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O pulo do gato

Entre o gato selvagem que chegou pela primeira vez perto de um humano e o gatão peludo e preguiçoso esparramado no seu sofá, existe um longo caminho. Ou será que não?

Texto Barbara Axt

Há quem diga que nem domesticados de verdade eles são. O que importa é que tomamos esse bicho como companheiro, o espalhamos pelo mundo e criamos diversas raças. Para saber como isso aconteceu, se é que aconteceu, vamos lá para o começo da história.

Ninguém sabe exatamente quando os gatos deixaram de ser animais selvagens e passaram a viver entre nós. “As mudanças pelas quais o gato passou ao ser domesticado são sutis, como a cor da pelagem e o comportamento, coisas que não são possíveis de descobrir nos vestígios arqueológicos”, explica Melinda Zeder, arqueobióloga do Museu Nacional de História Natural dos EUA. “Já o esqueleto do cachorro é bastante diferente do esqueleto do lobo. Assim dá para saber exatamente quando essa transição aconteceu”, diz.

O que se sabe é que a domesticação ocorreu apenas uma vez. Pode ter acontecido no norte África, na região do Egito, 9 mil anos atrás. Ou, segundo uma pesquisa da Universidade de Oxford, na Inglaterra, que em 2007 analisou o DNA mitocondrial de quase mil gatos, essa transição entre a selva e a vida doméstica pode ter acontecido há 10 mil anos no Crescente Fértil, região entre Israel e Iraque, local das primeiras aldeias fixas. E então, na companhia dos humanos, os gatos foram parar no resto do mundo (veja o mapa na página 8).

A maior diferença entre os gatos selvagens e os domésticos é o intestino mais longo, que permite uma dieta menos carnívora. E a pelagem, provavelmente associada a uma seleção natural pelos animais menos agressivos – há suspeitas de que os gatos rajados (pelagem chamada “agouti”) seriam mais ariscos. Segundo o cientista Carlos Driscoll, um dos autores da pesquisa, ainda assim, os atuais gatos domésticos não estão muito distantes dos seus primos selvagens. “Do cerca de 1 bilhão de gatos domésticos no mundo, 97% são vira-latas, o que significa que eles se reproduzem sem nenhuma seleção de parceiros feita pelos humanos. E a maior parte deles não depende dos humanos para conseguir abrigo ou comida”, afirma. Por isso, vez ou outra um deles resolve voltar para o mato e viver por conta própria – os chamados gatos ferais, que costumam perder também a docilidade.

Isso explica como algumas raças nasceram naturalmente. De volta à natureza, mas a ambientes que nunca tinham habitados, os gatos se diversificaram pelo bom e velho processo de seleção natural. Aqueles de lugares frios, por exemplo, se tornaram maiores e corpulentos, como o pelo-curto-britânico, enquanto os que foram para lugares quentes se tornaram longilíneos, como o siamês. “Os gatos conhecidos como orientais maximizam a superfície do corpo para dissipar o calor, ao contrário do que acontece com o norueguês-da-floresta, que precisa retê-lo o máximo possível”, afirma o veterinário inglês Bruce Fogle em seu guia ilustrado de gatos. Outras características foram perpetuadas por indivíduos isolados em certas regiões. A ausência de rabo, por exemplo, é resultado de uma mutação genética que aparece de vez em quando entre gatos e acaba se perdendo à medida que eles cruzam com gatos normais. Mas, na população isolada da ilha de Man, no mar da Irlanda, a mutação foi mantida, se disseminou e ficou famosa. Nasciam assim os manx. Da mesma forma, na Nova Zelândia, gatos com um dedo a mais em cada pata deram origem à raça antipodean clippercat.

Raças inventadas

Ainda que as primeiras raças de gato tenham surgido naturalmente, nos últimos 200 anos essa seleção passou a ser artificial e bem cuidadosa. Virou um hobby e um negócio lucrativo. Em alguns casos, a seleção artificial acentua características como uma cor ou um padrão de pelo, ou faz o gato ficar mais longilíneo, por exemplo. Em outros, o cruzamento serve para transformar uma mutação genética em raça, como a orelha “dobrada” do scottish fold, o pelo crespo dos rex e a total falta deles nos sphynx. Na natureza, essas mutações provavelmente desapareceriam sozinhas – seriam diluídas em cruzamentos com gatos normais. Mas os homens perceberam como dar uma mãozinha para que elas se perpetuem. Basta identificar aquele gatinho que nasceu diferentão da ninhada e cruzá-lo com outros com características parecidas – ou com gatos normais – e torcer para que os genes que as conferem sejam dominantes.

Só não mexemos mais na constituição dos gatos, a exemplo do que fizemos com os cães, porque a própria natureza não deixou. “A variação de formas é pequena porque o genoma dos gatos é muito mais estável do que o dos homens, por exemplo”, afirma Eduardo Eizirik, especialista em biologia molecular de felinos, da PUC-RS. Por isso, tentativas de cruzamentos que buscavam criar animais muito maiores ou menores do que a média, como acontece com os cachorros, não foram bem-sucedidas. Mesmo assim, seguimos tentando.

O máximo que se conseguiu no sentido de criar um minigato foi o polêmico munchkin, que na verdade é um gato anão, com os ossos das pernas encurtados por uma mutação. Já os bichinhos vendidos como teacups, que supostamente são gatos em miniatura, não são mutações nem resultado de cruzamentos. Na maioria dos casos, não passam de gatinhos prematuros ou com problemas de desenvolvimento e por isso não são reconhecidos por nenhuma associação de criadores de gatos.

Esses cruzamentos, aliás, também podem perpetuar traços perigosos à saúde dos bichos. É o caso da raça mais popular do mundo, o persa. A cara bem achatada, conquistada depois de milhares de cruzamentos, atrapalha sua respiração – na Europa, certos criadores estão “voltando atrás” no padrão da raça e criando persas com focinhos um pouco mais longos. O gene que causa essa mudança anatômica pode ainda trazer danos sérios à saúde. Como acontece com o gene que faz a orelha do scottish fold ficar daquele jeito. Ele aumenta as chances de malformações ósseas, problemas renais e inclusive cardíacos. Gatos da raça manx, sem rabo, também têm uma alta ocorrência de artrite, problemas digestivos e ainda intercorrências na córnea.

Mas nem só a aparência importa. Alguns cruzamentos foram feitos em busca de gatos com temperamento atípico – mais uma vez, como acontece com os cães. Como a controversa história do ragdoll. A raça nasceu em 1960 nos Estados Unidos depois que uma gata branca e felpuda chamada Josephine foi atropelada por um carro. Sua dona, a americana Ann Baker, passou a jurar que seus filhotes nasciam diferentes: demonstravam poucos instintos felinos. Não caçavam ou protegiam seu território e se derretiam no colo de qualquer pessoa como bonecas de pano (em inglês, ragdoll). Para perpetuar essas características, Ann resolveu cruzar Josephine com um de seus filhotes, de aparência birmanesa. Acabou criando uma das raças mais queridas hoje em dia.

Gatos ilustres

Jock a herança de Churchill Ele era só um gato laranja, mas seu dono, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill. Jock sempre o acompanhava. Estava até em sua cama na hora da morte. Em testamento, o político britânico deixou sua casa em Chartwell para o governo, com uma exigência: sempre ter um gato laranja morando nela.

Tee Cee o vidente
O americano Michael Edmonds sofre de epilepsia, doença com ataques imprevisíveis – pelo menos para nós, humanos. Em 2009, percebeu que seu gato Tee Cee passa a lhe encarar pouco antes de cada ataque e corre para os pés de sua mulher, tentando avisar algo. Ninguém sabe como ele faz isso.

Tommy o socorrista
Em 2006, o deficiente físico americano Gary Rosheisen caiu de sua cadeira de rodas e ficou imóvel no chão de casa. Mesmo assim, minutos depois os bombeiros receberam uma ligação silenciosa. Quem discou foi Tommy. Treinado pelo dono, o gato aprendeu a apertar o botão de emergência do telefone.

Todas as cores
Tamanho e formato de corpo variam pouco. Mas a seleção natural deu aos gatos cores que vão do azul ao pêssego

Cingapura
Origem: Cingapura e EUA, 1975

Tonquinês
Origem: EUA e Canadá, 1960

Havana Brown
Origem: Inglaterra e EUA, 1950

Russian Blue
Origem: Rússia, antes do séc. 18

Apesar do nome, eles são prateados e não azuis. Esses bichos brilhantes, que mais parecem um desenho animado, eram apenas gatos comuns na Rússia. Quando foram levados para a Inglaterra no século 19, fizeram tanto sucesso que se tornaram uma raça.

A força dos mutantes
Eles têm genes excêntricos, que sobreviveram naturalmente ou encontraram alguém disposto a criar uma nova raça.

Manx
Origem: Ilha de Man, antes de 1700

Scottish Fold
Origem: Escócia, 1961

Devon Rex
Origem: Reino Unido, 1960

Laperm
Origem: Estados Unidos, 1982

Sphynx
Origem: Canadá, 1978

Alguém resolveu pegar um gato com uma mutação que o fazia ficar pelado e cruzar com outros até criar uma raça nova. Mas, ao contrário do que parece, o sphynx não é totalmente careca. Ele na verdade tem pelos bem finos e curtos – mais ou menos como a pele de um pêssego.

Unchkin
Origem: EUA, anos 1980

O nome é uma referência aos anões do filme O Mágico de Oz. Esses gatinhos são na verdade anões e sofrem de acondroplasia. Há quem considere antiético o cruzamento de gatos para a manutenção de um problema genético, podendo causar problemas de coluna e quadris (como acontece com algumas raças de cães, como o dachshund). Por isso, vários países não reconhecem o munchkin como raça.

Ragdoll
Origem: Canadá, 1978

Para saber mais
Guia Ilustrado de Gatos, Brue Fogle, Zahar, 2006.