoje, ela faz parte do acervo da Biblioteca e Museu Presidencial Richard Nixon. Confira o discurso na íntegra, em português se você se emociona fácil (como essa repórter que vos fala), é bom separar o lencinho:

‘O destino ordenou que os homens que foram à Lua para explorar em paz ficarão na Lua para descansar em paz.
Estes homens corajosos, Neil Armstrong e Edwin Aldrin, sabem que não há esperança para sua recuperação. Mas eles também sabem que há esperança para a humanidade em seu sacrifício.
Estes dois homens estão entregando suas vidas pelo objetivo mais nobre da humanidade: a busca pela verdade e pelo conhecimento.
Eles serão velados pelas suas famílias e pelos seus amigos; serão velados pela nação; serão velados pelas pessoas do mundo; serão velados pela Mãe Terra que ousou enviar dois de seus filhos para o desconhecido.
Em sua exploração, eles levaram pessoas do mundo a se sentir como uma só; em seu sacrifício, eles solidificam a irmandade entre os homens.
Nos tempos antigos, os homens olhavam as estrelas e viam seus heróis nas constelações. Nos tempos modernos, nós faremos o mesmo, mas nossos heróis serão épicos homens de carne e osso.
Outros os seguirão e, certamente, encontrarão o caminho de casa. A busca do homem não será negada. Mas esses homens foram os primeiros e eles permanecerão como primeiros em nossos corações.
Cada ser humano que olhar para a Lua nas noites que virão saberá que existe um canto de outro mundo que é para sempre da humanidade.’

Abaixo do discurso, o texto apontava as seguintes orientações:

ANTES DA DECLARAÇÃO DO PRESIDENTE:
O Presidente deve telefonar para cada uma das futuras viúvas.
DEPOIS DA DECLARAÇÃO DO PRESIDENTE, NO MOMENTO EM QUE A NASA ENCERRA A COMUNICAÇÃO COM OS HOMENS:
Um clérigo deve adotar o mesmo procedimento que em um enterro no mar, recomendando suas almas para a ‘mais profunda das profundezas’, encerrando com o Pai Nosso.”