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Nova Zelândia pretende se declarar livre do coronavírus em questão de dias

Caso isso aconteça, será o primeiro país que teve mais de 100 casos a ter se livrado da Covid. Entenda as políticas deles contra a pandemia.

Por Bruno Carbinatto Atualizado em 5 jun 2020, 20h10 - Publicado em 5 jun 2020, 20h08
Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia. Dave Rowland/Getty Images

O governo da Nova Zelândia anunciou que pretende declarar, nas próximas semanas, que o país está oficialmente livre do coronavírus. Atualmente, só há um caso da doença ativo em todo o território, de uma mulher não identificada que está em tratamento domiciliar, e não há registros de novos casos há 21 dias. As autoridades esperam que ela se cure nos próximos dias, o que significa que, se nenhum outro caso for identificado, a Nova Zelândia será o primeiro país a ter eliminado completamente a transmissão do coronavírus (entre as nações que tiveram ao menos 100 casos). 

Para adotar o status de “livre” do vírus, o Ministério da Saúde estabeleceu que o país deve ficar 28 dias sem registrar novos casos desde que a última infecção foi confirmada, o que deve acontecer na semana que vem. Um modelo que estima novas infecções, da Universidade de Otago diz que, segundo esse critério, o país tem 99% de chances de atingir a eliminação total do vírus.

Além disso, o governo vai revogar a maioria das medidas de restrição de movimentos impostas no país, com exceção das que se referem ao controle de fronteiras. Já há algumas semanas a quarentena vem sendo gradualmente relaxada à medida que os casos caem no país, permitindo que a volta a normalidade aconteça aos poucos. Com isso, a Nova Zelândia é frequentemente apontada como um dos melhores exemplos no combate à pandemia, somando 1.504 casos (entre confirmados e prováveis) numa população de 5 milhões de habitantes, e somente 22 mortes.

Qual a receita do sucesso? A abordagem científica das autoridades. O governo, liderado pela primeira-ministra Jacinda Ardern, decidiu tomar suas decisões baseadas em evidências científicas. Diversos especialistas em saúde pública das universidades do país foram convidados para serem conselheiros das autoridades, e foi este grupo que guiou a maioria das decisões, que parecem ter sido cruciais para a rápida eliminação do vírus no país. Apesar de estrelar o noticiário internacional, Ardern não foi protagonista nesta batalha. Na verdade, a popular primeira-ministra aparecia pouco nas conferências de imprensa sobre a pandemia, dando preferência para Ashley Bloomfield, seu ministro da saúde, e outros especialistas de seu corpo técnico.

Decisões baseadas na ciência

No dia 14 de março, o governo neozelandês anunciou que qualquer pessoa que entrasse em seu território deveria ficar em isolamento obrigatório por 14 dias. Na época, a medida foi vista como uma das mais restritivas do mundo em relação a fronteiras – e a Nova Zelândia só tinha 6 casos registrados. Apenas cinco dias depois, a primeira-ministra proibiu que estrangeiros entrassem no país, que tinha 28 casos. A justificativa, na época, foi sempre a mesma: modelos científicos mostravam que agir com antecedência, quando os casos ainda são poucos, é muito mais efetivo do que tentar resolver o problema depois.

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No dia 23 de março, o país optou por entrar em “lockdown” por duas semanas: é o tipo mais restritivo de quarentena, em que apenas serviços essenciais funcionam e a maioria da população deve ficar em casa. Alguns, dentro e fora do país, criticaram a medida por ser radical demais para uma nação que só tinha 102 casos confirmados e zero mortes. Ao anunciar a medida, Ardern disse: “Podemos ter apenas 12 casos, mas a Itália também já teve esse número em um ponto”. 

O país também vem conduzindo um bom número de testes: são 8 mil por dia, segundo o governo. Outros países que vem testando em massa sua população também estão tendo bons resultados no combate à doença, como Islândia, Alemanha e Coreia do Sul. Mas a Nova Zelândia tem um bônus: as autoridades estão conseguindo fazer um ótimo trabalho de rastreamento das infecções – ou seja, identificar e testar a maioria das pessoas que tiveram contato com doentes, o que permite encontrar pessoas assintomáticas mais facilmente. O jogo é simples: quando a pessoa sabe que está infectada, ela redobra os cuidados para se manter isolada.

Nem tudo é positivo, claro. A economia do país parece ter sido bastante afetada, tanto pelo lockdown quanto pela queda expressiva do turismo, uma das principais indústrias no país. Os impactos econômicos futuros ainda não estão totalmente estabelecidos, mas um recente relatório estimou que a taxa de desemprego do país pode saltar de 4% para 13% em breve.  Assim como em outros países, a questão de saúde pública foi politizada, com políticos de oposição pregando que as medidas de prevenção estavam causando dano demais à economia do país.

Além disso, alguns especialistas temem que o vírus ainda pode estar circulando silenciosamente pela população através de casos assintomáticos, o que poderia levar a uma segunda onda após a reabertura. Um ponto que pode prejudicar a situação é que o uso de máscaras por lá não pegou tanto como em outros países – e o governo nunca recomendou a prática. 

Mesmo assim, a população do país parece estar aprovando o caminho escolhido pelo governo: em abril, 87% disseram concordar com as medidas, contra apenas 8% que pensam que são muito extremas. Ardern também a primeira-ministra mais popular do país em um século, e o Partido Trabalhista, ao qual pertence, disparou nas pesquisas de opinião e agora lidera as intenções de voto nas eleições, previstas para este ano.

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