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Reconstituíram o DNA do avô de todos os animais – da água-viva ao elefante

O primeiro bicho – ancestral comum de cães, caramujos, capivaras e tudo o mais – viveu há 650 milhões de anos. E foi um sucesso evolutivo: o ser humano deve 55% dos seu genes a ele

Há algo entre 6 e 13 milhões de anos, um animal marrom e peludo se balançava nas árvores da savana africana. Com certeza se parecia com um macaco – dos grandes, diga-se, nada de mico-leão – mas é arriscado dar uma descrição mais precisa do que isso: seus fósseis, se é que existem, nunca foram encontrados. Da biografia dessa espécie, hoje extinta, só sabemos o essencial. Um belo dia, provavelmente graças a uma barreira geográfica, parte de sua população foi isolada. A partir daí, o grupo principal e o grupo secundário tomaram rumos evolutivos diferentes. Um daria origem aos chimpanzés e bonobos. Outro, a nós, seres humanos.

Legal. Mas se o homem veio do macaco, de onde veio o macaco? Aí é preciso voltar um pouco mais: há 75 milhões de anos – mais ou menos na altura do seu avô número 15.000.000 – viveu o mamífero que daria origem tanto aos primatas quanto aos roedores. Em outras palavras, o ancestral comum entre você e as capivaras. 10 milhões de avós antes disso, encontramos os cachorros, hipopótamos e cavalos. E por aí vai: estrelas-do-mar, joaninhas, minhocas, águas-vivas… Até chegar há mais ou menos 650 milhões de anos, quando todo o reino animal – todo mesmo – se resumia a um único ser vivo. O tataravô de tudo nesse mundo que não é planta, cogumelo ou micróbio.

O pretinho básico do mundo animal, a esponja do mar, é bem simples, e o pioneiro dos metazoários na certa era mais simples do que isso. Mas na falta de fósseis, só há uma maneira de conhecê-lo melhor: deduzir seu DNA a partir da análise do material genético de seus descendentes. Foi o que fizeram os geneticistas Jordi Paps e Peter Holland, da Universidade de Oxford – os resultados foram publicados na Nature.

Os dois analisaram o DNA de 62 espécies – de pessoas a tubarões – em busca de genes “universais”. A ideia é simples: se um pedacinho de DNA está presente em todos os animais, é porque ele era parte do material genético do primeiro animal. Do tataravô máximo. Não há outra maneira razoável de ele ter se tornado tão abrangente. Dos 1,5 milhão de genes analisados, só 6.331 cumpriam esse pré-requisito. Esses, dá para afirmar com certeza absoluta, faziam parte do manual de instruções do primeiro de todos os bichos – tanto é que compõem, até hoje, 55% do DNA funcional do ser humano.

Esses genes naturalmente não têm a ver com a produção de papilas gustativas, olhos ou outras coisas complexas – para as quais um ouriço não dá muita bola. Eles estão mais relacionados a características estruturais essenciais para qualquer animal, como a transmissão de informações de uma célula para a outra ou a produção de proteínas que mantém colônias de células unidas fisicamente (dois passos essenciais para que seres microscópicos se unam para formar organismos maiores, multicelulares).

O mais curioso, porém, é que desses 6.331 genes, mais de mil não estavam presentes no parente mais próximo do ancestral comum de todos os animais – algo como o “irmão” de nosso avô. Ou seja: o ancestral foi um organismo inovador, cheio de soluções tecnológicas inéditas na natureza da época.

“Nós prestamos atenção nos genes do primeiro genoma animal que não estão presentes em outras formas de vida”, explicaram Paps e Holland em um texto. “Ele tinha um número excepcional de genes novos, quatro vezes mais que seus ancestrais. Isso significa que evolução dos animais foi impulsionada por uma explosão de genes novos que não haviam aparecido antes em organismos unicelulares.” Em outras palavras, animais foram a internet da pré-história – uma invenção criativa da seleção natural que se disseminou rápido, criou um novo jeito de viver e mudou a cara do planeta Terra. Você e seu cachorro, pode comemorar, são parte disso.