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Pesquisadores brasileiros encontram fóssil raro de inseto no Ceará

O registro, feito na Bacia do Araripe, pode ajudar cientistas a responderem questões ecológicas e climáticas do passado.

Por Carolina Fioratti Atualizado em 29 out 2020, 18h50 - Publicado em 29 out 2020, 17h49

Entre 113 e 125 milhões de anos atrás, no período conhecido como Cretáceo Inferior, África e América do Sul ainda formavam um único continente, conhecido como Gondwana. Mas os blocos de terra já davam indícios de separação: na região que hoje compreende a Bacia do Araripe, no Ceará, havia uma pequena abertura que formava um oceano estreito e raso. A beira deste oceano, estava um ambiente composto por lagos e rochas, conhecido hoje como Formação Crato. 

Essas são as principais informações que temos hoje sobre a região. Mas, um fóssil raro de inseto voador, encontrado recentemente por lá, pode ajudar os cientistas a desvendarem diversos aspectos desse cenário. 

O bichinho é um representante da ordem Ephemeroptera – ou simplesmente efêmeras. Ele foi encontrado em 2018 por uma equipe de paleontólogos da Universidade Regional do Cariri (URCA) e, posteriormente, estudado por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). O estudo foi publicado nesta quarta-feira na revista científica Plos One. Este é apenas o segundo fóssil de adulto da família Oligoneuriidae a ser encontrado no mundo – e o primeiro a ser reportado na literatura acadêmica. 

Dar de cara com um fóssil destes não é fácil: as efêmeras são insetos aquáticos e vivem em locais com correnteza e fluxos de água intensos. “Esses ambientes não são muito propícios para fossilização”, explica Arianny Storari, principal autora do estudo. “A correnteza poderia quebrar as asas, abdômen e outras partes delicadas do inseto.” É isso que torna o fóssil tão raro. 

  • Além disso, a efêmera descrita tinha alguns traços curiosos. Suas asas traziam um padrão intermediário de dois grupos de Ephemeropteras. “Isso provavelmente acontece porque é um grupo mais primitivo, que ainda não havia sofrido todas as pressões da seleção natural para ter o padrão que vemos hoje”, disse a pesquisadora. “É como se o inseto estivesse na metade do caminho evolutivo.”

    O padrão único rendeu à nova espécie o nome de Incogemina nubila, que significa “geminação incompleta” em latim. “Nubila”, por sua vez, quer dizer “nublado”, uma referência à coloração acinzentada do calcário em que estava o fóssil.

    As efêmeras são ótimos biomarcadores ambientais, ou seja, a análise destes insetos pode ajudar os cientistas a responderem questões ecológicas e climáticas do passado. No entanto, esses são passos dos próximos estudos. 

    Por ora, há apenas hipóteses. Os pesquisadores identificaram várias larvas do inseto que morreram de uma vez só em um pedaço do calcário. As larvas, que se desenvolvem na água, provavelmente foram atingidas por algum tipo de estresse climático. “Existe a hipótese de que o clima era bem quente, tendendo a aridez”, disse Arianny. “Então, havia na verdade complexos de lagos que poderiam secar esporadicamente. Com os lagos secando, as larvas podem ter morrido pela falta de oxigênio. Mas ainda não podemos afirmar.”

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