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Peixe australiano tem o maior genoma de um animal já sequenciado

Ele é o parente mais próximo da espécie que saiu da água e deu origem aos animais terrestres. E seu genoma pode indicar como esse processo ocorreu.

Por Bruno Carbinatto Atualizado em 20 jan 2021, 10h13 - Publicado em 20 jan 2021, 10h12

O peixe-pulmonado-australiano é o animal com o maior genoma já sequenciado por cientistas em todo o mundo. É o que diz um novo estudo, publicado na revista Nature.

Com quase 43 bilhões de pares de bases, o genoma do bicho é 14 vezes maior que o de um ser humano (com 3 bilhões de pares de bases), e 30% maior que o recordista anterior, o axolote – uma espécie de salamandra mexicana conhecida por sua fofura incomum.

A descoberta foi feita por pesquisadores alemães e austríacos, que também haviam sequenciado o genoma do axolote em 2018. Eles utilizaram uma tecnologia de ponta que consiste em “dividir” o genoma em partes menores para serem sequenciadas – diminuindo, assim, as chances de erros no processo. Depois de todos os fragmentos terem sido sequenciados, um algoritmo reconstruiu o genoma completo.  No total, o processo exigiu mais de 100 mil horas de desempenho do computador usado.

O peixe-pulmonado-australiano é considerado um “fóssil vivo” porque mudou muito pouco ao longo dos milhões de anos de evolução desde que os primeiros animais aquáticos começaram a desenvolver adaptações que os levaram a habitar os ambientes terrestres. Além disso, a espécie, que é nativa dos rios do sudeste da Austrália, é especialmente relevante, já que é um dos parentes aquáticos mais próximos dos animais terrestres. Isso que indica que estudar o peixe pode ajudar a entender como esse fenômeno se deu.

Prova disso é que ele é um dos poucos peixes que possui um pulmão primitivo capaz de auxiliar na respiração: quando os níveis de oxigênio na água são baixos ou ao fazer muito esforço, o peixe pode subir para a superfície e sugar ar por suas narinas (em condições normais, porém, ele respira pelas brânquias, como um peixe comum). Quando a espécie foi descoberta pela primeira vez, no século 19, essas características fizeram com que os cientistas da época classificassem o peixe erroneamente como um anfíbio.

Do ponto de vista genético, o peixe-pulmonado-australiano ainda possui uma série de genes associados ao desenvolvimento de membros articulados, de pulmões e de outras características necessárias à vida na terra. “Em uma perspectiva genômica, [ele] é genomicamente um meio caminho entre um peixe e um vertebrado terrestre”, disse Siegfried Schloissnig, autor do estudo, à revista NewScientist. 

A análise genética confirmou que o peixe é o parente mais próximo do tal peixe-pulmonado extinto, que conseguiria se adaptar para viver em terra firme e deu origem a todos os tetrápodes, como mamíferos e aves. Segundo o estudo, o peixe australiano se divergiu da linhagem que conquistaria a terra há cerca de 420 milhões de anos, enquanto a transição para fora das águas aconteceu entre 400 milhões e 380 milhões de anos. Antes dessa confirmação, havia a hipótese de que peixes conhecidos como celacantos pudessem ser os nossos parentes peixes mais próximos, mas essa espécie se separou antes na escala evolutiva.

 

 

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