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Remédios a la carte

Depois que o quebra-cabeças genético tiver sido montado, os médicos do futuro poderão prescrever drogas personalizadas para curar doenças que hoje nos apavoram

Denis Russo Burgierman

Fim do check-up. Na pergunta, o tom é de preocupação:

– Está tudo certinho com a minha saúde, doutor?

– Nada demais – responde o médico, tranqüilo. – Você tem apenas um tumor maligno se desenvolvendo no cérebro e suas artérias obstruídas indicam um enfarte iminente. Aguarde um minutinho que vou mandar fazer uns remedinhos para você.

– Ainda bem que não é nada grave – diz o paciente, vestindo a camisa.

Esse diálogo talvez não pareça tão surreal em 2030. Até lá, os cientistas conhecerão bem os mecanismos por trás das doenças que mais nos assustam e a indústria farmacêutica produzirá medicamentos que suprirão o corpo com aquilo que está faltando e nos livrarão do que está sobrando. E são grandes as chances de prolongar a vida sem a necessidade de anestésicos e de bisturis, só com remédios precisos que atuam apenas onde são necessários.

Medicamentos assim infelizmente ainda estão muito longe das prateleiras das farmácias. A humanidade deu apenas o primeiro passo na direção deles quando concluiu, neste ano, o seqüenciamento do genoma humano. Já sabemos quais são todos os genes responsáveis por construir nosso corpo e mantê-lo funcionando, mas ninguém ainda tem idéia de para que serve cada um. “Nas próximas duas ou três décadas, descobriremos quais deles são culpados por quais doenças”, afirma o biólogo americano Ken Dewar, do Centro de Genoma do Massachusetts Institute of Technology, o MIT, nos Estados Unidos.

Cada gene é responsável pela produção de um pedaço de uma proteína. Se todas as 4 000 doenças que afligem nossa espécie são causadas pelo menos em parte pelo excesso ou pela falta de alguma proteína, bastaria entregar ao doente a que está a menos ou dar uma enzima que destrua a que está a mais.

Hoje, os remédios são desenvolvidos pelo método de tentativa e erro. Biólogos tiram moléculas de plantas e bichos e as injetam em ratos com câncer ou alguma outra doença que queiram tratar. Se o rato morrer, pena, tenta-se outra coisa. Se ele sarar, então pode ser que eles tenham encontrado uma substância útil para a saúde humana – isso se ela não tiver efeitos colaterais mais terríveis que o mal a ser tratado.

Apesar de devermos muito do que somos hoje aos resultados desse sistema, trata-se de um método bastante ineficiente. Para cada remédio que chega à prateleira, milhares acabam na lata de lixo e algo como 400 milhões de dólares são gastos nesse processo, o que encarece demais os medicamentos que você compra.

No futuro, será possível diminuir consideravelmente esse esforço. Quando soubermos direitinho o mecanismo de morte celular, poderemos jogar nas células do tumor moléculas que as façam cometer suicídio. Para combater a Aids, ainda que ninguém encontre uma forma de matar o poderoso vírus HIV, bastará consertar as células do sistema imunológico, que, como todas as outras, são feitas de proteínas. De um modo geral, as enfermidades genéticas poderão ser tratadas suprindo o organismo das proteínas que o gene deveria estar produzindo. As doenças infecciosas serão enfrentadas destruindo as proteínas que os vírus e as bactérias produzem ou dando ao corpo as moléculas que os agentes infecciosos destroem. Os remédios do futuro, portanto, funcionarão como softwares de gerenciamento das proteínas naturais do corpo humano.

Essa abordagem de dar ao corpo a molécula que ele precisa parece aos cientistas bem mais segura do que a de tentar consertar diretamente os genes deficientes fazendo com que eles próprios produzam a proteína certa. “Mudar um gene é para sempre. E se um erro for cometido?”, diz Dewar. “A alteração não apenas dura até a morte do paciente como também é transmitida para os seus descendentes. Agir apenas com proteínas é muito mais simples e bem menos arriscado.”

Em 2030, cada um de nós – ou pelo menos aqueles que puderem pagar – fará um mapeamento de seus genes ao nascer, ou mesmo antes, durante a gestação. Os dados ficarão armazenados num chip, que será implantado sob a pele para que qualquer médico possa lê-lo, seja num exame de rotina, seja numa emergência. De posse desse perfil genético, o especialista saberá que substâncias estão faltando e quais estão sobrando no nosso organismo, a quais doenças estamos vulneráveis e que cuidados devemos tomar para não desenvolvê-las.

O mapa genético de uma pessoa nunca é igual ao de outra. Por isso, cada um vai precisar de medicamentos sob medida. “Hoje, os remédios para uma determinada doença são iguais para todo mundo. É como uma camisa de tamanho único, que serve para todos, mas não cai bem em ninguém”, diz o médico João Massud Filho, diretor da divisão médica da filial brasileira da gigante farmacêutica Bristol-Myers Squibb. “Em 2030, faremos camisas sob medida.” Os medicamentos terão dosagens precisas, adequadas para cada paciente. E isso reduzirá enormemente os efeitos colaterais, fazendo com que os tratamentos sejam muito mais eficientes e possam se estender por mais tempo.

Isso significa que a medicina finalmente concretizará o velho sonho de encontrar a cura para males tão terríveis quanto o câncer? Difícil responder a essa pergunta sem a ajuda de uma bola de cristal. Mas, embora haja muitas drogas novas e promissoras sendo testadas, o mais provável é que a resposta seja não. Os cientistas estão percebendo que algumas doenças têm causas tão variadas e complexas que é praticamente impossível livrar o organismo definitivamente delas. “Mas vamos aprender a controlá-las. Isso é bem mais viável do que curá-las”, diz o imunologista James Baker, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Baker, que é visto pelos colegas como um visionário, acha que o futuro da Medicina está em diagnósticos cada vez mais precisos, que vão denunciar as enfermidades num estágio muito primitivo, antes que o estrago esteja feito. “Hoje, só nos tratamos depois de ficarmos doentes. Em 2030, mataremos os males antes que se manifestem”, afirma.

Para tentar apressar a chegada desse futuro, Baker fundou, no ano passado, o Centro para Nanotecnologia Biológica, um laboratório que reúne médicos e engenheiros para trabalhar no desenvolvimento de máquinas minúsculas para detectar doenças. Suponha que uma garotinha perfeitamente saudável faça o mapeamento genético e descubra que um determinado gene dela produz uma proteína de forma que a torne propensa a ter câncer no seio anos mais tarde. O médico, então, injeta nas células da região uma engenhocazinha do tamanho de uma célula de sangue, com sensores capazes de perceber alterações químicas. Décadas depois, no momento em que a primeira célula começar a se dividir anormalmente para gerar um tumor, a máquina capta as substâncias químicas que são produzidas nessa divisão e solta uma pequena quantidade de uma proteína venenosa, matando o câncer antes mesmo de ele poder ser visto.

Essas fantásticas maquininhas não servirão apenas para doenças de origem genética. Males viróticos como a Aids também poderão ser tratados de forma semelhante. Bastará prover a corrente sangüínea de robôs microscópicos que façam o trabalho do sistema imunológico danificado pelo HIV. Os aparelhos atacarão invasores, produzirão proteínas que a Aids destrói e afastarão infecções oportunistas.

Baker imagina também nanomáquinas que ficarão soltas no sangue, vigiando o estado do organismo e apitando a cada vez que uma célula, um órgão ou um tecido começar a se comportar de modo estranho, antes que seja tarde demais. Então, bastará passar no médico, descobrir quais proteínas você está precisando e tomar uma dose preventiva.

Quer dizer que chegará o dia em que ninguém mais vai ficar doente? Todos teremos saúde perfeita? Provavelmente não. Por mais que a Medicina avance, ela jamais andará tão rápido a ponto de livrar a humanidade de todas as enfermidades. “Se acabarmos com uma doença hoje, não dou duas semanas para que surja algo que não conhecemos ainda”, diz Baker. Mas ficará para trás o tempo em que o diagnóstico de uma nova doença soa quase como uma sentença de morte.

 

drusso@abril.com.br

Frase

“Hoje só nos tratamos depois de ficarmos doentes. Em 2030, mataremos os males antes que se manifestem”

Viveremos 130 anos?

Imagine que os médicos derrotem mesmo o câncer e controlem a Aids nos próximos 30 anos. Que as doenças cardíacas possam ser contornadas com medidas preventivas que vão de uma alimentação mais saudável até remédios eficientes para melhorar a circulação. E que os pesquisadores consigam diminuir o risco de mortes por infecção e aprendam a combater pela raiz os males genéticos. Se tudo isso acontecer, do que vamos morrer?

Tudo indica que viveremos muitos anos a mais do que nossos pais e nossos avós. A expectativa de vida nos Estados Unidos, que era de 47 anos em 1900, pulou para 76 anos em 1999 e deve encostar nos 100 nas próximas décadas. É bem provável que alguns entre os que estão nascendo agora estejam vivos para soprar as velinhas do 120o ou 130o aniversário. A Organização das Nações Unidas calcula que a quantidade de centenários no planeta, que hoje não chega a 150 000, passe dos 2 milhões em 2050.

Tudo muito bom, tudo muito bonito, mas será que essa longevidade toda é mesmo positiva? O demógrafo Ronald Lee, da Universidade da Califórnia, Estados Unidos, calculou que, para cada ano a mais na nossa expectativa de vida, a economia terá que crescer 1%. Caso contrário, não haverá dinheiro para sustentar tanta gente.

Outra conseqüência do envelhecimento da população é que enfermidades consideradas raras há algumas décadas se tornarão cada vez mais comuns – assim como o câncer e os problemas cardíacos se tornaram corriqueiros no último século porque se manifestaram em gente que escapou da morte precoce por diarréia ou tuberculose. “Teremos que nos preocupar principalmente com doenças degenerativas do sistema nervoso”, diz o médico João Massud Filho, da Bristol-Myers Squibb. Daí a importância de pesquisar males, como o de Alzheimer, que deverão afetar milhões de pessoas nas próximas décadas.

Por mais que a Medicina siga derrotando as doenças, resta o desafio de manter os tecidos do corpo intactos – afinal, até materiais resistentes como os metais se desgastam com o tempo. Mesmo para isso, no entanto, pode haver remédio. Há cientistas, como o biólogo Robert Langer, do MIT, tentando descobrir formas de refazer órgãos degenerados com células cultivadas em laboratório. “Em 2030, provavelmente seremos capazes de construir um coração novo”, diz.

Movendo pesquisas como essa está o desejo de viver para sempre. Nada contra. Mas quem pagará nossas aposentadorias se já hoje os sistemas de pecúlio estão se mostrando inviáveis? Como se vê, a lista de problemas da vida cresce à medida que se encontram as soluções.