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Óleo no mar

Agora, com o caso do Prestige, a União Européia também deve adotar regula-mentação semelhante.

André Muggiati

O acidente com o petroleiro grego Prestige, em novembro, que derramou cerca de 77 mil toneladas de óleo na costa da Espanha, trouxe o assunto novamente às primeiras páginas da imprensa internacional. Porém, esse não é um caso isolado: os acidentes com navios transportando petróleo têm se repetido e provavelmente vão continuar acontecendo. O Instituto Worldwatch, uma das mais respeitadas instituições de diagnóstico ambiental do planeta, estima que desde o naufrágio do Exxon Valdez, em 1989 – o maior ocorrido em toda a história , já foram derramadas mais 1,1 milhão de toneladas de óleo nos mares. Ou 30 vezes o que o Valdez derramou.

Não há como impedir que isso volte a ocorrer? A resposta é polêmica. Para o professor da Escola de Engenharia Naval da Universidade de São Paulo (USP), Cláudio Ruggieri, este tipo de acidente poderia ser evitado, sim, ou pelo menos minimizado, se o transporte de petróleo fosse feito em navios de casco duplo. “As embarcações são dotadas de um casco interno e outro externo. Caso haja uma colisão com recifes, por exemplo, o dano ficaria limitado ao casco externo, preservando-se o interno, que contém o petróleo”, afirma o professor. Hoje, a frota de petroleiros no mundo soma 7 320 navios. Desses, 5 243 têm cascos simples e apenas 2 077 apresentam casco duplo. Os Estados Unidos proibiram, em 1989, o acesso de petroleiros de casco simples a seus portos. Agora, com o caso do Prestige, a União Européia também deve adotar regula-mentação semelhante.

Mas regras e acordos parecem não estar funcionando. Desde 1948, quando foi criada a Organização Marítima Internacional, mais de 40 convenções e tratados internacionais foram assinadas. Entre eles, há acordos para o reforço dos cascos e a revisão de rotas que se aproximem de hábitats mais sensíveis.

A fiscalização continua sendo um problema. Em parte, causado pelas bandeiras de aluguel. Os navios destinados ao transporte de alto risco em sua maioria são registrados na Libéria, Bahamas, Malta e Panamá, países onde as regras sobre acidentes marinhos são frouxas e os governos não cumprem os tratados internacionais. Eles representam grande parte da frota mundial e têm clientes garantidos, pois oferecem fretes mais baratos. “Não há pressão política que obrigue as empresas a gastarem mais para transportar o óleo”, diz Cláudio.

Para o ambientalista do Greenpeace Marcelo Furtado, a responsabilização de todos os envolvidos no transporte do óleo poderia representar a pressão econômica que falta para a adoção de medidas mais eficientes, como o casco duplo. “Hoje em dia, a transportadora é a única responsável pelo óleo. No dia em que as empresas exploradoras de petróleo forem punidas por esse tipo de acidente, elas vão se preocupar mais com quem contratam para fazer o serviço”, diz Furtado. Outra medida seria um compromisso maior dos governos locais: se a resposta do governo espanhol tivesse sido mais rápida, uma parte do óleo poderia ter sido retirada do Prestige antes de ele afundar. Mas ele demorou muito, alegando que o navio encontrava-se em águas portuguesas. Mais uma boa idéia que naufragou.

Por fim, o ambientalista apresenta uma solução radical: a substituição do petróleo por outras fontes de energia, renováveis. O problema é que, hoje em dia, essas fontes são consideradas muito caras. “O custo do petróleo não inclui o custo ambiental de acidentes como o da Galícia. Se incluísse, chegaríamos à conclusão de que energias renováveis são, na verdade, mais baratas”, diz Marcelo.

Tragédias anunciadas

Grandes acidentes e os danos que causaram

LOCAL E DATA – Galícia, 2002

ACIDENTE – Prestige 77 mil toneladas de óleo

IMPACTO – O óleo atingiu as praias da Galícia, na Espanha, e ilhas do oceano Atlântico

PROVIDÊNCIAS – Ainda não se contabilizaram os efeitos da tragédia, que se estende por dezenas de quilômetros da costa espanhola. Estima-se que mais de 50 mil aves já morreram por causa do desastre

CONSEQÜÊNCIAS – O óleo não foi retirado do navio antes de afundar; foram feitas tentativas de bloquear o óleo, com material absorvente, antes que chegasse às praias; equipes trabalham na limpeza das praias e no resgate de animais

LOCAL E DATA – África do Sul, 2002

ACIDENTE – Jolly Rubino 1,3 mil tonelada de petróleo

IMPACTO – Após um incêndio, o vazamento atingiu uma reserva natural considerada patrimônio da humanidade pela ONU

PROVIDÊNCIAS – O navio foi rebocado para o alto-mar e grande parte do óleo foi salvo a tempo

CONSEQÜÊNCIAS – O óleo atingiu o estuário que liga ao principal lago do parque St. Lucia Wetlands. O diretor de conservação do parque, Richard Penn Sawers, diz que os efeitos ambientais do vazamento ainda são incertos

LOCAL E DATA – Equador, 2001

ACIDENTE – Jessica 700 mil litros de combustível

IMPACTO – O arquipélago de Galápagos é patrimônio natural da humanidade da Unesco e tem dezenas de espécies que só vivem ali. Mais de 60% da população de iguanas foi morta, em algumas ilhas

PROVIDÊNCIAS – Parte do óleo foi retirada do navio antes de afundar; foi usado material absorvente para recolher o óleo do mar; foram resgatados animais em situação de risco e uma grande operação de limpeza das praias

CONSEQÜÊNCIAS – Não há estimativas de recuperação

LOCAL E DATA – Alasca, 1989

ACIDENTE – Exxon Valdez 50 mil toneladas óleo (ou 40 milhões de litros)

IMPACTO – O óleo atingiu áreas virgens e biologicamente ricas, matando milhares de espécies de animais, peixes e vegetais

PROVIDÊNCIAS – Foram mobilizados milhares de homens para a limpeza das praias, mas há sinais de que alguns métodos usados, como a lavagem das praias com água quente, também são prejudiciais ao ecossistema

CONSEQÜÊNCIAS – 13 anos após o acidente ainda há sinais de óleo em algumas praias e parte do produto se depositou subterraneamente; as espécies atingidas ainda não recuperaram sua população original