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OMS: Covid-19 não surgiu em laboratório; origem animal é mais provável

Equipe de especialistas está na China e reportou os primeiros resultados da investigação sobre a origem da pandemia – que talvez nem tenha começado em Wuhan

Por Bruno Carbinatto 9 fev 2021, 17h46

Uma equipe de investigadores da Organização Mundial da Saúde anunciou nesta terça-feira (9) que o Sars-CoV-2, o coronavírus causador da Covid-19, provavelmente chegou aos humanos vindo de algum animal selvagem – e não escapando de algum laboratório, como algumas teorias já afirmaram. Além disso, é possível que Wuhan, a cidade chinesa que ficou conhecida no mundo todo no início da pandemia, não tenha sido na verdade o palco da primeira infecção, já que não há indícios de que o vírus estivesse circulando por lá antes de dezembro de 2019.

As alegações são resultado de uma investigação da OMS que visa desvendar as verdadeiras origens da pandemia – além das medidas tomadas pela China para contê-la e alertar o mundo sobre o real perigo. Um time de especialistas está no país asiático há mais de duas semanas e, após um período de quarentena obrigatória, visitaram pontos importantes da cidade de Wuhan, como o Mercado Atacadista de Frutos do Mar de Huanan, onde acreditava-se poder ter sido a origem da doença, e o Instituto de Virologia de Wuhan, centro de pesquisa da cidade que coletava vírus da natureza para estudá-los. O laboratório era alvo constante de teorias que diziam que o Sars-CoV-2 poderia ter vazado de lá, intencional ou acidentalmente, ideia que chegou a ser endossada pelo ex-presidente americano Donald Trump, embora altamente rejeitada por Pequim.

  • A equipe da Organização Mundial de Saúde anunciou em coletiva de imprensa que essa possibilidade é “extremamente improvável” e que, entre as linhas de investigação sugeridas para se dar andamento nos estudos sobre a origem do vírus, não incluirá a teoria de que ele tenha vindo de um laboratório. Segundo os especialistas, é mais provável que o vírus tenha saltado para os humanos vindo de morcegos, muito provavelmente com algum animal no meio da cadeia de transmissão que serviu de hospedeiro intermediário – mas a espécie em questão ainda não foi identificada.

    “Nossas descobertas iniciais sugerem que a introdução por meio de uma espécie hospedeira intermediária é o caminho mais provável e que exigirá mais estudos e pesquisas direcionadas mais específicas”, disse o especialista em segurança alimentar e doenças animais da OMS, Peter Ben Embarek.

    Outro ponto levantado pela equipe é que não é possível afirmar que Wuhan foi de fato o lugar de surgimento da doença. Segundo a equipe, não foram encontrados indícios de casos por lá antes de dezembro de 2019, quando uma “pneumonia de causa desconhecida” começou a ser reportada em hospitais. Por outro lado, nenhuma outra região da China também apresentou tais indícios, tornando o ponto exato da transmissão original um mistério.

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    O mercado de frutos do mar (wet market) de Huanan, em Wuhan, foi apontado várias vezes como um possível local dessa transmissão no começo da pandemia, já que vendia animais selvagens exóticos e vivos sob condições de higiene questionáveis. Mas desde o ano passado essa teoria passou a perder força, já que a China anunciou ter testado todas as amostras do local e não ter encontrado o vírus. Uma das possibilidades é que o local tenha sido palco de um “evento de supertransmissão” – uma aglomeração que acaba contaminando várias pessoas de uma vez só. A nova investigação determinou não ser possível determinar se o mercado foi ou não a origem do vírus.

    Uma outra possibilidade considerada pelos pesquisadores é a da “transmissão por cadeia de frio” – ou seja, que o vírus tenha sido transportado pelo mundo através de produtos alimentícios congelados. A China reforça essa possibilidade – possivelmente como uma forma de se considerar que o vírus não surgiu lá, mas foi importado de outro país. A equipe disse que, embora isso seja possível, ainda são necessários muitos estudos para entender como o vírus se comporta nessa situações e se ele conseguiria de fato infectar um humano.

    A investigação não é definitiva. Ela ainda irá sugerir quais caminhos os novos estudos devem seguir para encontrar respostas mais certeiras. Além disso, os resultados foram apenas anunciados em uma coletiva para a imprensa, com uma escassez notável de dados e informações específicas. Um relatório completo e detalhado da equipe deve ser liberado em breve.

    A própria missão de investigação está envolta em polêmicas: o governo da China apenas aceitou que ela acontecesse em maior de 2020, após uma enorme pressão internacional liderada pela Austrália – o que acabou tumultuando as relações diplomáticas dos dois países. Havia (e ainda há) uma grande desconfiança sobre como a China, que é uma ditadura, lidou com a pandemia nos seus primeiros estágios, possivelmente omitindo informações para diminuir o tamanho da crise. O governo chinês, é claro, nega, afirmando que o vírus era um inimigo novo e que nenhum país saberia a melhor forma de lidar com ele logo de cara.

    A equipe de 14 especialistas, que conta com biólogos, zoólogos e epidemiologistas, chegou a ser barrada de entrar no país temporariamente por problemas em seus vistos; após chegaram a China, tiveram que passar por duas semanas de isolamento devido as regras de quarentena do país. Críticos ao projeto de investigação determinado pela OMS temiam que o governo chinês pudesse omitir informações, mas os resultados divulgados até agora parecem ser positivos à imagem do país.

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