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Revisão de estudo sobre fosfina diminui esperanças de vida em Vênus

A equipe que anunciou a detecção em setembro percebeu um erro nos dados – e agora afirma que a molécula não é tão abundante assim na atmosfera venusiana.

Por Bruno Carbinatto Atualizado em 21 nov 2020, 09h26 - Publicado em 20 nov 2020, 20h00

Em setembro, o mundo da astrobiologia recebeu com entusiasmo a notícia da detecção de fosfina na atmosfera de Vênus, nosso vizinho planetário. Na Terra, essa molécula é produto do metabolismo de alguns microorganismos que vivem sem oxigênio e geram energia por meio de artifícios bioquímicos diferentes da respiração que conhecemos. Assim, a presença de fosfina na atmosfera de outro planeta pode ser indício da presença de seres vivos similares.

Agora, a equipe responsável por essa detecção publicou uma atualização menos animadora de seu trabalho, corrigindo as observações divulgadas anteriormente. Segundo o novo estudo, a fosfina de fato existe em Vênus – mas em quantidades bem menores que as informadas anteriormente. Com isso, diminui a possibilidade de que ela seja sinal de vida. 

A reanálise dos dados veio após críticas de outros cientistas que não participaram do estudo. Como é de praxe na ciência, alegações extraordinárias precisam de evidências extraordinárias – e nem toda a comunidade acadêmica estava convencida de que as evidências eram suficientes para se chegar às conclusões divulgadas. 

  • Pelo menos três equipes de astrônomos diferentes analisaram os mesmos dados para tentar reproduzir a descoberta, e concluíram que a quantidade de fosfina ou era muito menor que anunciada, ou que não era possível provar que ela existia. Um dos estudos afirmou categoricamente que a “ identificação de fosfina nos dados deve ser considerada inválida devido a graves problemas de calibragem” nos equipamentos usados. Esses artigos, porém, ainda não foram revisados por outros pesquisadores nem publicados em periódicos especializados. 

    O estudo de setembro, que primeiro anunciou a detecção de fosfina em Vênus, se apoiou em duas bases de dados: a primeira coletada pelo Telescópio James Clerk Maxwell (JCMT), que fica no Havaí, e a segunda pelo potente observatório Atacama Large Millimeter Array (ALMA), localizado no Chile. Os dados do JCMT geravam suspeita desde 2017, mas a equipe só publicou em 2020 para aguarda a confirmação do ALMA, que é mais potente. Com essa confirmação, os cientistas se sentiram seguros para publicar seus resultados. 

    Após as críticas recentes, porém, a equipe reviu a base de dados do ALMA e corrigiu as estimativas originais. Agora, dizem os cientistas em novo artigo, a quantidade média de fosfina na atmosfera de Vênus é estimada em apenas uma parte por bilhão – aproximadamente um sétimo do que havia sido calculado antes.

    Segundo Jane Greaves, astrônoma da Universidade de Cardiff, no Reino Unido, e líder do projeto internacional, o erro aconteceu porque havia um sinal espúrio na base de dados original do ALMA, que interferiu nos resultados. A  base de dados corrigida foi publicada pelo ALMA no dia 16 de novembro, e no dia seguinte os cientistas publicaram o artigo com a nova análise. 

    A equipe reitera, porém, que seus dados indicam sim a presença de fosfina no planeta – ainda que adotem um tom menos assertivo e rotulam seus resultados como provisórios, dependentes de novos estudos. Um ponto que pesa em favor dessa conclusão é que as observações foram feitas através de dois telescópios distintos, o que diminui a chance de haver um erro duplo.

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    Além disso, um estudo feito por uma equipe totalmente diferente também parece favorecer a ideia de que fosfina existe em Vênus. Inspirados pela publicação de setembro, um outro grupo de cientistas analisou os dados coletados pela missão Pioneer Venus 2, da Nasa, que colocou uma sonda em órbita do nosso vizinho planetário em 1978.

    Segundo esse outro grupo, já naquele ano a Nasa havia detectado sinais de compostos contendo fósforo com massa parecida com a fosfina. Na época, ninguém percebeu que isso era algo importante, até porque o objetivo dessa missão não era procurar por vida. Além disso, não é possível afirmar que era mesmo fosfina – pode ser um composto parecido, ainda que a dita-cuja seja a candidata mais provável. 

    A fosfina não é sinônimo de vida. Também pode se formar em impactos de meteoritos, reações químicas catalisadas por raios ou mesmo vulcões. No estudo de setembro, a equipe analisou todas essas possibilidades e concluiu que nenhuma delas era compatível com os dados. Só restaram duas possibilidades: ou algum fenômeno desconhecido por nós estava produzindo o gás em Vênus, ou ele era resultado de processos biológicos.

    A ideia de que pode haver vida em Vênus não é nova. Há bilhões de anos, o planeta tinha condições climáticas amenas e habitáveis, parecidas com a da Terra atual. Hoje, a temperatura média na superfície de Vênus é de 462 ºC, e a pressão atmosférica é 90 vezes maior que a nossa – um cenário nada convidativo para a vida.

    A questão é que as camadas da atmosfera venusiana localizadas a uns 60 km da superfície são mais amigáveis, com temperaturas na faixa de 27 ºC e metade da pressão atmosférica terrestre. Parece algo que um micróbio chamaria de lar. Em 1967, o astrônomo Carl Sagan escreveu que não é nada difícil imaginar uma forma de vida adaptada às nuvens de Vênus.

    Mesmo após a correção aparentemente desanimadora do estudo inicial, a quantidade que os cientistas afirmam ter detectado ainda é um possível indício de vida. Uma outra explicação para a origem da fosfina em Vênus seria o vulcanismo do planeta. Mas, para essa hipótese se encaixar nos dados, a quantidade de gás presente na atmosfera deveria ser menor que as duas estimativas – tanto a original quanto a corrigida.

    Desse modo, o debate sobre a presença da fosfina em Vênus – e se ela indica ou não a presença de vida – está longe de acabar. Até agora, tanto os estudos que afirmam tem encontrado fosfina como os que questionam a descoberta se baseiam em dados antigos ou coletados por telescópios baseados na Terra, que não foram criados especificamente para fazer esse tipo de detecção.

    Todos os resultados são extraídos dessas observações usando métodos que podem sofrer com erros ou interferências. O meio mais eficaz de bater o martelo sobre a questão seria enviar uma sonda para o planeta com um equipamento feito especificamente para detectar ou não a fosfina (e outros compostos).

    Infelizmente, a única sonda que está orbitando Vênus nesse momento é a japonesa Akatsuki, que não carrega detectores adequados para essa empreitada. Não por muito tempo: a detecção de setembro ouriçou agências espaciais pelo mundo – e deu gás para projetos de exploração do planeta que possam, enfim, confirmar ou não a presença de fosfina. 

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